TRANSPORTE, O MOTE DE 2012

15/12/2011

 

Editorial do Jornal do Commercio, 14/12/2011

O ensaio da campanha eleitoral do ano que vem tem buscado aderir a preocupação dos atores políticos a um dos problemas crônicos da Região Metropolitana: a questão da mobilidade. Diante do cenário de caos, em que o trânsito trava a qualquer hora do dia, a discussão promete dominar o ambiente para a eleição de prefeitos e vereadores.  O cenário dantesco é resultante de diversos fatores, entre os quais o aumento da frota de veículos, a ausência de controle urbano que permite o estacionamento nos dois lados das ruas, a carga e descarga de caminhões em horário livre, o tráfego de carroças, muitas puxadas por animais, entre automóveis e motocicletas, além da falta de faixas exclusivas para ônibus e de ciclovias, e a insuficiência de táxis em circulação. Para piorar, presenciamos o adensamento imobiliário sem o menor sinal de planejamento.

Então o Recife parou. Todas as artérias da cidade estão entupidas. Para que se estabeleçam diretrizes viáveis para sair da situação crítica, a população de classe média precisa ser estimulada a usar o transporte coletivo, para retirar dos corredores viários a quantidade absurda de carros particulares. No entanto, se há um consenso em torno do nó, é o de que o serviço de transporte coletivo é muito ruim. Os ônibus são desconfortáveis, a insegurança permite assaltos frequentes, os percursos oferecidos atendem a horários irregulares, e as linhas que deviam ser complementares ainda concorrem com o tímido serviço de metrô. Em relação à violência, as investidas criminosas voltaram a crescer, apesar da instalação de câmeras. Somente quem não tem outra opção recorre ao transporte público na Região Metropolitana – e como as opções para compra de carros e motos têm aumentado, reina o caos nas avenidas, enquanto os caminhos continuam os mesmos há décadas.

Apesar do anúncio de modernização do sistema de ônibus, que terá monitoramento por GPS e informação nos terminais para os usuários, os proprietários de veículos particulares dificilmente irão trocar de meio de transporte, ao comparar as alternativas disponíveis para cruzar o território abarrotado do Recife. As últimas administrações municipais promoveram pequenas mudanças e pouquíssimas melhorias, e por isso o passivo para a próxima gestão – inclusive para a atual, se prosseguir – será imenso. Na perspectiva da Copa do Mundo de Futebol de 2014, é de se imaginar o grau de inventividade que os candidatos devem apresentar no ano que vem. Mais importante seria uma dose de humildade àqueles que ocuparam os cargos executivos em anos recentes, e uma dose de ousadia à oposição que pretende convencer os eleitores de que podem se sair melhor.

Como bem observou a nossa colunista Cláudia Parente, a imobilidade urbana deságua no comprometimento da qualidade de vida do cidadão. Pode-se acrescentar o prejuízo à imagem não só da capital, mas do Estado, que não vem demonstrando competência para lidar com o atual ciclo de desenvolvimento: as oportunidades se ampliam, porém seu aproveitamento é pequeno, por causa do encolhimento da metrópole paralisada.



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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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