PESQUISAS IPMN: MUNIÇÃO PARA ESTRATEGISTAS

18/07/2012

Maurício Costa Romão

O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN) já realizou seis pesquisas de intenção de votos relativas à eleição de 2012 para prefeito do Recife, todas no âmbito da parceria IPMN/LeiaJá/Jornal do Commercio. Os levantamentos tiveram sempre as mesmas concepções estatísticas e características metodológicas, com margem de erro de 3,5 pontos de percentagem (3,0 nesta última de julho), para mais ou para menos, um nível de confiança de 95% e tamanho da amostra de 816 questionários (1080 em julho).

Neste texto são apresentados alguns dados das pesquisas mencionadas que complementam os resultados de intenção de votos, estes últimos, tradicionalmente mais valorizados pelo público eleitor [ênfase conhecida na literatura como abordagem de corrida de cavalos (horse race approach), onde o interesse está voltado para as posições ocupadas pelos concorrentes após a largada: primeiro lugar, segundo lugar, etc.].

A grife PT

Quando arguidos sobre suas preferências partidárias, cerca de 30% dos eleitores recifenses apontam o PT como o partido que eles mais gostam. Mais ainda: perguntados sobre se o PT merece continuar à frente da prefeitura, independentemente de quem seja o candidato, 56% dizem que sim e 40% respondem que não, apenas 4% não quiseram ou não souberam opinar, conforme detectado nesta última pesquisa de julho.

Partindo do pressuposto de que essas manifestações de preferência dos eleitores pelo PT, associadas às de que o partido merece continuar no poder municipal, podem ser transformadas em decisão de voto, tem-se aí um expressivo indicador da força eleitoral da agremiação. Pode-se inferir, então, que parte dos 36% de intenção de votos do senador Humberto Costa, inobstante seus méritos pessoais próprios, deve-se a essa grife petista.

Sinal amarelo nas hostes petistas: em abril, os respondentes que afirmavam que a sigla deveria continuar na PCR somavam extraordinários 65% (contra 31% que negavam esse apreço). Em junho (dias 09 e 10), no auge da incompreensível chafurdação petista, essas declarações de apoio caíram para 53% (37% eram contra), números bem fora da margem de erro. O imbróglio situacionista pode ter causado certa desilusão numa parte do eleitorado do PT. Resta saber se esse desalento terá efetiva repercussão eleitoral.

A Frente Popular

Neste levantamento de julho, cerca de 43% do eleitores da capital já ouviram falar na Frente Popular (57%, não), aglomerado de partidos da base de apoiamento dos governos do PT, no Recife, e do PSB, no estado (pelo menos até os pessebistas lançarem candidatura própria). Pois bem, quando instados a dizerem quem é a maior liderança da Frente, os entrevistados indicam o PT com 18% de citações, seguido de Eduardo Campos com 13% e Humberto Costa com 4%. Nada menos que 51% não souberam dizer.

Significados imediatos: (1) aproximadamente metade da população eleitora não sabe o que é Frente Popular e nem quem é sua liderança maior; (2) parte dos eleitores ainda associa o PT e o senador Humberto Costa à Frente Popular, aliança hoje apropriada pelo PSB, sem o PT.

Tem mais: arguidos sobre se sabem quem é o candidato da Frente Popular a prefeito do Recife, 37% afirmaram que sim (57%, que não). Desses que afirmaram que sim, perguntados a dizer quem era, impressionantes 71% responderam espontaneamente o nome de Humberto Costa e 23% o de Geraldo Júlio.

Os estrategistas do governador/Geraldo Júlio vão fazer uma festa aí: popularizar a Frente, mostrar que o governador é sua maior liderança e desconstruir a associação da Frente com o PT e com Humberto Costa e, principalmente, espalhar urbi et orbi que o candidato da Frente é Geraldo Júlio.

Eduardo Campos

Quando se quis ouvir do eleitor, ainda nesta pesquisa de julho, quem é o candidato a prefeito apoiado pelo governador Eduardo Campos, 27% disseram saber quem é e 69% afirmaram não saber. Dos que sabem, 78% indicaram espontaneamente Geraldo Júlio, mas 18% responderam que é Humberto Costa. Tem-se aí, portanto, cerca de 5% dos eleitores que acham que o senador petista é o candidato de Eduardo Campos. 

Entretanto, quando os eleitores sabem que Geraldo Júlio é o candidato do governador, as intenções de voto do candidato pessebista sobem 3 pontos de percentagem, indo de 6% para 9%.

Não vai dar outra: os estrategistas do Palácio vão mostrar claramente quem é o candidato do governador e, pari passu, apagar da memória do eleitor essa tênue associação que ele ainda faz entre Humberto e o mandatário estadual. 

Lula

Apenas 38% dos eleitores sabem quem é o candidato do presidente Lula à prefeitura do Recife, enquanto que 60% não sabem. Dos eleitores que sabem, 94% afirmaram que era Humberto Costa. Assim, apenas 36% dos eleitores estão conscientes de que Humberto é apoiado pelo ex-presidente.

Acrescente-se a isso o fato de que quando o eleitor toma conhecimento de que o candidato de Lula é o senador Humberto Costa, as intenções de voto deste último aumentam em seis pontos de percentagem, passando de 36% para 42%.

