PESQUISA ELEITORAL: O QUE É ISSO, EXATAMENTE?

21/05/2011

 

 

Maurício Reimberg

Leituras cotidianas nº 273, 21 de agosto de 2006.

 Os institutos de pesquisa acabam atuando, em períodos eleitorais, como verdadeiros termômetros da vontade popular. Como são feitas as amostragens? Qual a confiabilidade desses números? Por que uma investigação feita com duas mil pessoas pode revelar o ânimo de cem milhões de eleitores? Esta reportagem especial tenta responder a essas perguntas.

Genericamente denominadas “fotografias do momento” pelos analistas de estatística, ou “bússolas para orientar a campanha”, na ótica de alguns marqueteiros políticos, o papel desempenhado pelas pesquisas de intenção de voto não se esgota na imediata aspiração eleitoral de candidatos ou assessores. Ao contrário disso, o prestígio público crescente de que gozam as pesquisas eleitorais no Brasil pós-redemocratização abre um debate que percorre desde o entendimento da própria metodologia utilizada pelos institutos até a avaliação do potencial de influência dos resultados sobre o tabuleiro político nacional.

A conseqüência do novo cenário é que as grandes disputas políticas não se resumem apenas aos discursos em palanques, passeatas e carreatas, como acontecia antigamente. Hoje é, sobretudo, no trabalho do marketing político e na performance midiática que os votos migram de uma zona de influência para outra. Para os dois últimos, a difusão das pesquisas de intenção de voto cumpre um papel fundamental na elaboração e desenvolvimento do programa de campanha.

“As influências mais importantes dos resultados de pesquisas divulgadas costumam ocorrer em dois campos do processo eleitoral: o ânimo das militâncias, quando o pleito envolve candidatos com algum enraizamento em segmentos sociais organizados e, sobretudo, na capacidade de captação de financiamento privado para a disputa”, analisa Gustavo Venturi, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Institutos de disputa política

No último dia 8 de agosto [8/8/2006], o candidato do PSDB à presidência da República, Geraldo Alckmin, chamou a atenção da mídia ao classificar como uma “piada” o resultado da mais recente pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT). O levantamento mostra o avanço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, de 44,1% em julho, para 47,9% em agosto, enquanto o tucano caiu de 27,2% para 19,7%, sem chance de segundo turno. De acordo com o Sensus, é um dos piores índices de Alckmin desde o início da campanha. “Trato de assuntos sérios, acho que isso é uma boa piada. Você leva a sério isso?”, perguntou o candidato aos jornalistas.

Em resposta, Ricardo Guedes, diretor do Sensus, preferiu não polemizar. Declarou que as acusações do ex-governador Geraldo Alckmin não se sustentam, e que “as amostras do Sensus foram colhidas de forma adequada segundo os critérios do IBGE”. O Sensus é, ao lado do Ibope, Datafolha e Vox Populi, um dos quatro principais institutos de pesquisa do país.

Não foi a primeira vez que a divulgação dos quadros de intenção de voto levantou polêmica nas eleições deste ano. Na manhã do dia 25 de julho, enquanto os técnicos do Ibope ainda compilavam os últimos dados da sondagem sobre a sucessão presidencial, uma versão com resultados extremamente favoráveis ao candidato Alckmin começou a circular na mídia.

Os números apareceram primeiro no blog do jornalista Ricardo Noblat, alcançaram páginas na Internet e viraram notícias em diversas rádios. Segundo os indicadores então disponíveis, Lula estava com 41%, Alckmin com 30% e Heloísa Helena com 10%. O gráfico indicava a possibilidade de segundo turno em outubro.

O resultado, misteriosamente vazado antes da hora, estava incorreto. À noite, o Jornal Nacional, que tem a primazia de divulgar a pesquisa, já que o trabalho foi encomendado pela Rede Globo, anunciou os verdadeiros dados. Se a eleição fosse hoje, de acordo com o Ibope, ocorreria a vitória de Lula no primeiro turno, com 44%, ante 27% de Alckmin e 8% de Heloísa Helena.

