POLÍTICO OU TÉCNICO?

03/02/2014

Maurício Costa Romão

O processo de escolha do futuro candidato do PSB ao governo do Estado de Pernambuco nas eleições deste ano gerou um infindável e estéril debate sobre se a opção deveria recair em um técnico ou em um político.

Para um cargo de tamanha envergadura essa discussão não faz o menor sentido.

No geral, querela dessa natureza tende a descambar para uma armadilha lógica: a falsa generalização, opondo o técnico ao político como se fosse, cada qual, categoria homogênea, com atributos próprios e indistintos.

Desconsidera-se nesse contexto maniqueísta o contingente de pessoas que amalgama o agir e pensar político, formação nata ou adquirida, com o conteúdo técnico, entendido não como o domínio específico de determinados campos do saber, mas como a capacidade de compreendê-los na sua dimensão genérica. Aqui cabe bem lembrar Aristóteles: “o homem é por natureza um animal político”.

O político “puro” do passado que ocupava cargos majoritários não existe mais (representado, in extremis, pelo antigo coronel do interior).

Á medida que as sociedades se foram tornando mais complexas, exigindo maior requisito de conhecimentos para governá-las, o antigo político foi paulatina e progressivamente dando lugar ao executivo que hoje se denomina de “tecnolítico”, aquele que tem a capacidade de aliar tino político (sensibilidade política) com conhecimento técnico (capacidade de apreensão). É uma condição imposta pelo mundo moderno, como bem pontuou Norberto Bobbio:

“A necessidade de conhecimentos técnicos aumentou na sociedade moderna, especialmente a partir do momento em que o Estado passou a intervir em todas as esferas da vida, particularmente na das relações econômicas e das relações sociais…” (Os intelectuais e o poder, p.73).

Ademais, como disse Ortega y Gasset: “o homem é o homem e suas circunstâncias”. No caso em apreço o homem é o eventual escolhido, ungido à condição de candidato. Ele tem sua história, sua trajetória, seu perfil, seus conhecimentos, sua imagem, sua mensagem. Tanto faz se ele é técnico ou político, se se quiser dar albergue a essa discussão bizantina.

As suas circunstâncias são as condições objetivas que embalam sua escolha e, principalmente, sua candidatura: o leque de apoiamento político-partidário, a força político-administrativa de sua indicação, o contingente de candidatos proporcionais da aliança majoritária, o número de prefeitos seguidores, o contexto político-eleitoral do momento, o tempo de rádio e TV, os indispensáveis recursos financeiros, etc.

O homem sem as circunstâncias não é uma candidatura, é uma aventura. As circunstâncias, por se turno, só adquirem expressão através do homem. Portanto, homem e circunstâncias se complementam.

A sociedade de hoje não faz a menor exigência de que o candidato ao executivo seja mais político ou mais técnico. Essa discussão binária não lhe interessa, não está na sua pauta. O voto não será concedido em função de tal qualificação.

O que ela requer, e aí o faz com veemência, é que o seu governante seja um gestor público moderno, com perspectiva global e visão de futuro, compromissado em servir o público e qualificado por atributos éticos.

Os governantes que demonstrarem preencher esses requisitos no exercício do poder público serão consagrados com o apreço popular, independentemente de sua formação mais técnica ou mais política.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br

 

 

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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