PESQUISAS ELEITORAIS: CONSTRUINDO UM “ÍNDICE DE AVALIAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO”

25/04/2013

   (Versão Preliminar p/ Discussão)

Maurício Costa Romão

No quesito “avaliação da administração” dos governantes, os institutos de pesquisa costumam inquirir os respondentes de duas maneiras: uma, indagando se o mandatário está realizando uma administração “ótima, boa, regular, ruim ou péssima”, outra, instando-os a declararem se “aprovam ou desaprovam” a gestão em andamento.

Esta última forma é mais direta, intuitiva, de fácil computação e interpretação. Seus resultados numéricos não deixam margem a dúvidas: 60% de aprova, 30% de desaprova e 10% de não sabem, não responderam, suscitam logo a conclusão de que a administração é aprovada pela população.

Entretanto, ao se resumir à dualidade aprova/desaprova, a questão deixa de fora do leque de opções do entrevistado as eventuais manifestações intermediárias entre as duas indagações.

Muitas pessoas que gostariam de expressar algum sentimento diferente do binário aprova/desaprova, tipo “aprovo algumas coisas, mas desaprovo outras”, “a administração está mais ou menos”, etc., não encontram espaço para fazê-lo. A pergunta força o respondente a encaixar-se na dualidade apresentada. A única válvula de escape que ele tem é através do “não sabe, não respondeu”.

Já a mais usual pergunta, a da categoria que vai de ótimo a péssimo, oferece cinco alternativas ao entrevistado. É quase exaustiva. Por envolver cinco opções a pergunta se torna mais complexa, porém pode ser considerada de relativa assimilação, exceto, talvez, pela abrangência da palavra “regular”.

Quando o entrevistado diz que a administração é regular, ele está buscando situar-se fora do espectro de “ótimo e bom” e de “ruim ou péssimo”, reconhecendo que a gestão tem pontos bons e ruins e, até mesmo, ótimos e péssimos. A administração é avaliada então, neste contexto, como “mais ou menos”, “média”, “assim, assim”. Não é uma aprovação expressiva (ótima e boa), nem uma desaprovação completa (ruim e péssima).

Os institutos não tem, obviamente, como fazer uma exegese no interior das respostas “regulares” e mensurar quanto de mais e de menos tem no “mais ou menos”.

Então, quando os administradores governamentais somam, nas pesquisas, o regular ao ótimo e bom, com o propósito de inflar sua aprovação, estão cometendo uma impropriedade. Colocam todo o peso da resposta do entrevistado apenas na bandeja da balança que lhes favorecem.

Alguns institutos, no afã de escapar dessa dubiedade, tratam de espremer o entrevistado para que ele clarifique sua posição, chegando ao requinte de desmembrar o “regular” em “regular positivo” e “regular negativo”. Um despropósito. Polui o questionário, confunde o entrevistado e não agrega informação relevante.

Problema de interpretação

Mas há outro problema na classificação da categoria de ótimo a péssimo. Tome-se, como exemplo, a última pesquisa Datafolha (4 e 5 de abril deste ano) que aferiu a avaliação da administração do prefeito Fernando Haddad em São Paulo. O Instituto resume seus achados logo no primeiro parágrafo da descrição dos resultados da pesquisa (vide site da empresa):

“O petista Fernando Haddad completa 100 dias de governo à frente da Prefeitura de São Paulo com a aprovação de 31% dos moradores da cidade. Esse é o índice dos que avaliam sua gestão como ótima ou boa, menor do que o de paulistanos que lhe atribuem desempenho regular (42%). Há ainda 14% que avaliam o governo de Haddad como ruim ou péssimo, e 13% que não souberam analisar seu desempenho”.

Pergunta que não pode esperar: 31% de ótimo e bom, 42% de regular e 14% de ruim e péssimo é uma avaliação boa? É uma avaliação ruim? É uma avaliação mais ou menos? Qual é o critério que se tem para classificar a administração como tendo uma avaliação boa, ruim ou mais ou menos?

O próprio Datafolha não emitiu opinião sobre se os números da pesquisa sugeriam que a gestão do alcaide paulistano poderia ser enquadrada como boa, ruim ou regular. E nem poderia. Não existe parâmetro de referência para esta classificação.

