TROCANDO EM MILHÕES

20/07/2013

Fonte: elaboração própria com base em pesquisa da CNT/MDA

Maurício Costa Romão

Na pesquisa de opinião da CNT/MDA, realizada de 7 a 10 de julho do corrente, quando argüidos sobre a quem principalmente se dirigiam os protestos realizados em junho no Brasil, os entrevistados apontaram os políticos em geral (49,7%) e o sistema político no país (21,0%). Isso quer dizer que 70,7% do eleitorado brasileiro culpam o establishment político pelas mazelas existentes.

Talvez por que tenha detectado esse sentimento um mês antes, a presidente Dilma Rousseff cuidou de se isentar de responsabilidades e redirecionar os petardos das manifestações para a classe política, via emparedamento do Congresso Nacional.

Nessa estratégia, buscou ressuscitar a questão da reforma política via consulta pública, na forma de plebiscito. Acontece que a reforma política foi considerada, na mesma pesquisa, a reivindicação mais importante das manifestações por apenas 16,5% da população.

Ademais, quando o cidadão concede status de prioridade à reforma política ele não está colocando em primeiro plano a mudança de sistema proporcional de lista aberta pelo de lista pré-ordenada ou pelo majoritário-distrital. Nem, tampouco, dando ênfase à discussão do financiamento de campanha, ou à existência de suplentes de senador.

Quando o cidadão elege a reforma política como importante ele está querendo mudanças nas instituições políticas, na prática política, no comportamento dos políticos.

Na verdade, as demandas mais prioritárias apontadas na pesquisa foram o fim da corrupção (40,3%) e melhorias na saúde (24,6%). Estes dois itens mais melhorias na educação, transporte público e segurança perfazem nada menos que 81% das reivindicações mais importantes na visão do povo. Essa pauta é prioritária, portanto, para 115,8 milhões de eleitores (de um total estimado de 143 milhões em 2013).

O foco nesses itens indica que a aparente “demanda popular difusa” nos protestos não encontra respaldo na evidência empírica (apenas 0,4% da população respondeu “outra”, afora as reivindicações listadas acima). A população exige mais cidadania e isso passa pelo combate à corrupção e pelas melhorias indicadas em: saúde, educação, transporte e segurança.

Não é a toa que quando perguntada na mesma pesquisa sobre a avaliação da presidente Dilma diante das manifestações a população quase que se divide no julgamento: 24,6% acharam positiva e 20,7% negativa. 35,2 milhões de pessoas contra 29,6 milhões, respectivamente.

Os motivos das manifestações apontados na pesquisa foram a insatisfação com (nesta ordem): corrupção, saúde, gastos da copa do mundo, preços e qualidade do transporte urbano, educação e segurança.

Obviamente que tal estado de frustração do povo seria refletido nos índices de avaliação do governo, conforme mostram os dados desfilados no gráfico acima. Entre junho e julho deste ano 32,7 milhões de pessoas deixaram de avaliar a gestão de governo como positiva, ao passo que o número de insatisfeitos cresceu 29,3 milhões.

Neste mesmo lapso de tempo, a provação do desempenho pessoal da presidente desabou (vide gráfica abaixo): de uma diferença favorável entre “aprova” e “desaprova” de 76,2 milhões em junho, o hiato se reduz à apenas 2,9 milhões em julho. Quer dizer, 34,9 milhões de brasileiros deixaram de aprovar o desempenho pessoal de Dilma Rousseff, enquanto o quantitativo dos que desaprovavam cresceu 38,4 milhões.

Fonte: elaboração própria com base em pesquisa da CNT/MDA

Mesmo diante desses números assustadores os estrategistas do Palácio do Planalto continuam ignorando a pauta concreta que essa pesquisa de opinião indicou. A idéia fixa tem sido a realização do plebiscito para a reforma política, como se a consulta popular tivesse o condão de minorar o desalento que toma conta do cidadão brasileiro.

A estratégia é de todo equivocada. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN), levada a efeito apenas na cidade do Recife, entre os dias 8 e 9 de julho do corrente, apontou um quadro que não deve ser muito diferente do resto do Brasil:

58,5% das pessoas não sabem o que é reforma política e acham o tema complexo (72,8%). As pessoas também não sabem o que é plebiscito (68,1%)  e, tampouco, o que é referendo (79,1%). Se as perguntas eram sobre sistema de voto, basta dar dois resultados: 78,5% não sabiam o que era o voto distrital e muito menos o que era o voto distrital misto (84,1%).