Metodologia

Segundo Venturi, do ponto de vista amostral, não há diferenças relevantes entre os diversos institutos de pesquisa em atividade. “Todos usam amostragens probabilísticas nos primeiros estágios – sorteio de municípios e setores censitários –, combinadas com controle de cotas no estágio final, ou seja, seleção dos eleitores a serem entrevistados. Enquanto alguns usam cotas de sexo e idade, outros utilizam ocupação ou escolaridade”, explica.

A amostragem probabilística pura, que realizava sorteio até a fase final de definição dos indivíduos, caiu em desuso, devido ao alto custo necessário. Em 1994, o último grande instituto que usava a probabilística pura, o Gallup, foi o único a, erroneamente, apontar que poderia haver um segundo turno entre FHC e Lula. “É provável que, por levarem muito tempo para concluir a coleta dos dados, seguindo à risca as exigências requeridas por esse método, acabaram perdendo a dinâmica do processo em curso.”

Na questão da abordagem, o Datafolha se distancia do método empregado pelos demais. Quando iniciou suas atividades, em 1983, o instituto era um departamento de pesquisas do Grupo Folha da Manhã, criado para realizar pesquisas de opinião pública e eleitorais, com “rigor técnico e agilidade”. Desde 1995, o departamento se transformou numa verdadeira unidade de negócios.

“A principal diferença é que nós preferimos pesquisar nas ruas, em vez de ir às residências. Temos no nosso DNA o espírito do jornalismo”, orgulha-se Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Ele esclarece a razão da escolha. “Hoje é mais difícil o acesso aos condomínios de luxo, e só se entra em favelas se fizer acordo com o tráfico.” De acordo com Paulino, o Datafolha aborda moradores de favela somente no “pé do morro”.

Sobre os problemas de vazamento de informações, enfrentados recentemente pelo Ibope, Paulino diz que “a melhor forma é divulgar o resultado no mesmo dia em que a apuração é fechada, pois números que circulam demais se tornam perigosos”. Ele cita o exemplo de 2002, em que dados da amostra influenciavam a cotação do dólar e provocavam quedas na bolsa de valores. O Datafolha abandonou, também, a chamada boca-de-urna. “Devido ao surgimento das urnas eletrônicas, não há mais interesse para o jornal.”

Já Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, discorda da eficácia da estratégia de abordagem nas ruas. “Nossa pesquisa é domiciliar, porque aumenta a possibilidade do controle de fluxos no campo. Quando você tem um endereço determinado, pode retornar lá para confirmar o voto e checar as informações. Esse é o nosso procedimento padrão”, explica.

O Vox Populi opera em nível local e internacional. Desde fevereiro de 1984 com sede em Belo Horizonte (MG), já trabalhou na África, para o partido Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), nas primeiras eleições democráticas em 1994, e atuou em pesquisa, análise e consultoria a clientes na América Latina. Em 2002, atendeu a campanha do Partido Social Democrata (PSD) de Portugal, e em 2003 o Partido Popular (PP) da Espanha, nas eleições provinciais de Madri.

Para Coimbra, pesquisa ideal é aquela que dá exatamente a mesma chance de um integrante de um determinado universo ser incluído na amostra. “Teríamos que ter o nome de todos e sortear um por um, mas isso é impraticável do ponto de vista operacional. A pesquisa não é 100% aleatória”, alerta. Ele também defende uma maior valorização dos dados referentes à intenção de voto espontânea, que seria um eficiente mecanismo para entender as tendências do eleitorado.

Nas eleições presidências nos EUA, por exemplo, a amostra geralmente é composta por cerca de mil entrevistados. No caso do Brasil, os institutos preferem aumentar o número para dois mil indivíduos, no intuito de “diminuir os riscos da ausência de aleatoriedade”. Além disso, as cotas prévias também são um dos mecanismos empregados para preservar a diversidade.

Coimbra acha essencial deixar claro o limite interpretativo de uma pesquisa deste tipo. “A intenção de voto é apenas uma intenção de voto”, diz. Em seguida, explica o sofisma. “Ainda não temos um número grande de eleições para entender o padrão de comportamento do eleitor brasileiro. Pela primeira vez na história do Brasil, teremos a quinta eleição direta seguida. É uma coisa terrível, depois de 506 anos de história! O conhecimento ainda é muito incipiente. Tivemos algumas inovações, como o voto eletrônico e as regras de presença nos meios de comunicação, mas o quadro político ainda é instável.”

