PESQUISAS PARA SENADOR ENVOLVENDO DOIS CARGOS

02/06/2011

Por Maurício Costa Romão

Fazer levantamentos de intenção de votos para Senador da República sempre se constitui numa dificuldade para os institutos de pesquisa, principalmente quando estão em jogo dois cargos para Senador, além de mais quatro para Presidente, Governador, Deputado Federal e Deputado Estadual. Os percalços vão desde a confecção do questionário, passando pelos embaraços de entendimento dos pesquisados, e indo até à tabulação e interpretação dos números.

Com efeito, na eleição do ano de 2010, por exemplo, podiam ser eleitos dois senadores por Unidade da Federação. Os questionários das pesquisas se amoldaram a esta circunstância, inquirindo os eleitores a se pronunciarem por dois nomes. Assim, os institutos de pesquisa mostravam ao entrevistado quais os candidatos concorrentes (modalidade estimulada) e perguntavam sobre qual sua preferência para a primeira vaga e, depois, para a segunda, ou, numa mesma pergunta, em quem votaria para as duas vagas.

A técnica de obtenção de respostas e o formato de divulgação dos resultados variaram de instituto para instituto. Em algumas pesquisas os resultados aparecem na seqüência com que as respostas são obtidas, desdobradas em duas: intenção de votos para a primeira e para a segunda opções.

Neste caso, em que aparecem as duas opções, as pesquisas, em geral, não informam quantos por cento dos eleitores que escolheram determinado candidato como primeira opção preferem outro concorrente como segunda. Em outras palavras, se um candidato teve, por exemplo, 30% de intenções de voto na primeira opção e 18% na segunda, a questão é saber de onde vieram esses 18%, quer dizer, quantos eleitores dos diversos concorrentes preferiram a segunda opção.

Registre-se que para obter os dados globais (1ª e 2ª opções juntas) não é tecnicamente correto somar as intenções de voto da primeira com a da segunda opção, por exemplo, 30% mais 18% igual a 48%. Esse procedimento leva a dupla contagem de intenções de voto: eleitores que votam num mesmo candidato, tanto para a primeira, quanto para a segunda opção. Para obter o resultado global há que se fazer o expurgo interno dessas manifestações de candidatura única dadas pelos respondentes para as duas vagas. 

Outras pesquisas já fazem as ponderações internas de intenção de votos entre a primeira e segunda opções e divulgam os resultados globais. Nestes casos não se sabe nem quantos por cento cada candidato teve em cada opção.

A candidatura que o eleitor elege como primeira opção não deixa dúvidas quanto à sua preferência mais forte. A segunda opção é… a segunda opção, para dizer o óbvio, porém tem sua importância na escala de preferências do eleitor, já que são duas as vagas a preencher. Ele ordena suas prioridades e declara sua preferência, inicialmente para o nome com o qual mais se identifica eleitoralmente e, depois, para a segunda pessoa que gostaria de ver ocupando a vaga restante. É então o second best para o eleitor

Em outras, ainda, a pergunta não tinha nem primeira nem segunda opções como, por exemplo, as do Datafolha (e de outros institutos, feito o DiarioData), feitas em Pernambuco, na eleição de 2010, que mostrava a cartela para o entrevistado e numa mesma pergunta pedia para ele declarar suas preferências para os dois candidatos simultaneamente. Veja-se a pergunta do Datafolha:

 “Nas eleições desse ano, você poderá escolher também dois senadores. Se a eleição para senador fosse hoje, em quais destes candidatos você votaria? Em qual mais?”

De qualquer forma, independente da técnica empregada pelo instituto, o eleitor aponta ou decla um nome em primeiro lugar e depois outro. Ao manifestar sua prioridade inicial de votar naquele determinado nome, o eleitor mostra que tal nome é o que lhe vem à lembrança imediatamente; é o nome que gostaria de ver eleito, em primeiro lugar; é o nome que está mais cristalizado na sua mente; é a sua primeira opção e, se não houvesse segunda, seria aquela sua intenção única de voto.

Como os eleitores manifestam suas preferências duas vezes, a soma global de percentuais (as intenções de voto para os candidatos, mais os percentuais de eleitores indecisos, etc.) alcança 200%, ao invés dos convencionais 100%, fato metodológico que confunde muita gente.