Para uns, 31% de ótimo e bom é um percentual pequeno para dizer que a gestão é boa, que está aprovada. Para outros, é um percentual suficiente, até porque somente 14% disseram que a gestão era ruim ou péssima. Para alguns outros, ainda, 42% de regular, somados aos 14% de ruim e péssimo, são atestados de que essa administração não pode ser considerada boa. Enfim… impera a subjetividade (a pobreza, como a beleza, está nos olhos de quem a vê, Mollie Orshansky).

Uma coisa que se pode fazer para se ter um norte referencial é confrontar esses números de agora com outros de pesquisas anteriores (time series) do mesmo instituto, realizadas em épocas assemelhadas, ainda que se refiram a administrações de distintos governantes (portal UOL, em 10/04/13):

“Dentre os prefeitos em primeiro mandato a partir de Luiza Erundina, a performance em começo de governo [de Kassab, nosso adendo (MCR)] só não supera a de Marta Suplicy (PT), que, em abril de 2001, teve 34% de ótimo ou bom. Com cem dias, Gilberto Kassab (PSD) e José Serra (PSDB) tinham 16% e 20% de aprovação, respectivamente”.

Veja-se, mais uma vez, que o Datafolha só confrontou as respectivas aprovações (ótimo + bom) das gestões dos governantes paulistanos.

É lícito, também, à guisa de se procurar termos de comparação, e com as devidas ressalvas de metodologia, cotejar os resultados paulistanos com outros oriundos de levantamentos contemporâneos, mesmo que de institutos diferentes.

Por exemplo, pode-se dizer que a avaliação dos 100 primeiros dias de administração do prefeito Haddad teve aprovação menor de que a do prefeito do Recife, Geraldo Júlio, relativamente ao mesmo período.

Com efeito, levantamento do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN), levado a efeito contemporaneamente (cross section) ao do Datafolha, nos dias 2 e 3 de abril, no Recife, mostrou que a administração do prefeito da capital pernambucana teve 57% de ótimo e bom, 31% de regular e somente 3% de ruim e péssimo.

Aí não resta dúvida: no inquérito recifense os quesitos associados à aprovação (ótimo + bom), à reprovação (péssimo + ruim) e à regularidade (mais ou menos) são todos melhores do que o da enquete realizada em São Paulo. Assim, tirante as eventuais discrepâncias metodológicas, é lícito afirmar-se que a gestão do prefeito do Recife apresentou uma avaliação melhor do que a do mandatário paulistano.

Mas e se o levantamento do IPMN tivesse registrado a administração de Geraldo Júlio com 41% de ótima e boa, 21% de regular e 28% de ruim e péssima? E agora, pode-se dizer que a gestão do mandatário do Recife teria uma avaliação melhor do que a do seu colega de São Paulo?

Tudo bem: a aprovação do recifense teria dez pontos à frente da do paulistano. Veja-se, contudo, que as manifestações de ruim e péssimo no Recife seriam o dobro das equivalentes em São Paulo. No saldo [(ótimo + bom) – (ruim + péssimo)], Haddad levaria vantagem de quatro pontos de percentagem (17% contra 13%). E aí?

O que se deduz do exposto?

(1) Que a referida categoria, de ótimo a péssimo, quando vista isoladamente, tem sua importância relativizada por falta de parâmetros referenciais, suscitando, por via de consequência, interpretações variadas, dependendo do ângulo como são vistas (juízos de valor);

(2) Que para conferir maior relevância à informação derivada dessa categoria é necessário confrontá-la com outros levantamentos de mesma origem institucional ou não, contemporâneos ou não;

(3) Que, mesmo que a informação seja cotejada com outra, dependendo de como ambas se apresentam, podem ainda haver maneiras diferentes de leitura dos números, suscitando interpretações variadas;

(4) Que se requer, então, um avanço metodológico no tratamento da informação coletada, de sorte a apresentá-la em termos de um indicador sintético, consequentemente objetivo, de fácil apreensão, que exprima, sem margem de dúvidas, o sentimento do eleitor sobre a avaliação da administração do governante.

Propondo o “Índice de Avaliação da Administração”

Idealmente um índice deve converter todas as suas dimensões envolvidas a uma mesma unidade de medida e circunscrever-se ao intervalo de 0 a 1, de sorte a permitir interpretação imediata e servir de comparação temporal ou contemporânea.

