PERIGOSA ASSIMETRIA

18/04/2012

Josué Gomes da Silva

Folha de S.Paulo, 08/04/2012

Em recente painel do qual participei na Organização Mundial do Comércio (OMC), sobre o impacto do desalinhamento do câmbio, observei que o problema pode provocar perdas irreversíveis na estrutura manufatureira de países com moedas supervalorizadas. O Brasil é um exemplo.

A despeito de nossa economia vir apresentando evolução positiva, houve desaceleração acentuada no crescimento em 2011 devido em parte ao controle inflacionário, mas também ao fraco desempenho da indústria. Esse quadro deve-se à intensa concorrência estrangeira, ajudada pelo real sobrevalorizado, enquanto a maioria das importações vem de países com moedas desvalorizadas.

O superavit comercial médio do Brasil desde 2008, entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões, advém principalmente das commodities. Os manufaturados tiveram deficit de US$ 92,5 bilhões em 2011. Apenas há seis anos haviam registrado saldo positivo de US$ 5,1 bilhões.

A deterioração foi assustadoramente rápida! Enfatizei isso na OMC. Aliás, foi uma grande conquista da diplomacia brasileira conseguir que os impactos dos desalinhamentos cambiais fossem debatidos nesse organismo.

Notamos que começa a se formar forte opinião na comunidade internacional de que as distorções devem ser corrigidas. Até as duras trocas de acusações entre as representações do governo americano e do chinês devem ser entendidas como reconhecimento do problema.

No Brasil, lembramos, juros e impostos elevados, energia e logística caras e a “guerra fiscal dos portos” praticada por alguns Estados também contribuem para os problemas enfrentados pela indústria. Porém nenhum fator compara-se ao impacto esmagador do câmbio.

Em todas as metodologias para calcular tal desalinhamento, a conclusão é a mesma: o real está supervalorizado, e a moeda de vários de nossos parceiros comerciais, subvalorizada.

A Fundação Getulio Vargas calcula em 30% e, com base nesse índice, mostra que as tarifas de importação brasileiras são negativas para todos os grupos de produtos.

Assim, em vez de proteger a produção nacional, incentivam importações. E mais: se essas taxas fossem ajustadas para considerar a desvalorização das moedas de nossos parceiros, fica mais gritante o impacto da dupla assimetria, que reduz a competitividade, faz cair as receitas e a lucratividade das exportações, incentiva o ingresso de manufaturados estrangeiros, inibe investimentos e rompe cadeias de abastecimento.

Portanto, a dupla assimetria precisa ser solucionada no âmbito do comércio exterior. Caso contrário, pode recrudescer o protecionismo, na contramão de regras multilaterais justas e civilizadas.

JOSUÉ GOMES DA SILVA escreve aos domingos nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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