VERDADES EMPLUMADAS

08/05/2012

Marta Suplicy

Folha de S.Paulo, 05/05/2012

Fui ver o filme “Sete Dias com Marilyn” sem grandes expectativas. Simpatizo com Marilyn Monroe e não acreditava que fosse possível representá-la. Mas não é que Michelle Williams consegue nos transmitir uma Marilyn de verdade! Ou pelo menos em sua fragilidade, no uso como poucas da sedução, na graciosidade e como manipuladora-mor.

Sem esquecer o amor da câmera pela sua luz, como disse Laurence Olivier rendendo-se a ela: “Maravilhosa, nenhum treino, nenhuma técnica, só puro instinto!”. Isso é o que ele pensa. Provavelmente foram anos de lapidação de uma sobrevivente.

Essa “verdade” que acaba sendo transmitida nas telas -e que, por isso, não precisaria de treino- irrompeu quando eu seguia o debate entre os candidatos à Presidência da França. Foi forte a minha percepção: de um lado, um pavão, talvez um “poseur”, e do outro, um galinho de briga, controlado, mas com olhar de fúria.

O treino do mundo dificilmente encobre o que os espectadores sentem sem se darem conta. Foi um debate superinteressante, com cada candidato podendo interromper o outro para expressar sua divergência (o que tornou o encontro mais tenso) ou até a virulência e a clareza de ataques.

Quem votar não poderá dizer que foi enganado. Aos poucos, o jeito firme e sereno de Hollande, o candidato socialista, foi transparecendo, e a ironia defensiva e raivosa de Sarkozy foi se impondo sobre os personagens criados.

As questões centrais (economia e desemprego) passaram longe. O que predominou foram as cobranças do socialista (“Você trabalha para os privilegiados”) e acusações, como “caluniadorzinho” e a palavra “mentira” repetidas incessantemente por Sarkozy.

Ele não escondeu o profundo desprezo que sente por Hollande, e este não conseguiu conter sua aversão por Sarkozy. O presidente francês empenhou-se em mostrar a tibieza e a inexperiência do candidato da oposição. Não conseguiu. Ao contrário, Hollande se apresentou calmo e com respostas sólidas às provocações mais pesadas. O “galo de briga” foi ficando cada vez mais raivoso e desrespeitoso, e o “pavão”, mais humano, fazendo uso controlado da ironia na qual é um expert.

O refrão “Eu, presidente, farei…”, usado todo o tempo por Hollande, foi muito forte, e me chamou a atenção a não reação do atual presidente. O socialista apropriou-se do status do adversário e se fez como chefe de Estado -o que é mortal num debate que visa a desqualificação da inexperiência.

Assim como Marilyn, todos se mostraram nas suas idiossincrasias, roupagens e manhas. Gestos concretos, como fez Sarkozy ao retirar o relógio de pulso e escondê-lo no bolso antes de cumprimentar a turba ignara, também falam. Quem ganha?

MARTA SUPLICY escreve aos sábados nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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