eleição

Propaganda e Política

09/05/2010

Por César Maia, para a Folha de S.Paulo (08/05/2010)

UMA AMPLA pesquisa sobre eleições presidenciais nos EUA, coordenada pela professora Kathleen Jamieson e publicada em 2000, mostrou que a comunicação política mais eficaz é a comunicação de contraste. Ou seja: eu sou assim, e ele é diferente.
Em comerciais de TV, o impacto era de longe o maior quando comparado com os comerciais negativos (um candidato fala mal do outro) e os comerciais defensivos (assim chamados por Jamieson aqueles em que o candidato fala bem de si e do que fez). Para ela, os comerciais negativos criam uma incomodidade inicial, mas fixam bem mais que os comerciais defensivos. Estes são de muito baixa eficácia.
Neste início de campanha eleitoral, os dois candidatos favoritos usam a comunicação de contraste.
Um diz: compare os currículos. Outro diz: compare os governos. Ambos atuam de forma convergente com o que diz Jamieson. Por outro lado, se realmente os comerciais defensivos têm baixo impacto, não têm razão os políticos que se preocupam tanto com o apoio da imprensa a este ou àquele governo.
Na semana passada, o diretor do jornal “The New York Times”, Bill Keller, mostrou sua preocupação com a imagem dos meios de comunicação pela responsabilidade na deterioração da convivência política. Thomas Jefferson dizia que, se tivesse que optar entre democracia e imprensa livre, ficaria com esta última, lembra Antonio Caño em artigo no “El País”.
Diz ele que pesquisas recentes atribuem aos meios de comunicação grande parte da culpa pelo atual clima de tensão política nos EUA. Entre os nomes promotores do ódio, diz Caño, estão os jornalistas G. Beck, da Fox News, e R. Maddow, da MSNBC. Beck pela direita, e Maddow pela esquerda.
Afirma Caño que o “The Wall Street Journal” adotou um tom belicoso e parcial desde que R. Murdoch assumiu seu controle, em 2007. E registra que o jornal é o único dos 25 maiores dos EUA que aumentou sua circulação no último ano, assim como a TV de Murdoch, que passou a liderar a audiência entre as redes de notícias.
Nas conclusões de Jamieson, se os comerciais negativos são mais eficazes que os comerciais defensivos, é possível que campanhas negativas pela imprensa rendam mais leitores e audiência aos meios que as utilizam. Mas daí a concluir que além da circulação e da audiência isso afete o quadro político há enorme distância.
Grondona, em sua coluna no “La Nacion”, na semana passada, lembrou que Perón disse certa vez: “Quando tivemos quase toda a imprensa contra, ganhamos, mas quando controlamos quase toda a imprensa, perdemos”. Ou seja: é tão inócuo governos tentarem manipular a imprensa quanto a imprensa tentar manipular governos.

cesar.maia@uol.com.br

Pesquisas Eleitorais e Conflito de Interesses

03/05/2010

Por Maurício Costa Romão

Talvez a manchete mais famosa do mundo, sob uma perspectiva eleitoral, tenha sido a do jornal americano Chicago Daily Tribune, no dia 3 de novembro de 1948. O jornal estampara apressadamente uma vistosa manchete de primeira página intitulada: “Dewey derrota Truman”, referindo-se à eleição para Presidente dos Estados Unidos naquele ano.

Contudo, os resultados finais do pleito demonstraram o contrário: Truman venceu com 49,6% dos votos, contra 45,1% de Dewey. A foto, abaixo, mostra o presidente Truman, na Union Station, em St. Louis, Missouri, um dia depois de ter sido eleito, segurando uma cópia do jornal, rindo da equivocada manchete.

Fonte: Wikipedia

A eleição do democrata Harry S. Truman se deu contrariando todas as previsões, inclusive as do respeitado instituto Gallup, que apontavam a vitória do concorrente republicano Thomas E. Dewey, então governador de Nova York. Daí a confiança do Tribune, que demonstrava abertamente preferência por Dewey, de que sua manchete espelharia o que os meios de comunicação e o clima das ruas antecipavam. O próprio jornal tentou corrigir o erro nas duas últimas edições do mesmo dia 3 de novembro, informando a vitória correta de Truman, mas cerca de 150 mil cópias com a desastrada manchete já haviam sido impressas e distribuídas.

O incidente é trazido à baila para introduzir a discussão, sempre recorrente, da eventual existência de conflito de interesses na contratação de pesquisas eleitorais para divulgação, inclusive pela mídia e entidades de classe, a institutos que estejam também trabalhando para políticos ou partidos políticos.

Recentemente, a Folha de S.Paulo, em reportagem do jornalista Fernando Rodrigues (26/04/2010), fez a seguinte pergunta, de um total de dez sobre questões metodológicas, aos grandes institutos de pesquisas (Datafolha, Ibope, Vox Populi e Sensus): conflito de interesses: é correto fazer pesquisas reservadas para políticos e partidos políticos e também pesquisas públicas para divulgação?”

O Datafolha, instituto pertencente ao Grupo Folha, não acha incorreto, mas opta por fazer pesquisas eleitorais apenas para veículos de comunicação, quer dizer, não aceita encomendas de politicos e/ou partidos políticos. Diametralmente oposto, o Ibope não vê nenhum conflito de interesses em fazer pesquisas reservadas para políticos e/ou partidos políticos e pesquisas para divulgação. O instituto diz que trabalha para todos. O Vox Populi, alegando ser o tema subjetivo, preferiu não emitir opinião a respeito e, por último, o Sensus, mais alinhado com o posicionamento do Ibope, argumenta que a propriedade técnica e a ética dos institutos independem do contratante.

A propósito da relação mídia-pesquisa eleitoral, o cientista político Antônio Lavareda, no seu importante livro “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais (Editora Objetiva, 2009, p. 72), no intuito de “… evitar que prosperem no público hipóteses de manipulação (pela mídia, MCR) que contribuem para corroer o senso de legitimidade do processo (eleitoral, MCR)”, propõe que seja vedado, legalmente, “… a contratação pela mídia de institutos que estejam trabalhando dos dois lados do balcão. Ou seja, pesquisando, ao mesmo tempo, para os veículos e para as campanhas”. E arremata, dizendo não ser “compatível à mídia contratar suas pesquisas a quem assessora candidatos”.

Como se vê, o assunto é bastante controverso. O modelo Datafolha, raríssimo no Brasil, é o que mais se aproxima do desejável, embora não garanta por si só a ausência de desvios éticos. Da mesma forma, os institutos que adotam posicionamento alternativo não podem ser taxados de aéticos. Num e noutro caso, é preferível acreditar que os institutos saberão zelar pelas suas condutas, separando os interesses contratuais dos resultados das pesquisas, pois só assim preservação sua credibilidade.

Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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