SENÃO SUA INDIGNAÇÃO

02/11/2011

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S.Paulo, 24/10/2011


O MOVIMENTO dos indignados que começou na Espanha há seis meses tornou-se um fenômeno mundial com extensão para Nova York onde foi denominado “Ocupe Wall Street”. No último dia 15 de outubro, manifestantes, quase todos jovens, se reuniram em 951 cidades de 82 países para manifestar sua indignação em relação ao neoliberalismo e à financeirização que levaram à crise financeira global de 2008.


Eles não têm propostas, e não pretendem tomar o poder. Querem apenas mostrar a sua preocupação e a sua indignação -dois sentimentos mais que justos dados os males que essa ideologia neoliberal e a teoria econômica neoclássica que a justifica “cientificamente” já causaram, dada a grande recessão em que estão mergulhados os países ricos.
E porque, se a crise nesses países continuar a se aprofundar, amanhã esse poderá ser o presente dos países em desenvolvimento, por enquanto relativamente poupados.
Um jovem do “Ocupe Washington” foi entrevistado por esta Folha (11.out.2011). O repórter quis saber qual a diferença de seu movimento e um outro rival, o Outubro/2011: “eles são mais tradicionais, sentam-se, fazem uma lista de exigências, nós precisamos de mudanças revolucionárias dentro do sistema ou de outro sistema”.
O repórter insiste: Como pretendem conseguir? “Não estamos discutindo isso agora. Estamos focados em construir nossa base, atrair pessoas para conversar… Queremos o máximo de movimentos pelo país, queremos mostrar que falamos sério, mesmo que isso leve semanas, ou meses, anos. Até que uma mudança aconteça, estaremos aqui.”
Não creio que estarão, mas é preciso assinalar que esse movimento é impressionante e admirável. Será mesmo? Os 30 Anos Neoliberais do Capitalismo (1979-2008) foram realmente um imenso retrocesso social e político. E os males que provocaram ainda não se esgotaram.
Mas qual a legitimidade de um protesto sem propostas? Quem protesta não tem obrigação de dizer como se resolvem as coisas?
Minha resposta a essa pergunta é um grande e sonoro “não”. Os jovens manifestantes não têm responsabilidade pela crise que está aí, nem possibilidade de resolvê-la.
Os responsáveis somos nós, os mais velhos, as elites, os que dominaram e governaram. Somos nós que temos que dar soluções. Eles podem levantar o problema, podem debater, sugerir, mas nós que decidimos.
E nós, que antes acertamos muitas vezes, que contribuímos para o progresso ou o desenvolvimento, que no pós-guerra produzimos os 30 Anos Dourados do Capitalismo (1949-1978), falhamos desde os anos 80 quando deixamos que apenas 2% da população auferisse todos os benefícios do progresso, e estamos falhando mais agora, com as consequências dos anos neoliberais.
Três anos depois da crise alguns analistas afirmam que ela foi desperdiçada. Que não aprendemos nada. Não é verdade. Aprendemos alguma coisa, e se está procurando regular os bancos, e trazer o Estado para seu papel de instituição por excelência de ação coletiva da nação.
Mas as mudanças estão sendo tímidas. Os privilégios continuam gritantes. Bem vindos os jovens que protestam. Eles têm direito a um futuro. E não têm senão sua indignação para exigi-lo.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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