PERU À BRASILEIRA

11/06/2011

José Sarney

Folha de S.Paulo, 10/06/2011

O Peru, como o Brasil, teve em sua história recente comuns atropelos com os militares e divisões pseudoideológicas a pregar reformas de base esotéricas, xenofobias desesperadas e populismo anárquico. Tal fase, para eles, só acabou em 1985, com o término do mandato de Belaúnde Terry e a eleição de Alan García (em seu primeiro governo). A política peruana sempre foi comandada pela aristocracia crioula de Lima ou pelos “incas”, militares que comandavam, como Velasco Alvarado, ideias autoritárias com base ideológica. Era frágil a estrutura democrática e o interior permanecia com a população indígena mergulhada na miséria absoluta.

Como complicador inesperado, surgiu essa inacreditável cunha chamada Fujimori -a quem recusei receber em meu primeiro mandato como presidente do Senado, em 1996, por ter fechado o Congresso peruano-, que ainda resiste com sua filha Keiko, herdeira do populismo, candidata nas últimas eleições. A disputa no Peru se processou, como na eleição de Lula em 2002, sob dicotomias: “medo e esperança”, “medo e populismo”, “medo e moral”.

Ollanta Humala, o primeiro “cholo” puro a romper a tradicional divisão do país, outrora radical e partidário da violência, converteu-se à realpolitik. Respeito aos mercados, estabilidade fiscal, promessas de inclusão social e distribuição de renda.
O Peru vive uma fase de crescimento; o problema de Humala será mais fácil, pois não precisa, como no Brasil em 2002, retomá-lo, mas mantê-lo com justiça social.

Pesa sobre a população a herança da guerrilha do Sendero Luminoso e a profunda divisão entre o interior e a capital. Basta ver que Keiko Fujimori teve 57% dos votos na grande Lima e foi o apoio maciço do interior a Humala que decidiu a eleição.
Lá, como cá, os problemas sociais são graves. As disparidades de renda e de qualidade de vida são maiores do que as nossas, e não temos a questão étnica que no Peru é tão forte.

Entre Chávez e Lula, Humala aderiu, na campanha, ao modelo brasileiro. Resta saber se o seu temperamento e suas origens de coronel radical vestirão a camisa do diálogo e da transformação, como nosso líder operário vestiu. A campanha foi à moda brasileira, com os mesmos temas e os mesmos fantasmas. Medo foi a palavra mais usada durante todo o processo eleitoral e ainda remanesce na ressaca dos resultados. A Bolsa caiu 12%. Aqui, em 2002, o dólar foi a R$ 3,40.

Resta saber se o Peru sairá do seu labirinto histórico e dará continuidade a seu crescimento (5,5% ao ano) ou se Humala será seduzido pelos seus demônios passados. Mas uma coisa já fez: sua primeira visita foi ao Brasil. Começou bem.


JOSÉ SARNEY escreve às sextas-feiras nesta coluna.
jose-sarney@uol.com.br

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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