POLÍTICA SEM SONHOS

21/10/2011

 

Ferreira Gullar

Folha de S.Paulo, 16/10/2011

Estou longe de me ver como um comentarista político, de modo que as considerações que às vezes faço aqui, em torno desse assunto, na verdade atendem à necessidade que tenho, como qualquer pessoa, de entender o que está acontecendo e pode ser que atendam também à necessidade de um ou outro leitor. De qualquer maneira, além do mais, me divirto com isso, já que pensar -certo ou errado- é a minha cachaça. E foi assim que, meses atrás, levantei aqui a hipótese de que os dois partidos nascidos de uma discordância ideológica radical com o regime militar -PT e PSDB- já esgotaram sua vida útil e, agora, surgiram novas lideranças, com outra história e outra visão do problema político, do modo de formulá-lo e conduzi-lo.


Dizendo de outra maneira: a nova geração de políticos, que vem substituir a de Fernando Henrique, Lula e José Serra, não teve que enfrentar a ditadura, não conheceu o exílio e, por essa e outras razões, tem uma visão menos ideológica, mais pragmática das questões políticas e sociais. Em razão disso, Serra não chegará à Presidência da República e o PT, se continua no poder, é porque já deixou de ser um partido (pretensamente) revolucionário: hoje é um partido sem compromissos ideológicos, que, para se manter no poder, aliou-se a cobras e lagartos, do PC do B, que já nada tem de comunista, aos evangélicos do bispo Macedo.
Pois bem, e não é que, de repente, Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, inventa um outro partido que, segundo ele mesmo, não era nem de direita, nem de esquerda, nem de centro? Alguém diria então que não era um partido. Essa foi minha conclusão, em face da primeira notícia, uma vez que os partidos nascem para pôr em prática uma opção política ou ideológica. Então, que partido seria esse, que vinha para defender nada, sem tomar nenhuma posição? Ele agora diz que o PSD é de centro.
Em abril deste ano, quando Kassab anunciou a criação do PSD, escrevi uma crônica qualificando-o de oportunista por inventar um partido que, sem projeto para o país, visa somente o poder.
Errando e aprendendo. Para minha surpresa, porém -e de muita gente mais-, o partido inventado por Gilberto Kassab cresceu em seis meses de maneira surpreendente, a ponto de se tornar, ao que tudo indica, a terceira maior representação na Câmara dos Deputados, desbancando o PSDB.
Realmente, não fui o único a me espantar, e não era para menos. Às vésperas de findar o prazo para a inscrição de candidaturas às eleições do ano que vem, o número de prefeitos filiados ao PSD chegava a 600, e o de vereadores, a mais de 6.000. Segundo a avaliação dos entendidos, o PSD lançará cerca de 12 mil candidatos a vereador e 1.400 candidatos a prefeito.
Isso significa que milhares de políticos, filiados a outros partidos, os abandonaram para se inscreverem no partido de Kassab. Dezenas de prefeitos dos mais diversos Estados deixaram seus partidos e a ele se filiaram. Os governadores do Amazonas e de Santa Catarina também mudaram de barco, arrastando consigo prefeitos, deputados e vereadores. Ao que tudo indica, o PSD se tornará em breve o terceiro maior partido do país.
Qual a razão disso? Como se explica tal fenômeno? Certamente haverá mais de uma razão para que tanta gente deixe seu partido e embarque numa aventura como essa, já que ninguém sabe ao certo quem é Kassab nem o que será esse partido, que não diz a que vem. Surpresa maior ainda foi, no apagar das luzes, a filiação de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central durante o governo Lula que pertencera ao PSDB e depois ao PMDB. Ele transferiu seu título de eleitor de Goiânia para São Paulo a fim de se candidatar, pela novel agremiação, a prefeito da capital paulista. Mas ele afirma que sua filiação ao PSD não tem objetivo eleitoral, pois visa tão somente ajudar na construção de um grande partido nacional. Ou seja, o lugar está vago.
Se vai fazê-lo ou não, pouco importa. O que fica evidente, porém, é que Kassab, ao se dar conta do vácuo político surgido do esgotamento do PT e do PSDB, viu que era chegada a hora de criar um partido que, ao contrário daqueles, não se define ideologicamente e no qual, por isso mesmo, cabe todo mundo.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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