Vox Populi para Senador em Pernambuco

28/04/2010

A pesquisa do Instituto Vox Populi levada a efeito no Estado de Pernambuco, entre os dias 6 e 10 de abril, e que teria balizado a direção do PT para se definir pela escolha de Humberto Costa como candidato ao Senado na chapa situacionista, foi bastante abrangente, tendo considerado seis cenários alternativos, quatro dos quais, os mais importantes, estão retratados na Tabela abaixo.

Nos dois primeiros cenários principais, em que se alternam os candidatos petistas, Marco Maciel aparece empatado numérica e tecnicamente com Humberto Costa e à frente oito pontos de percentagem quando João Paulo substitui Humberto, conforme se pode observar nas duas colunas iniciais da Tabela.

Em outros dois cenários, quando se consideram os apoios do presidente Lula e do governador Eduardo Campos para Humberto Costa e os apoios do candidato José Serra e de Jarbas Vasconcelos para Marco Maciel, os dois postulantes ao Senado ficam tecnicamente empatados. No cenário com esses mesmos apoios, mas com João Paulo como concorrente, no lugar de Humberto, Marco Maciel tem seis pontos de vantagem sobre o ex-prefeito.

Armando Monteiro e Sérgio Guerra aparecem sempre em terceiro e quarto lugares, respectivamente, em qualquer que seja o cenário, mas ambos distantes dos demais concorrentes, com diferenças fora da margem de erro, que é de 3%, para mais ou para menos.

Do ponto de vista numérico, a decisão da executiva do PT em escolher Humberto Costa foi coerente, se o critério de escolha entre os dois candidatos locais da agremiação fundamentou-se no desempenho de cada um, em termos de intenção de votos.

Tecnicamente, a escolha pode até ser questionada por ter sido baseada apenas em um único levantamento, num determinado momento de tempo (com um dos postulantes tendo mais exposição na mídia, por exemplo), sobretudo levando-se em conta que os percentuais de intenção de votos dos dois candidatos não são assim tão diferentes, nos diversos cenários. Note-se, também, que é altíssimo o percentual dos respondentes ainda indecisos (brancos, nulos, não sabe, não respondeu), variando de 35 a 38%.

Ao que parece, os dados da pesquisa foram usados para respaldar uma decisão política.

Testando a influência de Ciro Gomes na eleição presidencial de 2010

26/04/2010

Tem-se discutido bastante ultimamente se a saída de Ciro Gomes da corrida presidencial seria vantajosa ou não para a candidatura de Dilma Rousseff. O próprio candidato tem dito que a permanência dele na disputa é benéfica para as hostes lulistas, como estratégia de levar o embate para o segundo turno.

Uma maneira de se avaliar a influência, ou não, da presença de Ciro Gomes nas atuais manifestações de inteção de votos é considerar todos os levantamentos de caráter nacional realizados recentemente pelos grandes institutos de pesquisa de opinião, relativamente às quatro candidaturas conhecidas (Serra, Dilma, Ciro, Marina).

Para os propósitos do texto, não se exige o requisito de que as pesquisas tenham sido geradas a partir de uma mesma fonte. Elas podem provir de institutos diferentes, com distintos desenhos de concepção (tamanho da amostra, modelo de questionário, etc.) e de modalidade (ponto de fluxo, residencial, etc.), não importa. A idéia é catalogar seus resultados à medida que vão sendo divulgados e, depois, colocá-los em seqüência para possível visualização de tendência.

Observem-se os Gráficos ao final do texto, nos quais estão plotadas as intenções de voto para a eleição presidencial que se aproxima, oriundas de doze pesquisas nacionais (as datas das pesquisas e os institutos responsáveis estão listados no eixo horizontal, ao pé dos Gráficos):

a)   No primeiro Gráfico, com os quatro candidatos, nota-se estabilidade nas intenções de voto de José Serra, notória ascensão de Dilma Rousseff, declínio de Ciro Gomes, e Marina Silva restringindo-se à faixa de 5 a 10% de intenção de votos, desde o início dos levantamentos listados (setembro do ano passado).

b)   Chama à atenção neste Gráfico a estabilidade de José Serra, no patamar de 35% de intenção de votos, apesar de ainda nem ter lançado oficialmente sua candidatura. A linha de tendência de sua trajetória é uma reta horizontal ao eixo das abscissas (os econometristas hão de notar que a reta de regressão dos números de Serra, do tipo y = a +bx, oferece um estimador do coeficiente angular quase igual a zero, o que torna a equação da forma y=a).

c)   No Gráfico em que estão desenhadas duas linhas, uma referente às intenções de voto do candidato tucano e outra composta pela soma das intenções de voto dos outros três candidatos, os números indicam a realização de segundo turno, no período considerado, mantidos os mesmos quatro postulantes como candidatos.

d)   (Observação: só não haveria segundo turno se a linha azul estivesse acima da vermelha, com percentuais de intenção de votos fora da margem de erro. Isso significa que, em termos de votos válidos, o candidato representado pela linha azul teria mais da metade mais um dos votos, ganhando no primeiro turno, se a eleição fosse realizada na época em apreço).

e)   Neste cenário, Ciro Gomes tem razão: sua presença na disputa é benéfica para as hostes lulistas, como estratégia de levar o embate para o segundo turno.

f)     No Gráfico seguinte, o último, quando se suprime o nome de Ciro Gomes, as intenções de voto de José Serra ou são sempre superiores as da soma de Dilma Rousseff e Marina Silva, ou quando são inferiores os dados apontam para empate técnico (empate técnico é risco: tanto pode dar um como o outro).

g)   Mais uma vez, a permanência de Ciro Gomes equilibra as forças, contribuindo para jogar o pleito para o segundo turno.