 

Como então o governo insiste em consultar as pessoas sobre assunto que elas desconhecem, ao invés de dar-lhes respostas concretas ao que demandam?

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br, http://mauricioromao.blog.br.

 

3 Comentários
Gustavo Maia Gomes

Os petistas criaram um mundo só deles; tudo o que acontece fora deste mundo inventado, para eles, não acontece

Marcelo Simões

Mais uma excelente análise e questionamento que acompanho e aprovo, mas não acredito que este Grupo de Poder capitaneado pelo PT CONSIGA FAZER MAIS NADA POR QUE ENGES SADO : 1. Politicamente pelo Ordenamento de Lula (tira autonomia e agilidade de decisão), da sede de cargos e receitas do PT (conflita com boa gestão adm. e política) e conflitos de interesses com as Aliança (paralisa, adia e custa mais caro para o erário qualquer projeto\proposta do governo), tudo num Sistema Político partidário e eleitoral que reforça perversamente os resultados negativos destas relações; 2,, Economicamente pela fraqueza e volatilidade da Conjuntura Internacional, pela falta de Reformas e Ações de Economia e boa gestão Fundamentais que complementem o Plano Real e que simplifiquem as Relações Econômicas do e entre o Estado e a Sociedade quais sejam, R,Tributária, Inversão da Pirâmide de Tributos arrecadados p municipalização das Ações de Governo (descentralização e delegação), Agências de Coordenação\Norma\Fiscalização dos Recursos e Relações Estratégicas, Firmeza na Política Monetária (Juros positivos, Flexibilidade cambial controlada,Autonomia B.Central,metas de inflação) e Fiscal (Deficit Zero, Orçamento realista, austeridade c Gastos correntes\menos repartições-enxugamento, etc,), evitar Políticas Setoriais e Subsídios que privilegiam Grupos Econômicos, etc, O PT no poder n fez nada disso, mas o contrário; 3.Administrativamente por toda esta contramão política e econômica anterior combinada com objetivos conflitantes de Boa Administração que é criar e dar cargos, funções e receitas partidárias para o PT e Aliados sem qualquer critérios de necessidade, finalidade, competências e produtivi dade gerando 35 Ministérios e contingente de pessoal gigantescos e não administráveis. Minha esperança é que esta onda Política Leviana no presente e Temerária p futuro acabe, por que acredito com firmeza que qualquer caminho político ideológico de centro Liberal Social ou Social democrata; sem Populismo; que preserve a democracia, a Rex Publica e equilíbrio dos poderes; que persiga objetivos políticos elevados, de austeridade Econômica (c\ retomada da capacidade de investimento) e práticas de excelência em administração (qualidade de Falconi, Johanpeter, etc,) com Estado fortíssimo em Fiscalização mas pequeno e Super concentrado em Educação, Saúde, Segurança, Fisco, Agências Reguladoras, Órgãos de Controle de Contas, Órgão de Concessão Pública Coordenada Fiscalizada (totalmente voltado p investimentos privados\ concessão em em saneamento, ferrovias, rodovias, energia, telefonia transporte coletivo urbano), Estrutura Diplomática "focada" em Comércio Internacional, e mais, Atividades meio de Planejamento e Gestão, tudo numa nova racional e simplificada estrutura de repartição fiscal, organizacional e sistema de administração do estado brasileiro. Caro Professor desculpe o excesso e ousadia de texto já que sou um Administrador e Empreendedor com formação acadêmica simples e sem extensão na tentativa de delinear plano de governo (ações) e ações políticas reestruturdoras do Brasil. Obrigado pela oportunidade,

arnon

Interessante essa pesquisa. E como o povo muda facil, como foi curto o periodo em que DILMA saiu do cèu para o inferno. È bom notar, tambem que das pessoas que participaram do inusitado movimento, apenas 11 ou 12% pertencem as classes C e D e mais, que as pessoas de grupos organizados de esquerda e os proprios partidos que tentaram participar foram rechacados, expulsos e ameacados. A titulo de informacao, esse movimento do passe livre, MPL, iniciou em 2005, exatamente pelos movimentos de esquerda. è bom, entao, nao comemorar antecipadamente.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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