SE NON È VERO, È BEN TROVATO

13/03/2012

 

Marta Suplicy

Folha de S.Paulo, 25/02/2012

Pesquisas apontam que a mobilidade social e o acesso ao estudo têm uma surpreendente relação com a participação política. Mostram que em países onde a participação com voto e engajamento em ações políticas ocorre, as pessoas ascenderam socialmente mais do que em países em que a participação dos excluídos no processo eleitoral foi mais tardia.

A participação política, por meio do voto, teria propiciado uma capacidade de organização, reivindicação e pressão aos donos do poder, trazendo benefícios mais rápidos às classes menos favorecidas. Faz sentido. Essas pessoas provavelmente se engajaram em discussões sobre o destino de seu município, Estado ou país. Se se exaltaram ou não, se concordaram ou não, de alguma forma não foram sujeitos passíveis de seu destino.

Alguns, como é o caso de tantos sindicalistas, conseguiram importantes conquistas para sua categoria, assim como influíram de forma decisiva na política brasileira. Cidadãos que não ficaram alheios a todo um processo, esperando que as oportunidades ou os direitos caiam do céu.

Todos sabemos que o voto é o grande instrumento de cobrança dos cidadãos e, para muitos, o despertar do interesse pela política.

Em artigo publicado no jornal “Valor Econômico” (1º/2), o professor Jairo Nicolau avançou a hipótese de que a falta de participação política efetiva de analfabetos e dos mais pobres representaria um importante obstáculo na mobilidade social, assim como para portas de saída da exclusão.

Quando a população mais pobre entra no processo político, ela passa a ter um canal de comunicação com o governo e gerar maiores chances de ter suas demandas atendidas.

Essa possibilidade, que no artigo é creditada ao economista Peter Lindert, parece-me razoável, mas só poderá ser aferida no Brasil se o IBGE passar a levantar dados de analfabetismo e escolaridade dos eleitores. É que a maioria dos brasileiros mantém o mesmo título de eleitor com o qual se inscreveu quando adolescentes. Com isso, a escolaridade daqueles que votam e conservam seu título para o resto da vida fica desatualizada.

Afinal, é um mau sistema educacional que dificulta o voto popular ou é o povo que não foi educado para votar e participar politicamente que diminui a qualidade do nosso ensino público?

O professor Nicolau diz que, após a leitura do trabalho de Lindert, inverteu a ordem de causalidade: “É a presença de segmentos de menor renda no sistema político que explicaria a expansão educacional”.

Eu acrescentaria o mesmo em relação à mulher, que só adquiriu o direito ao voto no Brasil em 1932 e ainda hoje enfrenta dificuldades para participar da política.

MARTA SUPLICY escreve aos sábados nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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