Para passar essas intenções de voto totais para votos válidos é preciso, inicialmente, desprezar os votos brancos e nulos, os quais, como se sabe, não são considerados válidos pelo TRE. Então, dos 200%, a pesquisa subtrai, por exemplo, 60% [aí dentro desses 60% têm também os NS (não sabem), os NR (não responderam), ou, simplesmente, chamados de indecisos, mas é tudo tratado como se fosse voto branco ou nulo].

Assim, 200% – 60% = 140%, que é a nova base, em termos de votos válidos, da pesquisa. Quer dizer, os 200% em intenção de votos totais representam 140% de intenções de votos, do ponto de vista dos votos válidos. Agora, então, para proceder à transformação de votos totais em votos válidos, cada intenção de votos será dividida agora por 140%: Após a sistemática de transformação, os percentuais, em termos de votos válidos, somam 100%. Assim, a compatibilização com os percentuais adotados pelo TRE está feita.

O que soa estranho para alguns é o fato de que geralmente nas pesquisas majoritárias (excluídas as de senador, quando podem ser indicados dois candidatos) os percentuais de intenção de votos aumentam quando passam a ser representados por votos válidos, o que não se sucede nas apresentações de alguns resultados para Senador.

Por exemplo, numa pesquisa nacional do Datafolha, observando agora apenas o cargo de Presidente, a candidata Marina Silva obteve 13% de intenções totais de voto. Como o conjunto dos B/N/NS/NR registrou 8%, a nova base agora é: 100% – 8% = 92%. Transformando 13% em termos de votos válidos, tem-se: 13% ÷ 92% = 14,1%, que é agora o percentual de intenção de votos de Marina em votos válidos, maior que o percentual original em votos totais.

A explicação é que se está dividindo um mesmo número por um divisor menor (13% ÷ 100% versus 13% ÷ 92%) e aí o quociente aumenta. E por que não acontece isso em relação aos percentuais para Senador? Acontece! É que não se vê. Por exemplo, 42% de um determinado candidato, nos 200% totais, equivalem a 21% em 100%. Quando transformados esses 21% passam para 30%, portanto, aumentam também.

Como se disse no início do texto, as pesquisas têm mostrado dificuldades de captar com mais precisão as manifestações de intenção de voto dos eleitores para o Senado, mormente quando estão em jogo seis cargos [Presidente, Governador, Senador (dois), Deputado Federal e Deputado Estadual], como foi o caso desta última eleição de 2010.  Não sem razão, pois, que os institutos tiveram desempenho sofrível naquele pleito. Apenas para ilustrar esse ponto, considerem-se as pesquisas do Datafolha e do Ibope para o Senado Federal em Pernambuco, realizadas às vésperas do primeiro turno da eleição que passou e, ainda, o levantamento boca de urna do Ibope.

Dos quatro candidatos competitivos os dois institutos acertaram prognósticos para apenas dois, no intervalo da margem de erro, nas pesquisas de antes da eleição. Ademais, os percentuais de intenção de votos estimados errados ficaram bem afastados dos resultados das urnas. Isso sem falar que Ibope e Datafolha indicaram que o primeiro colocado seria o candidato Humberto Costa, quando foi Armando Monteiro. Nem mesmo a boca de urna do Ibope identificou quem seria o mais votado, registrando empate técnico-numérico.

Enfim, a ausência de informações sobre a procedência do segundo voto dos eleitores, distribuído pelas várias postulações, torna a interpretação das pesquisas para Senador com duas vagas bastante complicada. Sem maiores detalhes só resta ao analista conjecturar sobre a origem, destinação e distribuição final do segundo voto, mas sem a necessária evidência empírica para os confrontos numéricos.

Não resta dúvida de que as difíceis previsões das intenções de voto para Senador e os erros cometidos relativamente aos dados oficiais das eleições mencionadas repousam em dois elementos de incerteza: elevado contingente de indecisos, característica distintiva desse pleito majoritário, e a caixa preta que esconde a distribuição percentual do segundo voto dado pelos eleitores de cada candidato.

O primeiro caso refere-se ao enorme contingente de eleitores que dizem votar em branco, ou que vão anular o voto, ou que simplesmente não sabem ou não querem dizer em quem votar. É comum, nas pesquisas para Senador, envolvendo dois cargos, o percentual dessa categoria ultrapassar a casa dos 50%, mesmo já próximo às eleições. No segundo caso, a ausência de informações sobre a destinação do segundo voto, dificulta a interpretação dos dados e impede prospectar tendências com mais acuidade.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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