Uma vantagem de se trabalhar com os números da dimensão “avaliação da administração”, extraídos de pesquisa eleitoral, é a de que as subcategorias (ótimo, bom, regular, ruim e péssimo) têm todas a mesma unidade de medida: variam entre 0 e 1 (0% a 100%).

Dessa forma, não há necessidade de convertê-las em um índice como, por exemplo, é imperioso fazê-lo com as dimensões “renda” e “saúde”, no índice de desenvolvimento humano (IDH) das Nações Unidas. Essas dimensões, que têm unidades de medida diferentes, precisam ser transformadas de tal sorte que fiquem circunscritas ao intervalo de 0 a 1.

Uma primeira aproximação ao índice a ser construído, o “Índice de Avaliação da Administração” (IAA) é imaginá-lo como um saldo entre as subcategorias de ótimo (O) e bom (B) e ruim (R) e péssimo (P). Um saldo positivo significa um indicador de aprovação, já que (O + B) > (R + P), e um saldo negativo, sintoma de reprovação, posto que (O + B) < (R + P).

Mas aí surge um primeiro obstáculo: como fica a subcategoria regular? Ela faz parte da dimensão “avaliação da administração” e não pode ser simplesmente desprezada.

Já que essa subcategoria é a que resume o conteúdo “mais ou menos”, composta de “coisas ótimas e boas” e “coisas ruins e péssimas”, é perfeitamente admissível distribuí-la proporcionalmente entre todos os componentes da dimensão.

A mesma distribuição proporcional pode ser feita com a subcategoria residual de “não sabe, não respondeu”, sem prejuízo qualitativo, já que o percentual dela derivado não contém nenhuma indicação de destino para as demais subcategorias da dimensão em estudo.

Por exemplo, na mencionada pesquisa do IPMN, os 31% de manifestações de avaliação regular e os 9% de não sabe, não respondeu, seriam distribuídos em proporção aos 57% de ótimo e bom, e aos 3% de ruim e péssimo.

Por sinal, o tratamento aqui conferido às subcategorias regular e não sabe, não respondeu, é o mesmo que é aplicado à subcategoria de “indecisos” (eleitores que não sabem ou não quiseram responder) nas pesquisas eleitorais, quando da passagem de votos totais para votos válidos. O percentual de indecisos é distribuído proporcionalmente entre todos os candidatos, de acordo com as intenções de voto manifestas nas pesquisas.

Campo de variação do índice

Note-se, de passagem, que após as simplificações procedidas, a porcentagem de referência da dimensão avaliação da administração passa a ser agora 100% menos o percentual das subcategorias regular e não sabe não, respondeu.

Sendo o IAA o saldo entre as subcategorias de ótimo e bom e ruim e péssimo, expressas em termos do novo percentual de referência, o índice pode ser escrito como:

IAA = [(O+B) / (O+B) + (R+P)] – [(R+P) / (O+B) + (R+P)], ou

IAA = [(O+B) – (R-P)] / [(O+B) + (R+P)]

Um segundo obstáculo à construção do indicador sintético IAA é que sua amplitude abarca também o campo dos números negativos, o que é um dificultador à assimilação do seu conteúdo.

Isso ocorre por conta de que a soma das subcategorias ruim e péssimo pode ser, e não raro é, maior que a soma das subcategorias ótimo e bom:

(O + B) < (R + P) → IAA < 0, já que [(O+B) + (R+P)] > 0

Então, em termos da amplitude do índice, o IAA varia de -1 a +1:

-1 ≤ IAA ≤ 1

O campo de variação do IAA pode ser ilustrado assim:

 -1ı————————–0————————ı+1

Genericamente tem-se que:

IAA > 0 → Avaliação Positiva   e   IAA < 0 → Avaliação Negativa

Entretanto, é conveniente fazer a seguinte classificação adicional:

0 < IAA < 0,5 → Avaliação Positiva Baixa (APB)

0,5 ≤ IAA < 0,8 → Avaliação Positiva Média (APM)

0,8 ≤ IAA ≤ 1 → Avaliação Positiva Alta (APA)

 O mesmo procedimento se opera quanto à avaliação negativa:

-0,5 < IAA < 0 → Avaliação Negativa Baixa (ANB)

-0,8 < IAA ≤ -0,5 → Avaliação Negativa Média (ANM)

 -1 ≤ IAA ≤ 0,8 → Avaliação Negativa Alta (ANA)

Aplicando o Índice

O indicador IAA agora já pode ser aplicado nos exemplos referidos do Datafolha e do IPMN.