Erros estatísticos e erros políticos

Os diretores ouvidos pela Carta Maior são unânimes em afirmar que a tecnologia facilitou a vida dos pesquisadores. Tanto a apuração das respostas quanto a checagem dos resultados, argumentam, tornaram-se mais rápidas e precisas. A média de acerto dos quatro grandes institutos possui padrão internacional. Considerando os números referentes às eleições presidenciais a partir de 1989, a média de acerto é superior a 90%. No entanto, durante o período analisado, a única disputa altamente competitiva foi o segundo turno da disputa de 1989.

Pergentino Mendes, um dos fundadores da Levantamentos e Pesquisas de Marketing (LPM), pioneira no uso do índice de rejeição em pesquisas de campo, endossa o coro dos grandes institutos em relação à melhora da técnica, mas relativiza a noção da absoluta imparcialidade das pesquisas. “Muitos institutos surgem quando começam as eleições e saem vendendo pesquisas para candidatos. Isso ocorreu em pequenas cidades durante a última eleição de 2004. Houve repreensões da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP)”, critica Mendes.

Outro aspecto prejudicial para a credibilidade dos institutos é quando, definida a votação final nas urnas, as estatísticas apontam falhas acima da previsão da margem de erro, um parâmetro definido de antemão que estipula a variação ou imprecisão teórica considerada aceitável para a investigação do objeto em foco.

“A margem de erro é calculada errada. No caso da eleição presidencial, ela é muito menor para Heloísa Helena do que para o Lula, por exemplo. Tudo depende do procedimento amostral. Matematicamente, quanto mais próximo da faixa de 50%, maior a margem de erro, quanto mais próximo a 100% ou 0%, menor a margem de erro”, explica Mendes.

Acertar é o segredo?

É famoso no mundo todo um insólito episódio protagonizado pela imprensa norte-americana envolvendo as eleições presidenciais. Nas eleições dos EUA de 1948, quando Harry Truman concorreu contra Thomas Dewey para o mais importante cargo dos Estados Unidos, o respeitado jornal americano Chicago Daily Tribune resolveu se antecipar aos fatos, apostando numa premissa recorrente no jornalismo.

Durante a apuração dos votos, Truman estava perdendo na maioria dos Estados em que a resposta dos resultados chegava de forma mais rápida. Então, parecia que Dewey iria ganhar, avaliaram os jornalistas na época. Assim, o Tribune soltou o jornal na manhã do dia seguinte com a surpreendente manchete: “Dewey defeats Truman” (“Dewey derrota Truman”). Truman, ao contrário das previsões, acabou vencendo a eleição daquele ano.

O episódio é ilustrativo sobre a importância das pesquisas de intenção de voto para a imprensa, bem como os interesses envolvidos na sustentação e produção de uma notícia. Em 1985, um episódio de relativa repercussão na época maculou também a imagem das pesquisas de opinião no Brasil.

Em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso e Jânio Quadros travavam uma acirrada disputa pela prefeitura da capital paulista. Naquele ano, era proibida a divulgação de pesquisas até quinze dias antes das eleições. Mesmo assim, o Gallup e o Datafolha fizeram vazar os resultados, que apontavam empate técnico na disputa. As pesquisas foram parar nas manchetes dos principais jornais.

No final, Jânio ganhou com uma diferença de três pontos percentuais. “A vontade política da mídia era a vitória de FHC. Por isso, ela resolveu apostar e perdeu. Eles endoidaram o eleitorado”, lembra Marcus Figueiredo, professor e diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Em 1985, o registro do questionário da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não era uma prática obrigatória.

Atualmente, a divulgação de pesquisas no Brasil é permitida até algumas horas antes do início da votação. É diferente do modelo francês, por exemplo, que continua proibindo divulgação até quinze dias antes do pleito. Aqui, a medida foi considerada inconstitucional. “Não pode negar informação ao leitor. Ele deve ter a oportunidade de consolidar o voto ou trocar se a primeira opção não for competitiva”, argumenta Figueiredo.

