QUEM QUISER QUE RECLAME!

06/09/2010

Fonte: elaboração do autor, com base em pesquisas do Ibope (5), Datafolha (5), Vox Populi (3) e Sensus (2)

Fonte: elaboração do autor, com base em pesquisas do Ibope (5), Datafolha (5), Vox Populi (3) e Sensus (2)

Por Maurício Costa Romão

De há muito temos insistido que candidatos e staff de campanha eleitoral não devem brigar com pesquisa, pois se trata de uma luta inglória, muito difícil de ser vencida.

Quando se toma conhecimento dos resultados adversos da pesquisa (só podem ser adversos, pois se fossem favoráveis não haveria reclamação, a pesquisa teria sido justa, estaria correta, refletiria o “clima das ruas”), eles já são de domínio público, não há como revertê-los, o “dano” já está causado.

Ademais, há uma probabilidade altíssima de o reclamante estar equivocado na sua avaliação. Novas rodadas de pesquisas ou levantamentos contemporâneos de outros institutos vão quase certamente confirmar os achados originais, objeto da manifesta insatisfação.

Quando se olha as pesquisas com cuidado, num determinado lapso de tempo mais prolongado, observa-se que há uma grande convergência nos seus resultados. Daí a sentença: “quando se briga com uma pesquisa, se está brigando com todas”.

De fato, quando se faz aferição de tendência de intenção de votos a partir de levantamentos sucessivos de vários institutos de pesquisa, chama a atenção o fato de que, mesmo oriundas de diferentes fontes, com suas metodologias distintas, as intenções de voto não diferem muito de uma fonte para outra.

Veja-se como ilustração dessa assertiva os gráficos abaixo, que comparam as intenções de voto entre o Ibope e o Datafolha para os quatro candidatos mais competitivos que disputaram a eleição para Prefeito do Recife em 2008. Os candidatos foram separados dois a dois para melhor visualização gráfica.

Nota-se que os resultados para cada candidato são muito semelhantes entre os dois institutos, mesmo que as pesquisas tenham sido realizadas pelas entidades, individualmente, em dias diferentes de cada mês (porém próximos), com tamanhos de amostra distintos, com margens de erro diferentes, etc.

Na maior parte dos levantamentos (pontos) os percentuais são praticamente os mesmos. Isso realça a semelhança técnica dos institutos e dá uma idéia da capacidade dessas entidades de fornecerem estimativas bastante parecidas, independentemente das diferenças entre os tipos de levantamento efetuados e entre suas concepções amostrais.

Fonte: elaboração do autor, com base nas pesquisas do Ibope e do Datafolha

Fonte: elaboração do autor, com base nas pesquisas do Ibope e do Datafolha

Outro exemplo, talvez menos nítido por incluir mais (quatro) institutos de pesquisa, porém igualmente eloqüente, pode ser extraído da eleição presidencial deste ano. Para efeito de simplificar a exposição e, mais que isso, permitir visualização gráfica, são mostrados separadamente, nos gráficos abaixo, apenas as intenções de voto de Dilma Rousseff e José Serra, consoante as aferições dos quatro grandes institutos que têm feito cobertura nacional das eleições.

O número de pesquisas de cada instituto que figuram nos gráficos (cinco do Datafolha, cinco do Ibope, três do Vox Populi e duas do Sensus) foi selecionado em função da proximidade de datas dos respectivos levantamentos, em cada período (junho, julho e agosto, que tem três datas).

Quer dizer, entre várias outras pesquisas nacionais levadas a efeito por cada um dos institutos, só foram selecionadas aquelas cujo trabalho de campo foi realizado nos dias mais próximos possíveis dos dias das  demais.

Esse aspecto de se buscar uma razoável coincidência das datas de aplicação dos questionários no campo é muito importante, já que o período de realização da coleta de dados se constitui em um dos fatores que podem impactar nos resultados dos levantamentos.

Percebe-se, nos dois gráficos, o de linhas ascendentes, de Dilma, e o de linhas descendentes, de Serra, que as intenções de voto conferidas pelos diferentes institutos em cada data (ponto) não são muito diferentes entre si, a começar pelo mais óbvio: as linhas completas dos institutos têm o mesmo  sentido. Quer dizer, todos os institutos detectam queda de Serra e subida de Dilma.

Os números das pesquisas do Sensus em agosto são praticamente iguais aos do Datafolha e não diferem muito dos do Ibope. Os do Vox Populi e Ibope têm intenções de voto virtualmente coincidentes na aferição de José Serra, em junho e julho, o mesmo acontecendo no levantamento de julho, em relação a Dilma Rousseff; Ibope e Datafolha se aproximam bastante em vários pontos nos dois gráficos, etc.

Essa convergência de números entre diferentes institutos pode ser melhor avaliada a partir da tabela abaixo, na qual estão listadas as maiores diferenças de intenção de votos encontradas entre os institutos, em cada período (jun, jul, ago/01, etc.).

Fontë: elaboração do autor

Como as maiores divergências entre os institutos ocorreram entre o Vox Populi e os demais (observe-se, graficamente, que a linha do instituto está sempre acima das demais no gráfico de Dilma Rousseff, e sempre abaixo, no de José Serra), a tabela expõe os números com e sem o cômputo das intenções de voto do Vox Populi.

Note-se que a maior diferença de intenção de votos entre os institutos (excluindo o Vox Populi) nas aferições dos dois candidatos foi de 4,0 pontos de percentagem, no levantamento ago/02. Quando se inclui o Vox Populi, as diferenças aumentam, chegando até a 6,0 pontos.

Ademais, essa razoavelmente pequena diferença de números entre os institutos tende a ser menor ainda à medida que se vai aproximando o dia do pleito: as pesquisas são realizadas mais amiúde, os trabalhos de campo são feitos quase que nos mesmos dias, diminui uma fonte de volatilidade, que é o número de indecisos, há uma tendência dos institutos a aumentar o tamanho da amostra, a expertise acumulada nos levantamentos anteriores tende a diminuir o erro não-amostral, etc.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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