Pesquisas Eleitorais e Conflito de Interesses

03/05/2010

Por Maurício Costa Romão

Talvez a manchete mais famosa do mundo, sob uma perspectiva eleitoral, tenha sido a do jornal americano Chicago Daily Tribune, no dia 3 de novembro de 1948. O jornal estampara apressadamente uma vistosa manchete de primeira página intitulada: “Dewey derrota Truman”, referindo-se à eleição para Presidente dos Estados Unidos naquele ano.

Contudo, os resultados finais do pleito demonstraram o contrário: Truman venceu com 49,6% dos votos, contra 45,1% de Dewey. A foto, abaixo, mostra o presidente Truman, na Union Station, em St. Louis, Missouri, um dia depois de ter sido eleito, segurando uma cópia do jornal, rindo da equivocada manchete.

Fonte: Wikipedia

A eleição do democrata Harry S. Truman se deu contrariando todas as previsões, inclusive as do respeitado instituto Gallup, que apontavam a vitória do concorrente republicano Thomas E. Dewey, então governador de Nova York. Daí a confiança do Tribune, que demonstrava abertamente preferência por Dewey, de que sua manchete espelharia o que os meios de comunicação e o clima das ruas antecipavam. O próprio jornal tentou corrigir o erro nas duas últimas edições do mesmo dia 3 de novembro, informando a vitória correta de Truman, mas cerca de 150 mil cópias com a desastrada manchete já haviam sido impressas e distribuídas.

O incidente é trazido à baila para introduzir a discussão, sempre recorrente, da eventual existência de conflito de interesses na contratação de pesquisas eleitorais para divulgação, inclusive pela mídia e entidades de classe, a institutos que estejam também trabalhando para políticos ou partidos políticos.

Recentemente, a Folha de S.Paulo, em reportagem do jornalista Fernando Rodrigues (26/04/2010), fez a seguinte pergunta, de um total de dez sobre questões metodológicas, aos grandes institutos de pesquisas (Datafolha, Ibope, Vox Populi e Sensus): conflito de interesses: é correto fazer pesquisas reservadas para políticos e partidos políticos e também pesquisas públicas para divulgação?”

O Datafolha, instituto pertencente ao Grupo Folha, não acha incorreto, mas opta por fazer pesquisas eleitorais apenas para veículos de comunicação, quer dizer, não aceita encomendas de politicos e/ou partidos políticos. Diametralmente oposto, o Ibope não vê nenhum conflito de interesses em fazer pesquisas reservadas para políticos e/ou partidos políticos e pesquisas para divulgação. O instituto diz que trabalha para todos. O Vox Populi, alegando ser o tema subjetivo, preferiu não emitir opinião a respeito e, por último, o Sensus, mais alinhado com o posicionamento do Ibope, argumenta que a propriedade técnica e a ética dos institutos independem do contratante.

A propósito da relação mídia-pesquisa eleitoral, o cientista político Antônio Lavareda, no seu importante livro “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais (Editora Objetiva, 2009, p. 72), no intuito de “… evitar que prosperem no público hipóteses de manipulação (pela mídia, MCR) que contribuem para corroer o senso de legitimidade do processo (eleitoral, MCR)”, propõe que seja vedado, legalmente, “… a contratação pela mídia de institutos que estejam trabalhando dos dois lados do balcão. Ou seja, pesquisando, ao mesmo tempo, para os veículos e para as campanhas”. E arremata, dizendo não ser “compatível à mídia contratar suas pesquisas a quem assessora candidatos”.

Como se vê, o assunto é bastante controverso. O modelo Datafolha, raríssimo no Brasil, é o que mais se aproxima do desejável, embora não garanta por si só a ausência de desvios éticos. Da mesma forma, os institutos que adotam posicionamento alternativo não podem ser taxados de aéticos. Num e noutro caso, é preferível acreditar que os institutos saberão zelar pelas suas condutas, separando os interesses contratuais dos resultados das pesquisas, pois só assim preservação sua credibilidade.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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