PARADOXO PERUANO

11/04/2011

Patrícia Campos Mello
Folha de S.Paulo, 10/04/2011

O Peru foi o país sul-americano que mais cresceu em 2010, a uma taxa chinesa de 8,8%. O país tem investimentos beirando 25% do PIB, bem acima do índice brasileiro, e ótimos resultados fiscais.

Mas, apesar dessa bonança econômica, a popularidade do presidente Alan García está em apenas 26%, pior do que o odiado ex-presidente dos EUA George W. Bush em fim de mandato. Não só isso, mas nenhum dos candidatos que lideram as pesquisas para a eleição presidencial que se realiza hoje, no Peru, é do partido de García.


No Brasil, o ex-presidente Lula deixou o governo com popularidade acima dos 80% e elegeu facilmente sua sucessora, Dilma Rousseff.
Afinal, por que o milagre econômico peruano não se traduz em popularidade para seus governantes? Em primeiro lugar, porque a história de sucesso do Peru, por enquanto, se limita a Lima e às zonas costeiras e exportadoras. Na selva, como chamam a região amazônica, e na serra, o apelido para o altiplano, a pobreza ainda grassa.
A disparidade de renda entre as regiões é muito grande e a pobreza na zona rural cai muito mais lentamente do que nas cidades. A renda per capita, de US$ 5.196, mais do que quadruplicou em 30 anos, mas ainda é baixa se comparada com a do Uruguai (US$ 12.130), do Chile (US$ 11.587), do Brasil (US$ 10.470) e do México (US$ 9.243).
Segundo o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard, o modelo de crescimento peruano -de exportações de recursos naturais- é intensivo em capital e distribui pouco a renda. Mas tal modelo começou a mudar nos últimos quatro anos.
Tem havido uma diversificação na economia do país, com crescimento em construção, varejo e serviços em geral.
Com isso, a distribuição de renda deve começar a reduzir as desigualdades regionais. Além da questão econômica, há uma desconfiança histórica dos peruanos em relação a seus políticos. Governantes no Peru normalmente têm baixa popularidade.
Alejandro Toledo, um dos responsáveis pelo sucesso econômico do país, chegou a ter apenas 8% de aprovação.
Na história recente, só o ex-presidente Alberto Fujimori teve alta popularidade durante o período em que combateu a hiperinflação e controlou o Sendero Luminoso, para despencar depois.
García, por sua vez, presidiu em uma época de crescimento extraordinário, mas seu governo foi alvo de diversos escândalos de corrupção.
Quiçá com a melhora da distribuição de renda, os eleitores peruanos abandonem parte de sua desconfiança e acabe a maldição sobre os governantes peruanos.


PATRÍCIA CAMPOS MELLO é repórter especial da Folha

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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