POLÍTICOS E EMPRESAS ESPERAM RETORNO DO INVESTIMENTO

25/09/2010

 

Claudio Weber Abramo
Folha de S.Paulo, 19/09/2010

Empresas não investem no financiamento de candidatos por apreço à democracia. Fazem-no com base num raciocínio pragmático: esperam que seus interesses sejam satisfeitos caso o beneficiário seja eleito. Isso não envolve necessariamente desonestidade. O interesse de um financiador pode ser ideológico ou programático -porque está interessado no fortalecimento de privatizações, na redução de impostos e assim por diante.

É claro que o intuito pode ser escuso. Os mais comuns são favorecimentos em contratações, facilidades no relacionamento com agências reguladoras e órgãos de controle, favores fiscais etc. O principal motivo pelo qual é importante que a legislação inclua a obrigatoriedade de identificação dos doadores de campanhas é permitir vigiar os eleitos para verificar se eles usam os cargos para favorecer seus doadores.

É o caso do Brasil, embora a prática da vigilância (por parte da imprensa, de ONGs, de associações) seja rara na maior parte do país.

As doações eleitorais incluem também dinheiro que os candidatos aplicam em suas campanhas. Dependendo dos montantes, a justificativa para a autodoação é misteriosa. Alguns políticos fazem autodoações que chegam a porcentagens elevadas dos bens que declaram possuir. Outros doam a si mesmos mais do que têm.

Por que um candidato aplicaria recursos volumosos para se eleger para um cargo que nem de longe gerará (oficialmente) algo parecido com o dinheiro empenhado?
A menos que se acredite em geração espontânea de dinheiro, de algum lugar eles esperam obter retorno. A perspectiva de se encontrar em posição de achacar empresas explica por que determinados políticos investem alto em suas eleições.

Parte do descompasso se deve ao fato de, não raro, políticos embolsarem estipêndios que cobram das suas Casas legislativas como se fossem despesas relacionadas ao “exercício do mandato”. Escândalos ligados a isso aparecem periodicamente.

Contudo, descontando-se o Senado, a Câmara dos Deputados, algumas Assembleias Legislativas e pouquíssimas Câmaras Municipais, o resto do Legislativo brasileiro mantém total opacidade sobre essas despesas. Não se deve ser otimista quanto ao aproveitamento que os políticos fazem de tal opacidade.

CLAUDIO WEBER ABRAMO é diretor-executivo da ONG Transparência Brasil

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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