QUEDA NA AVALIAÇÃO POSITIVA DO GOVERNO PUXA INTENÇÃO DE VOTOS PARA BAIXO

30/04/2014

Fonte: elaboração própria com base em diversas pesquisas nacionais

Maurício Costa Romão

Depois da inesperada celebração da aliança Rede/PSB, nos estertores do prazo final para criação de partidos políticos, em 5 de outubro do ano passado, os grandes institutos de pesquisa já realizaram 17 levantamentos nacionais de intenção de votos para presidente da República.

Todas essas pesquisas contemplam o cenário mais provável de concorrentes a presidente, composto por Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos. A média mensal de intenções de voto de Dilma neste cenário, no período de outubro de 2013 a abril de 2014, está mostrada na linha azul do gráfico que acompanha o texto.

No mesmo lapso de tempo em apreço, 15 levantamentos nacionais auscultaram os brasileiros sobre como avaliavam o governo da presidente (avaliação mensurada pelas manifestações de ótimo e bom). A média mensal dos resultados obtidos está exposta na linha vermelha do gráfico.

Nos estágios mais distantes do pleito os eleitores são submetidos a diferentes cenários de concorrentes, dadas as indefinições ainda existentes sobre as pré-candidaturas. Nessas etapas da pré-campanha as intenções de voto têm razoável flutuação, por exemplo, quando Marina Silva substitui Eduardo Campos, ou o ex-presidente Lula entra no lugar de Dilma.

A avaliação de governo, por seu turno, é mais estável, mantém-se meio que à margem dessas flutuações. Retrata a percepção do eleitor sobre como ele vê o funcionamento do governo, como ele sente que as decisões do executivo estão afetando sua vida.

Se o sentimento do eleitor é de satisfação, se ele acha que o governo corresponde, ele premia a gestão conferindo-lhe menção de bom ou ótimo. Se, ao contrário, ele desenvolve a noção de que a administração governamental não vai bem, não lhe atende as expectativas, não lhe desperta simpatias, ele a pune com conceitos de ruim ou péssimo.

Se ele entende que o governo têm algumas coisas boas, mas também têm outras ruins, ele não quer ser benevolente o bastante para premiá-la com nota positiva, nem rígido o suficiente para puni-la com nota negativa, e simplesmente diz que a gestão é regular (os institutos têm como saber o quanto desse “regular” vai para ótimo ou bom e o quanto vai para ruim ou péssimo).

Note-se que esses julgamentos são feitos à margem do processo eleitoral em si. As intenções de voto, de outra parte, dependem de quem são os postulantes, quais são os cenários vislumbrados, têm mais a ver com o futuro, com a próxima eleição, com a gestão que virá a seguir.

Daí por que muita gente não entende o fato de Dilma aparecer liderando as pesquisas com folga, inclusive com perspectivas de ganhar a eleição já no primeiro turno, e, no entanto, estar com a avaliação positiva de sua gestão em baixa, em trajetória de queda contínua.

Uma das explicações é a de que a presidente se beneficia da condição de incumbente, disputando a eleição no cargo, com todas as vantagens que esta prerrogativa lhe confere, inclusive a de enorme exposição midiática.

Os seus prováveis oponentes, por outro lado, podem argumentar que ainda não conseguiram empolgar os eleitores porque não estão no poder, aparecem menos ao público, são relativamente pouco conhecidos.

As intenções de voto, neste estágio da pré-campanha, são influenciadas por estas diferentes condições dos postulantes.

Observe-se no gráfico, todavia, que quando o cenário é o mesmo, no caso, com Dilma, Aécio e Eduardo, há uma relação bem definida entre as intenções de voto da governante e a avaliação de seu governo, uma correlação quase perfeita: quando a avaliação positiva aumenta as intenções de voto também o fazem e vice-versa.

Portanto, não se dever esperar que a popularidade da incumbente em queda possa compatibilizar-se com intenções de voto em alta, para um mesmo cenário. Isso quer dizer que, a permanecer a trajetória descendente da avaliação de governo, delineada no gráfico, as intenções de voto de Dilma tendem a diminuir ainda mais.

Se se configurar esta perspectiva, os votos perdidos de Dilma podem selar definitivamente a já alta possibilidade de haver segundo turno. Para isso a oposição precisa receber parte ou a totalidade desses votos.

Se, ao contrário, Dilma conseguir estancar a queda, e tem tempo para isso, só restará à oposição garimpar adeptos no conjunto do não-voto (brancos, nulos e indecisos), se desejar levar o pleito para a fase seguinte.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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