Pesquisa eleitoral: cuidado com a amostra!

01/05/2010

Por Maurício Costa Romão

Os primeiros levantamentos de pesquisa eleitoral conduzidos de forma sistemática, em escala nacional, foram levados a efeito em 1916 pela revista americana Literary Digest, que predisse corretamente a eleição de Woodrow Wilson como presidente dos Estados Unidos naquele ano.

Utilizando-se de extensa mala postal, obtida de listas telefônicas e catálogos de registros de automóveis, a revista enviava milhões de cédulas aos potenciais eleitores e computava as opiniões expressas nos retornos. Com base nesse procedimento, a Literary Digest acertou os vencedores presidenciais das quatro eleições seguintes naquele país, alavancando suas vendas e tornando-se líder em pesquisas de opinião.

Nas eleições de 1936, embalada pelo sucesso de previsões acertadas em cinco eleições seguidas, a revista postou nada mais nada menos que 10 milhões de cédulas endereçadas aos eleitores, tendo um impressionante retorno de 2.376.583 opiniões, o que lhe credenciou prever, uma semana antes do pleito, a vitória do republicano Alf Landon sobre o democrata Franklin Roosevelt (que buscava a reeleição), por 57% a 43%.

Eis que entra em cena o sociólogo George Gallup que, à época, era razoavelmente conhecido do público, pois mantinha uma coluna semanal em diversos periódicos americanos. Contrariando a tudo e a todos, e para estupefação geral, ele assegurava que a Digest estava completamente equivocada e que quem iria ganhar a eleição seria Roosevelt, por uma diferença de 12 pontos percentuais, de 56% a 44%. Os percentuais eram praticamente os mesmos da Revista, só que com o nome do vencedor trocado.

E mais: para chegar a essa conclusão, seu instituto consultou apenas e tão-somente 3.000 eleitores em todo os Estados Unidos! Gallup tornou-se alvo de chacota na nação inteira pela inusitada ousadia, mesmo tendo prometido, tal a confiança na sua técnica, devolver todos os salários que tinha ganhado dos jornais pelos artigos semanais escritos, caso estivesse enganado.

Abertas as urnas o resultado confirmou as previsões de Gallup, não obstante alguns pontos percentuais de erro nas estimativas dos números: Roosevelt ganhara de 61% a 37%. A Digest fechou as portas posteriormente e George Gallup tornou-se uma celebridade, com seu instituto passando a ser a referência internacional em pesquisa de opinião.

O episódio encerra relevante ensinamento quanto às características dos levantamentos amostrais. Ao utilizar um cadastro de proprietários de telefone e de carro, a Digest ouviu um particular segmento da população, que se diferenciava do americano comum. Era um contingente mais bem aquinhoado em termos de renda, tendente, na época, a simpatizar com o Partido Republicano, mais conservador e apreciado pela elite financeira americana.

Na linguagem estatística se diz que essa amostra foi “viesada”. Por conta disso, o imenso tamanho da amostra (quase 2,4 milhões de “questionários”) foi de pouca utilidade para detectar como o povo americano, em média, se iria manifestar naquela eleição. Então, o importante de uma amostra não é o tamanho, mas sua representatividade do universo pesquisado.

Em estratégia diametralmente oposta, o Gallup pesquisou, de maneira aleatória, “apenas” 3.000 pessoas, um subconjunto porém que era a imagem da população, em termos de sexo, idade, renda, escolaridade, residência urbana ou rural, etc. Essas 3.000 pessoas eram, por critérios estatísticos, o espelho da sociedade americana como um todo, refletindo suas características demográficas e sócio-econômicas e, até mesmo, seus sentimentos, aspirações, expectativas e, naquele instante, especialmente, suas preferências eleitorais.

Os resultados das urnas, como se viu, validaram os critérios estatísticos de definição da amostra: ela realmente representava toda população americana!

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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