PARADOXO À VISTA EM 2014

03/01/2014

 

Maurício Costa Romão

No primeiro turno da eleição presidencial de 2010 no Brasil, o conjunto de votos que compreende o alheamento eleitoral atingiu 27% (18,1% de abstenção e 8,7% de votos brancos e nulos). Os recentes protestos de junho, com forte mensagem de “antipolítica”, indicam que o percentual tende a aumentar.

A conseqüência pouco comentada entre analistas é que tal aumento reduz os votos válidos e fica mais fácil para quem lidera a corrida majoritária, com votação acima dos concorrentes, atingir 50% mais um dos sufrágios, encerrando o certame na sua primeira fase.

À guisa de exemplo: se em 2010 o alheamento eleitoral tivesse sido de 33%, ao invés de 27%, a presidente Dilma Rousseff teria ganho no primeiro turno com a mesma quantidade de votos!

Os exemplos recentes de antipolítica na América Latina (e em Portugal), onde o povo está indo às ruas em grandes manifestações, reforçam a preocupação com a ocorrência do fenômeno no Brasil.

Por exemplo, a abstenção, apenas para citar um componente da alienação, foi bastante elevada nas eleições presidenciais do Chile (56% no primeiro turno e 53% no segundo) e de Honduras (40%), nas eleições municipais da Venezuela (41,7%) e de Portugal (47,4%), e nas proporcionais da Argentina (25%).

Então, se os impulsos da antipolítica no Brasil forem elevados em 2014, estabelece-se um paradoxo: aqueles que clamam pela mudança (2/3 da população, segundo Datafolha e Ibope), querendo que o próximo presidente tenha ações diferentes das praticadas pela atual, podem ser eles próprios o veículo através do qual a incumbente continue no governo!

Explicando:

A presidente Dilma Rousseff, na ultra vantajosa qualidade de incumbente, leva grande vantagem com a diminuição dos votos válidos, pois pode transformar a liderança que exibe nas pesquisas eleitorais em uma menor quantidade de votos suficiente para ganhar no primeiro turno (desde, naturalmente, que o somatório de votos dos concorrentes seja menor do que o total de votos da líder).

Suponha-se que os mesmos 27% de alienação eleitoral de 2010 se repitam em 2014. Neste caso, com o eleitorado projetado para 142 milhões, os votos válidos somariam cerca de 104 milhões. A líder na corrida presidencial precisaria de 52 milhões de votos para faturar o pleito no primeiro turno

Admita-se agora, in extremis (será?), que o total do alheamento eleitoral seja de 40% (13 pontos a mais do que os 27% de 2010). Nesta configuração, os votos válidos seriam de 86 milhões e a líder se elegeria na primeira etapa da eleição com apenas 43 milhões de votos, sempre na hipótese de que a soma dos votos dos concorrentes não alcança o total de votos da líder.

Detalhe: em 2010 Dilma teve 47,6 milhões de votos e não se elegeu no primeiro turno… 

Outra forma de ver o mesmo problema é através apenas dos votos brancos e nulos.

Os votos brancos e nulos de 2010 somaram 8,7%. Se permanecessem os mesmos em 2014, os votos válidos seriam 91,3% dos votos apurados. A líder precisaria ter 45,6% desses votos para vencer na primeira etapa.

Imagine-se que em 2014 os votos brancos e nulos alcancem o dobro de 2010, isto é, 17,4%. Nesta hipótese os votos válidos somariam 82,6% dos votos apurados e a líder ganharia no primeiro turno com 41,3% desses votos. 

Em síntese, com a mesma quantidade de votos a líder atinge 50% dos votos válidos se estes diminuírem à custa dos votos dos concorrentes.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br. http://mauricioromao.blog.br.

 

 

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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