TOMEM A PRAÇA

06/06/2011

  

Rodrigo Russo

Folha de S.Paulo, 05/06/2011

No dia 27 de maio, na praça Catalunha, em Barcelona, cartazes repudiavam a violência policial, pediam “democracia real já!” e um mundo mais justo para todos. No dia 3 de junho, na praça da Sé, em São Paulo, os cartazes exibiam mensagem bem diferente: “compra-se ouro”.

Na praça Catalunha, naquele e nos três dias seguintes, jovens discutiam pelo fim dos privilégios dos políticos e dos banqueiros e diziam que ninguém os representava. Muitos se juntavam às conversas. Por aqui, em São Paulo, pastores de meia-idade pregavam que “Jesus Cristo é a salvação”. Poucos pedestres pareciam se importar. Em Barcelona, uma barraca instalada pelos “indignados” oferecia gratuitamente alimentação a todos aqueles que se dispusessem a ficar na fila, independentemente de pertencerem à manifestação.

Na Sé, os transeuntes pedem esmolas, muitas vezes motivados pela fome -o restaurante Bom Prato cobra R$ 1 por refeição.
Enquanto em Barcelona senhoras voluntárias usavam vassouras para deixar a praça Catalunha mais limpa, de forma a torná-la mais habitável, em São Paulo a limpeza da praça da Sé e de outros locais públicos serve também para que não sejam usados como abrigo à noite.

Aliás, o pretexto usado pela polícia catalã para desalojar os acampados naquela sexta, dia 27, foi a limpeza da praça.
Apesar de a situação econômica do Brasil ser melhor do que a da Espanha -onde o índice de desemprego na faixa de até 25 anos é de 44,6%-, não se pode dizer o mesmo da situação política.

A simbiose entre o poder político e o poder econômico que o caso Palocci escancara, sem entrar no mérito de sua legalidade, será tomada com naturalidade? Não seria justo exigir mudanças e mais transparência nos negócios feitos por políticos?
Assim, por que nossas praças também não pedem por uma democracia melhor?
A menção à Sé não é gratuita: em 26 de janeiro de 1984, esta Folha noticiou os “300 mil nas ruas pelas diretas” reunidos na mesma praça, em comício pela democracia.

São outros tempos, é verdade, e um comício representa modelo ultrapassado, algo que os jovens não querem.
Como esboça o autor catalão Federico Mayor Zaragoza, em seu libreto “Delito de Silêncio”, as novas gerações não querem mais ser contadas nesses eventos: querem ser levadas em conta.
Mas se a praça é do povo, como escreveu o poeta Castro Alves, que estudou a poucas quadras da Sé, no largo São Francisco, por que não tomá-la de novo?


RODRIGO RUSSO é coordenador de Artigos e Eventos da Folha .

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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