VOCÊ JÁ FOI ENTREVISTADO POR ALGUMA PESQUISA EM UMA ELEIÇÃO?

29/07/2010

Imagem publicad no blog do Breizola Neto

Por Maurício Costa Romão

No Jornal do Commercio de hoje, dia 29/07, tem uma interessante “Carta à Redação”, sob o título “Institutos”, na qual o senhor Leônidas Marques, de 76 anos de idade, eleitor desde os anos 50, questiona o fato de nunca ter sido entrevistado por uma pesquisa eleitoral (vide texto, em destaque, abaixo). 

 “Tenho 76 anos, eleitor desde os anos 50, e acho muito estranho jamais ter sido procurado por um Instituto de Pesquisas para uma declaração de voto. E os senhores, que neste momento lêem esta carta, já foram procurados alguma vez pelos por esses institutos? Esta pergunta prende-se ao fato de que, num universo de aproximadamente 250 eleitores da cidade onde moro, Volta Redonda, não encontrei uma só pessoa que tenha sido pesquisado. Até quando vamos deixar os institutos elegerem os candidatos?”

» Leônidas Marques – Rio de Janeiro – leo_vr@terra.com.br

Como o senhor Leônidas, inúmeros outros eleitores se fazem a mesma pergunta. Observam que pesquisa vai, pesquisa vem, e nunca são entrevistados, por qualquer que seja o instituto.

Apesar das justas razões e inquietações que assistem a esses eleitores, do ponto de vista estatístico e probabilístico não há o que estranhar, na verdade. As pesquisas de intenção de voto são amostrais, quer dizer, consultam apenas uma pequena parte da população. Daí por que ser raro, muito raro, um determinado eleitor fazer parte de uma dessas amostras aleatórias.

Veja-se, por exemplo, o caso brasileiro, que tem um universo de 136 milhões de eleitores. Aqui, os institutos de pesquisa fazem, em geral, levantamentos de 2.000 questionários (Ibope, nas últimas oito pesquisas para Presidente, por exemplo) a 2.500 (número “padrão” do Datafolha para pesquisa nacional para Presidente, por exemplo).

O eleitor deveria perguntar-se, então: “sendo eu apenas um eleitor em 136 milhões, qual é a minha chance (probabilidade) de ser entrevistado numa amostra de 2.000 questionários?”

Para seu desalento, e talvez espanto, vai descobrir que a probabilidade de ele ser entrevistado é baixíssima: apenas um eleitor tem chance de ser entrevistado em cada grupo de 68.000!

Ou seja, seriam necessárias 68.000 pesquisas, com amostras de 2.000 eleitores, para que os pesquisadores pudessem entrevistar todos o eleitorado brasileiro. Isso considerando ainda que nenhum eleitor fosse pesquisado mais de uma vez.

A tabela que acompanha o texto mostra as proporções de eleitores entrevistados em pesquisas de diferentes tamanhos de amostra, tanto para o Brasil, quanto para Pernambuco.

As amostras do Brasil, como já mencionado, são de 2.000 a 2.500 questionários, no geral, e as de Pernambuco, utilizam, mais comumente, de 800 a 2.000 (Datafolha, Vox Populi, Método, IMN, Exatta, Ibope, Ipespe, etc.). O tamanho da amostra é fixado em função de vários fatores, incluindo a proximidade da data do pleito: quanto mais próximo, maior tende a ser a amostra. Os números da tabela são apenas indicativos dos tamanhos mais usados.  

Vê-se que quanto menor é o universo de eleitores maior é a chance de uma pessoa ser entrevistada, para um mesmo tamanho de amostra. Compare-se na tabela, por exemplo, Pernambuco e Brasil, para uma aplicação de 2.000 questionários. A chance de um eleitor ser pesquisado em Pernambuco é cerca de 22 vezes maior. Ainda assim, não é fácil encontrar um eleitor pernambucano que haja sido entrevistado.

Mesmo em Volta Redonda, onde mora o senhor Leônidas, ele teria dificuldades de ser entrevistado por lá. Com um universo de 212.511 eleitores no município (dado do TSE p/ julho 2010), uma pesquisa de 100 questionários dá uma chance a seu Leônidas de vir a ser abordado por um pesquisador de tão somente 0,047%, que dizer, uma chance em cada 2.125.

Enfim, o senhor Leônidas nunca ter ser entrevistado é uma fatalidade da estatística. Aconteceu também com milhares de outros eleitores, que gostariam de participar do processo eleitoral mediante manifestação de suas preferências diretamente nas entrevistas.

Como isso é muito raro acontecer, o jeito é compartilhar do processo através de simples acompanhamento dos resultados divulgados pelas pesquisas. Neste caso, ainda que resignadamente, o eleitor deve se sentir como se entrevistado fora, como se suas opiniões estivessem ali representadas.

2 Comentários
Antonio Magalhães

De fato não conheço nenhum ex-entrevistado por instituto de pesquisa. Só se a coisa for secreta. O comentário for proibido. Mas outro dia vi uma entrevistador em Boa Viagem, Recife, fazendo uma pesquisa eleitoral com uma moça que parecia uma empregada doméstica. Possivelmente não era moradora do bairro. Será que o entrevistador a caracterizou como moradora de Boa Viagem? Coisas da estatística. Romão seu comentário está "bão"!

Marlise

Por que parecia uma empregada domestica? Não entendi.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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