ZEN E A ARTE DE MANIPULAR DADOS

04/06/2012

 

Alexandre Schwartsman

Folha de S.Paulo, 25/04/2012

Sempre que forem citados números absolutos, desvinculados de qualquer referência, desconfie.

Ao longo dos anos (e não são poucos!) como economista fui aprendendo a reconhecer alguns truques retóricos. Um dos mais comuns consiste em apresentar grandezas sem escalas que permitam uma comparação efetiva dos valores envolvidos. Pensando bem, talvez essa não tenha sido a minha frase mais feliz como articulista, mas o que quero dizer é bem mais simples.

 

Concretamente, quando alguém menciona um determinado valor (tipicamente “bilhões de reais”), sem dizer, contudo, como isso se compara à evolução de outras variáveis, como o produto, as receitas do governo ou qualquer outra grandeza que possa ser relevante para o assunto em questão, não tenham dúvida: o argumento não está sendo feito de forma equilibrada (ia dizer “honesta”, porém poderia soar algo injusto), mas, sim, com o objetivo de reforçar um dos lados da história.

Exemplos abundam. “O Bolsa Família custa ‘X’ bilhões por ano”, sem mencionar que, seja relativamente ao PIB, seja na comparação com as despesas do governo, trata-se de grandeza irrisória. Ou “a dívida pública no Brasil atingiu ‘Y’ trilhões”, sugerindo um processo descontrolado, quando, na verdade, mesmo a dívida bruta tem se mantido entre estável e decrescente na comparação com o PIB, mostrando precisamente o inverso.

Nessa linha de argumentação, li recentemente, a respeito da proposta de nova renegociação das dívidas estaduais, mesmo tema da minha última coluna (ah, essas obsessões!), que certos governos já tinham feito pagamentos equivalentes a uma vez e meia o valor original da dívida, mas, apesar disso, o montante a pagar ainda era cinco vezes maior que o inicial.

É impossível ler uma afirmação como essa e não concluir que a dívida seria impagável nas atuais condições, necessitando de uma repactuação urgente.

Quase impossível, aliás, pois o treinamento a que me referi no primeiro parágrafo praticamente exige o exame dos números antes de concordar com a afirmação, dados esses disponíveis no site do BC.

De fato, segundo tais números, a dívida dos Estados com a União por conta da renegociação ocorrida na segunda metade dos anos 1990 atingira R$ 137 bilhões em dezembro de 2000, mas, a despeito de amortizações desde então, chegou a R$ 369 bilhões no fim do ano passado, 1,7 vez mais do que o valor registrado 11 anos antes.

Seria assim insustentável, exceto, é claro, por dois outros desenvolvimentos relacionados: o PIB, que em 2000 era de R$ 1,2 trilhão, atingiu R$ 4,1 trilhões em 2011; em linha com isso, a arrecadação estadual, de R$ 93 bilhões em 2000, chegou a nada menos de R$ 365 bilhões no ano passado.

Assim, se é verdade que a dívida cresceu 1,7 vez mais, também é verdade que o PIB aumentou 2,4 vezes mais e a arrecadação nada menos do que 2,9 vezes mais no mesmo período.

Posto de outra forma, a dívida, que representava 11,6% do PIB em 2000 (equivalente a um ano e meio de arrecadação), caiu para 8,9% do PIB (equivalente a um ano de arrecadação) em 2011. Vista por essa ótica, já não parece insustentável.

Pelo contrário, as condições hoje vigentes são mais favoráveis do que as observadas no início da década passada, quando a dívida chegou a quase 13% do PIB (ou 1,6 ano de arrecadação).

Há duas morais nessa história.

Se a renda familiar cresce bem mais do que sua dívida, não há como evitar a conclusão de que a capacidade de pagamento da família aumentou. O mesmo vale para qualquer governo (estadual, federal ou municipal) e para qualquer empresa. Nesse sentido, pedir mais uma renegociação porque a dívida seria “impagável” equivale a nova rodada de subsídios, cujo custo recai sobre a população dos Estados que não foram originalmente favorecidos, ou seja, os mais pobres.

A outra retorna ao tema do meu primeiro parágrafo. Sempre que forem mencionados números absolutos, desvinculados de qualquer referência, desconfie. Alguém está tentando, de forma nada sutil, obter benefícios à nossa custa.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 49, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil, sócio-diretor da Schwartsman & Associados Consultoria Econômica e professor do Insper.

www.maovisivel.blogspot.com
alexandre.schwartsman@hotmail.com

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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