PARA SEMPRE PERDIDO, PARA SEMPRE GUARDADO

25/12/2011

José Serra

Na minha família, no tempo que eu era menino, o Natal era comemorado só no dia 25 de dezembro mesmo, nada de véspera, por um motivo simples: pai, avô e tios trabalhavam até as seis da tarde do dia 24, no Mercado Municipal de São Paulo. No próprio dia de Natal, a jornada se estendia até o meio dia. Por isso, não havia a ceia, só o almoço. A família não trocava presentes. Recebê-los era exclusividade das crianças. O almoço, feito sob a direção da minha avó, era extraordinário. O prato nobre era o pernil com batatas ao forno. Uma iguaria. Houve um ano em que se comeu cabrito, comprado vivo em sociedade com os vizinhos e dividido escrupulosamente em dois depois de preparado.

Nos dias anteriores, eu levava o cabrito para pastar em alguns terrenos próximos. Afeiçoei-me a ele. O pior é que eu presenciei o seu sacrifício em nome da festa, perpetrado por Luigi, o chefe de família da casa ao lado. Eu não entendia como um homem tão bom, que também vendia frutas no mercado, podia cometer, com absoluta naturalidade e expertise, o que, aos olhos de uma criança, parecia um crime. Na hora, chorei e protestei. No almoço, não só não comi como armei um escândalo. Eu estava acostumado a ver minha avó puxar o pescoço de frangos, que depois eram fervidos e depenados, exalando um cheiro inesquecivelmente horroroso. Não gostava do espetáculo, embora o suportasse. Mas o cabrito? Desde os tempos ancestrais os homens não misturam os animais domésticos com suas necessidades de proteína animal. É uma sabedoria.

As bebidas eram vinho de São Roque, cerveja e guaraná. Não havia nenhuma proibição para que crianças bebessem, mas essa franquia não era exercida. As mulheres tomavam malzbier, uma cerveja preta com pouco álcool e muito doce. Na sobremesa, destacavam-se as uvas, maçãs e peras, vindas da Argentina. Iguarias que só apareciam no Natal, pois eram muito caras.

Depois do almoço havia duas atividades sequenciais, começando pela música. Um de meus tios tinha uma vitrola com microfone, uma preciosa raridade. Os homens não tinham pendores artísticos, com exceção do meu avô, que tocava violão e cantava o stornello calabrês, incompreensível para muitos, mas o que contava era o ritmo. Ensaiava também umas tarantelas, e todos dançavam. Eu era escalado para cantar La strada del bosco e Mamma, que fazia meu pai chorar, pois sua estava na Itália. Tinha também as músicas brasileiras, as mais animadas, de Carnaval.

A estrela era minha tia Theresa, que falava italiano melhor que seu pai, que era calabrês, e espanhol melhor que sua mãe, argentina. Cantava maravilhosamente Una sera di maggio e Adiós, pampa mia, que emocionava minha avó, que nunca mais tinha voltado a seu país por falta de dinheiro. Muitos anos depois de sua morte, descobrimos outra razão: na Argentina, quando conhecera o meu avô, que para lá migrara da Itália, ela era casada com outro homem, mas os dois se apaixonaram e, literalmente, fugiram para o Brasil. Diga-se que meu avô não sabia ler e escrever e jamais falou português, e sim uma mistura do nosso idioma com o calabrês e o castelhano portenho, que aprendera durante a aventura em Buenos Aires.

Ainda durante a cantoria, os homens iam se afastando para jogar cartas. A tensão rapidamente dominava o ambiente feminino. Havia o receio de que, na mesa enfumaçada pelos cigarros, os homens brigassem como culminação dos gritos, blasfêmias e discussões enquanto se dedicavam ao tresette (três setes), um jogo de cartas que nunca consegui aprender. Para mim, aquilo era incompreensível: como podiam exaltar-se tanto por causa de umas cartas, num ambiente sufocado pela fumaça branca dos cigarros e o cheiro das cinzas abundantes? E tudo aquilo num dia santo, como o Natal?

Mas tudo voltava à normalidade quando era servido o lanche, com a comida do almoço requentada – e ainda mais saborosa. As mulheres começavam, então, a lavar e arrumar a casa, e os homens já se preparavam para dormir. No dia seguinte, começavam no batente às seis da manhã.

Os Natais, hoje, os meus e os de muita gente, talvez sejam até muito diferentes. . . Ocorre que o olhar da criança fica congelado no tempo e compõe a nossa teia de afetos. O que está irremediavelmente perdido também está, na memória, irremediavelmente guardado.

Bom Natal a todos!

 

José Serra

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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