TATARANETOS

10/06/2012

Benjamin Steinbruch

Folha de S.Paulo, 05/06/2012

A Argentina continua sendo uma parceira estratégica que o Brasil precisa conservar a qualquer custo

Desde a dramática crise de 2001, escrevi neste espaço cinco artigos sobre a Argentina. Todos sustentaram que os problemas do país vizinho tiveram origem numa série de equívocos de governo: a abertura precipitada do mercado, a extinção de incentivos à indústria, a política cambial desastrada e, por fim, a religiosa obediência à cartilha ortodoxa e recessiva do FMI.

Sempre critiquei também o calote da dívida externa, anunciado em 2001 e consumado em 2005, que colocou -e ainda mantém- a Argentina no acostamento do mercado financeiro internacional. Nunca, porém, deixei de defender a ideia de que, apesar dos equívocos cometidos pelos governos do vizinho, o Brasil deveria manter solidariedade ao povo argentino.

Não mudei de ideia. Novamente nossos parceiros do Sul enfrentam a escassez de divisas externas, problema agravado naturalmente pela crise internacional oriunda da União Europeia.

No início da década passada, o Brasil pouco podia fazer além de oferecer apoio diplomático nas discussões internacionais, porque enfrentava também sua crise de balanço de pagamentos. Hoje, a situação é muito diferente. O país pode e deve oferecer ajuda efetiva, não por caridade, mas porque a sustentação da Argentina nos interessa muito, como veremos a seguir.

Nos primeiros nove anos após a criação do Mercosul, de 1995 a 2003, Brasil teve deficit sucessivos no comércio com a Argentina, acumulando no período saldo negativo de US$ 10,4 bilhões. Depois, a situação se inverteu, e o país passou a ter superavit seguidos, a ponto de contabilizar ganho de US$ 30 bilhões de 2004 até agora, incluído o primeiro quadrimestre deste ano.

Esses números mostram que a Argentina tem sido uma parceira espetacular. Que outro adjetivo pode ser atribuído a um país que proporcionou às contas externas brasileiras receita líquida de US$ 30 bilhões em pouco mais de oito anos? Com um detalhe importante: esse país compra do Brasil principalmente produtos manufaturados. No ano passado, importou US$ 20,4 bilhões em manufaturas, quase o dobro do valor das compras equivalentes feitas no Brasil pelos Estados Unidos.

É verdade que a Argentina tem aprontado algumas malcriações nas suas relações comerciais, como a criação de barreiras formais e informais, sem poupar o Brasil. É verdade também que o governo atual voltou a cometer equívocos, como a reestatização da IPF. A despeito disso, porém, a recomendação da solidariedade entre vizinhos deve prevalecer. Até porque o Brasil também costuma dar o troco com descortesias variadas.

A Fiesp, entidade da qual sou vice-presidente, tem atuado para que prevaleça o bom senso nas relações comerciais entre os dois países. Para tentar ajudar na conciliação, fez levantamento envolvendo 38 produtos argentinos de exportação considerados estratégicos pelo governo vizinho. E descobriu que, embora esses produtos tenham qualidade e competitividade, o Brasil compra apenas US$ 2 bilhões na Argentina e US$ 10 bilhões em outros países.

Isso quer dizer que há uma real oportunidade de aumentar as importações brasileiras de manufaturados argentinos sem nenhum ônus para a balança comercial brasileira, porque esses itens já são importados de outros mercados. Em contrapartida, poderá haver ganho para a Argentina, com a redução do deficit comercial que tem com seu principal parceiro do Mercosul.

Por que não compramos esses produtos dos argentinos? A pesquisa da Fiesp mostrou que a principal razão é o desconhecimento dos fornecedores e concluiu que, superada essa desinformação, o Brasil pode elevar em US$ 6 bilhões as importações da Argentina.

A despeito de todos os preconceitos mútuos, muitos deles apenas folclóricos ou oriundos de rixas futebolísticas, a Argentina continua sendo uma parceira estratégica que o Brasil precisa conservar a qualquer custo. Primeiro, pelo resultado comercial que ela nos proporciona e, segundo, pela própria exigência geopolítica da boa vizinhança. Como bem lembrou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, “o Brasil dos tataranetos de nossos tataranetos ainda será vizinho da Argentina”.

BENJAMIN STEINBRUCH, 58, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.
bvictoria@psi.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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