No caso do prefeito Haddad, sua administração seria avaliada como de Aprovação Positiva Baixa, já que os cálculos apontaram um IAA = 0,38. Vê-se aqui que as dúvidas expressas antes sobre qual seria realmente o conceito que deveria ser atribuído ao alcaide paulistano são dissipadas. Já é possível agora enquadrar o desempenho da gestão do prefeito numa escala de “notas” que registra o grau de satisfação ou insatisfação dos eleitores.

Por outro lado, o conceito dos munícipes recifenses em relação à administração do prefeito Geraldo Júlio foi bem maior, tendo o IAA registrado 0,90, o que caracteriza uma Avaliação Positiva Alta.

Assim, enquanto a gestão do prefeito Haddad estaria no patamar baixo da escala de avaliação positiva, a do governante recifense se postaria no patamar mais elevado da mesma escala. O índice IAA, por ser sintético, como todo índice, permite comparativo de desempenho de forma imediata e inequívoca.

 No caso hipotético discutido acima, sobre a eventualidade de a pesquisa do IPMN registrar a gestão de Geraldo Júlio com 41% de ótimo e bom, 21% de regular e 28% de ruim e péssimo, o IAA do recifense pontuaria 0,19, metade, portanto, do IAA conferido à administração do prefeito Haddad. Não sem razão: o IAA valoriza o saldo entre as subcategorias de aprovação e desaprovação.

Série histórica

Um registro histórico de vários levantamentos de um mesmo instituto, no caso, o IPMN, em que foram aferidas as avaliações da administração de dois governantes, está mostrado abaixo em dois gráficos.

No primeiro, desfila-se a evolução do IAA para a gestão do governador Eduardo Campos em Pernambuco, numa série que vai de dezembro de 2011 ao final de setembro de 2012, pouco antes das eleições de outubro.

Fonte: elaboração própria com base em pesquisas do IPMN

Nota-se neste gráfico que somente em quatro ocasiões a performance do dirigente pernambucano foi considerada Positiva Média pelos eleitores do Recife (as pesquisas foram todas levadas a efeito apenas na capital), com o IAA registrando números entre 0,7 e 0,8. Nos outros onze levantamentos, o conceito de administrar de Eduardo Campos foi sempre o mais elevado da escala, com IAA > 0,8.

O gráfico seguinte apresenta números evolutivos do IAA em 14 pesquisas realizadas pelo IPMN na capital pernambucana, também de dezembro de 2011 ao final de setembro de 2012.

Fonte: elaboração própria com base em pesquisas do IPMN

Neste caso, a subcategoria ruim e péssimo foi sempre maior do que a de ótimo e bom, de que resultou geração de IAA negativos em todos os levantamentos. Dez dos índices se situaram no intervalo de 0 a -0,5, conferindo Avaliação Negativa Baixa á gestão do prefeito João da Costa. Outros quatro circunscreveram-se ao patamar de -0,8 a -0,5, caracterizando Avaliação Negativa Média.

Se computadas as médias de avaliação das gestões dos dois governantes nas séries históricas consideradas, têm-se: Eduardo Campos (IAA = 0,85) e João da Costa (IAA = -0,43). O primeiro, na faixa de Avaliação Positiva Alta e o segundo, na de Avaliação Negativa Baixa.

Considerações finais

O objetivo deste texto foi fazer a propositura de um indicador sintético, denominado de Índice de Avaliação da Administração, que pudesse mensurar a dimensão Avaliação da Administração extraída das pesquisas eleitorais.

A referida dimensão, na forma com é hoje apresentada pelas pesquisas, com suas cinco subcategorias (ótimo, bom, regular, ruim e péssimo) não propicia, na grande parte das vezes, uma visão clara da avaliação do governante, dando margem a várias interpretações, dependendo de como a leitura dos números é feita.

O índice sugerido tem a vantagem de eliminar as subjetividades envolvidas nessas leituras. As informações extraídas das subcategorias que compõem a dimensão pesquisada são sintetizadas de forma a não deixar dúvidas sobre o grau de avaliação que foi conferido ao governante pelos eleitores.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br http://mauricioromao.blog.br.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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