QUEM PERDEU A GRÉCIA?

09/03/2012

Jean Pisani-Ferry

Folha de S.Paulo, 04/03/2012

Se um dia surgir essa pergunta, haverá culpa suficiente para todos na União Europeia

Ninguém começou a tentar estabelecer a culpa, na Europa. Um acordo entre a Grécia e seus credores permitirá que o país pague em dia a parcela de seus títulos que vence no dia 20. Os europeus merecem elogios por terem dado um passo significativo na direção do realismo. Os credores privados aceitaram perder mais de 50% dos valores que tinham a receber e também uma redução nos juros, o que representa alívio de mais de dois terços da dívida grega.

Mas, embora uma solução tenha sido obtida no último minuto, muita gente acredita que isso tenha servido para simplesmente adiar o acerto final de contas, porque a Grécia não conseguirá implementar as medidas de austeridade prometidas e terminará ou decidindo sair da zona do euro ou sendo excluída depois de uma moratória unilateral.

Ainda antes do recente acordo, líderes políticos da Holanda, da Finlândia e de algumas correntes de opinião na Alemanha estavam indagando por que a Grécia deveria ser mantida na zona do euro. Em Atenas, a exasperação atingiu novos píncaros, e a amargura das disputas começou a ecoar perigosamente as ferozes disputas sobre as reparações de guerra que a Alemanha teria de pagar nos anos 1920.

“Quem perdeu a China?”, os estrategistas americanos indagavam nos anos 1950, depois da vitória dos comunistas de Mao Tsé-Tung na guerra civil chinesa, em 1949. Os europeus talvez venham a se perguntar o mesmo sobre a Grécia.

Os principais culpados são os gregos mesmos, é óbvio. A irresponsabilidade dos políticos atingiu novas profundezas, e o compadrio envenenou todo o aparelho de governo.

Mas seria fácil permitir que a Grécia quebrasse e absolvesse o restante da Europa de responsabilidade.

O primeiro erro das autoridades europeias foi procrastinar por meses e, ao fim dessa espera, produzir um programa irrealista de assistência que previa que a Grécia poderia retornar aos mercados de capital em 2013. Está claro, agora, que serão necessários anos para reformar a economia do país.

Outro erro foi definir erroneamente as prioridades. Desde o começo da crise, o FMI diagnosticou um problema duplo: finanças públicas fracas e perda de competitividade. Infelizmente, as autoridades regulatórias decidiram se concentrar no primeiro aspecto, esperando que reformas estruturais bastassem para resolver o segundo. As autoridades gregas investiram a maior parte de seu magro capital político em ajustes orçamentários, e não na construção de economia competitiva.

O programa que está sendo finalizado agora reverte a ordem de prioridades, dando primazia à competitividade e relegando a conclusão da consolidação orçamentária ao segundo plano. Ainda assim, resta perguntar por que essa decisão tinha de demorar quase dois anos.

Mais um erro: nada de substantivo foi realizado com relação ao crescimento. Um programa de ajuste é necessariamente recessivo, mas não precisaria bloquear os esforços para mobilizar as ferramentas necessárias à recuperação. A Grécia poderia, em princípio, ter contado com grandes montantes em assistência regional ao desenvolvimento da União Europeia.

O erro final da Europa foi certo nível de indiferença a uma divisão justa do ônus. É compreensível que o FMI, instituição tecnocrática, não se aventure para além da macroeconomia. Mas a UE é uma entidade política que fez da justiça social uma de suas metas. Não pode solicitar um corte no salário mínimo grego e atribuir importância secundária à sonegação de impostos pelos 10% mais ricos da população, o que custa à Grécia um quarto de sua potencial arrecadação.

Ao contrário do que afirmam muitas das críticas mais levianas, a Europa não pode ser repreendida por impor austeridade aos gregos. Essa era a contraparte necessária de um grande esforço de assistência financeira, e um país com desequilíbrios tão imensos certamente precisava ficar sujeito a rigor extremo.

Mas a Europa pode ser reprovada por um pacote inicial de assistência tardio, mal concebido, desequilibrado e desigual. Se um dia surgir a pergunta sobre quem perdeu a Grécia, haverá culpa suficiente para todos.

JEAN PISANI-FERRY é diretor do instituto de pesquisa econômica internacional Bruegel, professor de economia na Universidade de Paris-Dauphiné e membro do Conselho de Análise Econômica do primeiro-ministro da França. Este artigo foi distribuído pelo Project Syndicate.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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