PERSPECTIVAS DO BRASIL

28/05/2012

Kenneth Maxwell

 Folha de S.Paulo, 03/05/2012

Nem todo o mundo confia no Brasil. Andres Oppenheimer, nascido na Argentina e colunista especializado em América Latina do jornal “Miami Herald”, dos EUA, está há muito entre os céticos. Oppenheimer cita o ex-presidente do Peru, Alan García, que brincou afirmando que o grupo Brics -formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul- em breve se tornaria Rics, com a saída do Brasil. Sua conclusão é a de que o país é “um gigante temporariamente desorientado”.

A revista “Foreign Affairs” tem opinião semelhante. Na sua mais recente edição, Ruchir Sharma, o indiano que comanda o Departamento de Mercados Emergentes no Morgan Stanley Investment Bank, em Nova York, diz que a moeda brasileira está supervalorizada, que o país depende demais dos preços mundiais das commodities que exporta e que problemas sérios emergirão quando estes preços começarem a cair. Ele acredita que as expectativas quanto ao Brasil sejam exageradas.

Isso contraria o que os brasileiros sentem sobre sua situação. Pesquisa Datafolha constatou que 77% deles estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com seus empregos, e que apenas 1% se declaravam insatisfeitos. Espantosos 93% dos entrevistados afirmaram ter ótimas relações com seus colegas de trabalho.

Os brasileiros continuam a visitar Nova York e Miami em grande número, para compras. A situação é muito melhor que a da Espanha, onde o índice de desemprego atingiu 25% e em que 52% das pessoas com menos de 26 anos não têm trabalho.

É verdade que o Brasil já teve outros booms. O açúcar brasileiro dominou os mercados mundiais no século 17, o ouro e os diamantes do país fizeram o mesmo no século seguinte e o café e a borracha do Brasil dominaram o século 19 e o começo do século 20. Por isso, o atual boom de exportação de matérias-primas e commodities agrícolas não é o primeiro. Mas os estrangeiros, muitas vezes, esquecem que as consequências desses booms mudaram permanentemente a sociedade brasileira.

Açúcar, café, borracha e até mesmo ouro e diamantes não desapareceram do dia para a noite. Todos contribuíram, ao longo de 500 anos, para criar uma sociedade multidimensional, multiétnica, multirracial e expansiva em termos regionais, capaz de crescimento e de absorver tanto expansões quanto contrações.

As instituições e o sistema político brasileiros também têm raízes profundas nesse passado -e isso, claro, é parte do problema do país.

É algo que, às vezes, pode tornar o Brasil muito opaco para estrangeiros, especialmente colunistas do “Miami Herald” e executivos financeiros de Wall Street.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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