Há, portanto, grande espaço para os marqueteiros estrelados massificarem o elo entre Lula e Humberto. Não é por menos que os petistas estão impedindo os socialistas de usar a imagem do presidente de honra do PT.

João Paulo

O deputado federal João Paulo desfruta, como se sabe, de grande prestígio eleitoral na capital pernambucana. Pode ter grande papel nesta eleição. Mas não se deve deixar de reconhecer os méritos do senador Humberto Costa, que tem luz própria, recall eleitoral, admirada militância no PT, entre outros atributos.

O fato é que quando o eleitor se informa de que o candidato a vice-prefeito na chapa de Humberto Costa é João Paulo, as intenções de voto do senador sobem seis pontos de percentagem, variando de 36% para 42%.

Não é preciso dizer que os estrategistas do PT vão expor à exaustão a figura do ex-prefeito junto ao eleitorado.

Mendonça Filho

O ex-governador Mendonça Filho é um caso digno de destaque no cenário eleitoral da capital. Desde a eleição de 2008 que ele tem mostrado ser detentor da simpatia de uma razoável parcela do eleitorado municipal – no entorno de um quinto, no mínimo – qualquer que seja a pesquisa e o instituto que a realize. Por isso não é surpresa postar-se sempre entre os dois primeiros lugares nos levantamentos internos dos partidos e nos que são dados a conhecimento público, como é o caso dos que foram feitos pelo IPMN.

Nas pesquisas do IPMN, de dezembro do ano passado para julho deste ano, alguns sentimentos captados junto aos eleitores indicam que a expressão eleitoral do candidato do Democratas é bastante sólida.

Com efeito, o IPMN vem mostrando um disco com nomes de pré-candidatos (antes das convenções partidárias) e candidatos (na última pesquisa de julho) e perguntando “em relação a estes políticos em quem você votaria com certeza?”. Na pesquisa de julho Humberto Costa recebeu 29% das indicações e Mendonça Filho 19%. Na média das seis pesquisas, o democrata tem 22% de eleitores que afirmam votar nele com certeza, o que explica suas intenções de voto gravitando na casa dos 20%.

Dos pré-candidatos que apareciam nos cenários do IPMN de antes das convenções só restam Daniel Coelho e Mendonça Filho. Daí que na série histórica das seis pesquisas, o traço evolutivo de alguns resultados será mostrado apenas para o ex-governador.

Quando perguntados sobre o político que mais admira e o que considera mais preparado para ser prefeito do Recife, o eleitor municipal confere ao deputado Mendonça Filho crescentes menções de apreço (na pesquisa de julho Humberto Costa recebeu 40% de declarações de mais preparado e 36% de mais admirado).

No que se refere aos itens relativos a quem faz mais oposição ao prefeito, que político é mais confiável para cumprir promessas e qual merece ser prefeito do Recife, todas as manifestações de voto de Mendonça são crescentes de pesquisa para pesquisa.

Em síntese, pode-se inferir que os números que embalam as intenções de voto de Mendonça Filho (crescentes de junho para julho, de 17% para 21%) estão amplamente respaldados por uma também crescente aderência do eleitorado à sua candidatura, em termos de alguns sentimentos positivos que nutre pelo ex-governador.

Imprensado por duas fortíssimas candidaturas – PSB e PT – a postulação do DEM, ainda assim, tem condições de romper essa polarização e arrumar uma das vagas no segundo turno. Se o fizer, não causará surpresa receber o apoiamento de parte da sigla que não transpuser a barreira do dia 07 de outubro, dependendo do acirramento entre petistas e pessebistas ao longo da campanha.

 

Geraldo Júlio

A postulação pessebista de Geraldo Júlio, desfilando pela primeira vez na pesquisa de julho do IPMN, teve pontuação considerada expressiva (7%), posto que a figura do ex-secretário, não obstante muito exaltada no âmbito do governo estadual, como técnico renomado e de grande visão executiva, ainda é desconhecida do eleitorado. Mas já nas duas primeiras semanas pós-convenções, Geraldo Júlio disse a que veio, exibindo desenvoltura e cacoetes políticos que chegaram a surpreender.

Como aval do governador Eduardo Campos, que tem índices estratosféricos de aprovação, e contando ainda com uma sólida base de apoiamento político, incluindo aí uma ampla aliança de 14 partidos, a candidatura de Geraldo Júlio tende a crescer, sem dúvida, notadamente a partir do dia 21 de agosto, quando começa o horário eleitoral gratuito, no qual a postulação pessebista detém quase 13 minutos de rádio e TV.

A questão toda se resume a saber por onde se dará esse esperado crescimento das intenções de voto do postulante do PSB. Uma fonte provável é conquistando indecisos e convencendo eleitores que têm manifestado desejo de votar em branco ou anular o voto. No levantamento de julho essa categoria ainda exibia altos índices, em torno de 29%. É preciso lembrar, contudo, que mesmo no dia da eleição essa categoria ainda registre um resíduo no entorno de 10%. 

Resta ainda o crescimento mediante a subtração de votos das candidaturas concorrentes. É esperar para ver, pois se tratam de dois grandes redutos de resistência: a oposição e a grife PT.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e de Mercado, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br, http://mauricioromao.blog.br.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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