Antecedentes históricos

Apesar do longo período sob a ditadura militar (1964-1985), a trajetória da pesquisa de opinião não é um fenômeno recente no país. O marco inicial aconteceu em 1942, ano de fundação do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), pioneiro na realização de pesquisas no Brasil. Já em 1974, ganharam destaques as pesquisas produzidas pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Mas foi só a partir de 1982, com a volta das eleições para governador, que as pesquisas começaram a atuar de forma sistemática, sobretudo com o Gallup e o Ibope. Era a consolidação de uma atividade que tentaria, a todo custo, associar a marca da “credibilidade” ao nome de seus produtos. De lá para cá, houve uma verdadeira proliferação de pequenos institutos regionais espalhados por todo o Brasil.

“O Brasil adotou o modelo internacional, de amostragem e estimação estatística, que era exatamente o mesmo que se fazia nos Estados Unidos e na Europa. Valia a máxima: 1% no Ibope é igual a 1 milhão de eleitores. Durante muitos anos, isso serviu para criar uma retroalimentação de apoios”, conta Figueiredo.

Já num segundo momento, durante o período das convenções dos partidos, o resultado das pesquisas, divulgadas através da mídia, servia para o eleitor se informar quais seriam os candidatos. “Hoje em dia, as lideranças nacionais já estão consolidadas”, compara Figueiredo.

Atualmente, continua ele, com o resultado da pesquisa, o candidato ganha ou perde apoio entre a população “politicamente mais ativa”, que lê jornais, revistas e têm acesso à Internet. “20% do eleitorado”, afirma. “Não existe essa de ver pesquisa e mudar de voto. Isso só pode acontecer no dia ou na véspera, se houver um efeito de voto útil, ou seja, quando há mais de dois candidatos empatados.” Segundo ele, apenas 2% dos eleitores costumam mudar de voto na véspera do pleito.

Conjuntura brasileira

Como formular uma pesquisa de intenção de voto presidencial numa eleição brasileira sui generis, em que os votos estão fortemente fracionados entre o candidato mais bem-visto pelos setores populares, sobretudo na região Nordeste, e o outro com força em camadas da classe média, principalmente no Sudeste e Sul do país?

Venturi especula sobre a resposta. “Até prova em contrário, toda disputa eleitoral está sujeita a particularidades que ao princípio não são necessariamente evidentes. Cabe aos pesquisadores aventar diferentes hipóteses, certificando-se que seus instrumentos de coleta e análise dêem conta de confirmá-las ou de refutá-las. Amostras bem-feitas não têm dificuldade em captar essa característica marcante da divisão de classes sociais que permeia a disputa em curso.”

Para ele, manipular pesquisa, puxando pontos percentuais dentro da margem de erro, é uma prática “possível”. Porém, destaca Venturi, “existem outras formas mais sutis, como desenhos amostrais menos probabilísticos e mais dirigidos para redutos pré-identificados de algum candidato, ou ainda a formulação e ordenação das perguntas, que também permitem a manipulação de resultados, muitas vezes só perceptíveis para olhares treinados”.

Para Paulino, durante a abordagem, a elaboração de perguntas prévias possui potencial de interferência na escolha do candidato. “Esse erro já foi cometido em 2001, quando houve um caso em que o pesquisador queria saber sobre o envolvimento de um governador do PT no jogo do bicho. Só depois dessa pergunta inicial vinha o questionamento sobre a intenção de voto do entrevistado.”

Venturi afirma que a existência de atritos entre candidatos e institutos de pesquisas tende a diminuir. Seriam, em sua maioria, queixas esporádicas e residuais. “Embora de forma declinante, ainda vemos políticos mal colocados em prévias eleitorais tratando de desqualificá-las, mas poucos o fazem a sério, pois não lançam mão de auditá-las como faculta a legislação vigente, quando há indícios reais de manipulação.”

Pelo menos o histórico das três últimas eleições presidenciais favorece a previsão geral dos institutos brasileiros. Todos os candidatos que estavam na frente das pesquisas em agosto, antes do início do horário eleitoral gratuito, obtiveram a vitória política em 1994, 1998 e 2002.

Fonte: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=11976&boletim_id=97&componente_id=1734

Esta página faz parte do sítio Pausa para a Filosofia.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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