Somente com outras pesquisas mais à frente é que se poderá delinear uma tendência mais nítida. Até lá, do ponto de vista numérico, de intenção de votos, há pouco embasamento técnico para previsões mais ousadas!

Os 30 maiores nordestinos na História (e no Google)

26/04/2010

Não é uma tarefa fácil escolher os maiores nordestinos na História, mas, em tempos de “nunca antes neste país”, talvez seja importante fazê-lo. Além disso, um exercício como esse dá oportunidade de refletirmos sobre as relações mútuas entre a economia regional e alguns de seus mais importantes personagens. Não só a economia, mas a organização social de forma ampla.

Lanço abaixo uma lista preliminar. (Sugestões de novos candidatos são bem vindas.) Cheguei aos trinta nomes do quadro pelo seguinte procedimento. Primeiro, reuni um grupo grande de pessoas que, tendo nascido na região, ou apenas atuado no Nordeste, ganharam notoriedade. Desse grupo, exclui as personalidades ainda vivas, em relação às quais não temos perspectiva histórica. O passo seguinte foi distribuir as celebridades em seis categorias (Políticos, Empresários, Religiosos, Literatos, Artistas e “Perseguidos”). Finalmente, os nomes foram submetidos ao buscador Google. Os cinco que apareceram com maior número de citações, em cada categoria, foram, então, “eleitos”.

O método é questionável, claro. Em alguns casos, as distorções eram tão óbvias que decidi ignorar os resultados. Um caso extremo: o nome “João Pessoa”, com as aspas, tem 9.480.000 citações na internet; mas é claro que elas se referem muito mais à cidade do que ao político paraibano assassinado em 1930. Nessas condições, achei melhor desclassificar o candidato. Há uma infinidade de outros problemas, que não pretendo negar, mas esse parece ter sido o maior. Foi o único em que os resultados do Google foram ignorados.

O quadro pode ser lido horizontalmente ou coluna por coluna. Na primeira opção, um fato a destacar é que, dos seis primeiros lugares em suas respectivas categorias, nada menos de quatro são originários ou atuaram no Sertão e Agreste: Assis Chateaubriand, Padre Cícero, Luiz Gonzaga e Lampião. Mesmo levando em conta que Chateaubriand e Luiz Gonzaga fizeram suas carreiras, principalmente, no “sul” do país, essa alta incidência é surpreendente, pois contrasta com a pequena importância demográfica ou econômica que o Semiárido nordestino sempre teve. Como explicá-la?

Talvez uma pista apareça na leitura vertical. Aí veremos que não há, na relação do quadro, nenhum “político” ou “literato” (e há apenas dois empresários, Chateaubriand e Delmiro Gouveia) com raízes ou atuação no Nordeste seco. Por outro lado, três dos religiosos (Padre Cícero, Beato Lourenço e Antonio Conselheiro), três dos artistas (Luiz Gonzaga, Vitalino e Patativa do Assaré) e três dos “perseguidos” (Lampião, Corisco e Antonio Silvino) são originários ou se tornaram célebres vivendo no Sertão e Agreste.

Ou seja, numa conclusão muito preliminar: sempre houve gente com fibra e energia, no Nordeste seco. Algumas dessas pessoas conseguiram dar vazão aos seus talentos sendo líderes religiosos (via de regra, em confronto com a Igreja oficial), ou artistas populares (atuando na sua cidade natal, ou falando sobre a região para os nordestinos da diáspora), ou em confronto com o poder legal e, consequentemente, sendo “perseguidos”: o caso de Lampião é, apenas, o mais notório.

Fora dessas atividades, ou seja, na política, no mundo empresarial e na literatura, as possibilidades de ascensão tendem a ser mais restritamente determinadas pela economia: nada surpreendentemente, portanto, em tais áreas, os litorâneos sempre dominaram.

Alianças Partidárias em Pernambuco

20/04/2010

O acolhimento no texto da Lei Eleitoral da possibilidade de os partidos se coligarem nos pleitos proporcionais foi motivado pela perspectiva de que os pequenos partidos sem a junção com outras legendas teriam dificuldades de ultrapassar os quocientes eleitorais e ocupar cadeiras no legislativo.

De fato, o progressivo crescimento do quociente eleitoral ao longo dos pleitos – resultante da gradual diminuição dos votos brancos e nulos como proporção dos votos apurados, combinada com a queda paulatina da abstenção como fração do eleitorado – torna-o cada vez mais inatingível para a maioria das agremiações partidárias.

Na última eleição para deputado federal em Pernambuco, por exemplo, dos 29 partidos que concorreram nada menos que 21 não ultrapassaram individualmente o quociente eleitoral de 167.571 votos, apesar de quatro deles terem conquistado cadeiras porque faziam parte de coligações, sendo beneficiados no processo de partição de sobras de votos.

A força eleitoral das coligações é tão evidente, no histórico das quatro últimas eleições para a Câmara Federal em Pernambuco, que somente partidos que celebraram alianças obtiveram cadeiras no Parlamento, embora 18 agremiações hajam concorrido isoladamente nesses pleitos.

O exemplo pernambucano dos deputados estaduais é menos radical, porém igualmente ilustrativo da predominância numérica e da força eleitoral das coligações. O percentual de cadeiras conquistadas pelas coligações em 1994 (98%), 1998 (96%), 2002 (96%) e 2006 (92%), fala po si só.

Diferentemente dos partidos que concorreram individualmente a deputado federal sem nunca obter sequer uma cadeira, de 1994 a 2006, as agremiações isoladas disputantes das vagas da Assembléia Legislativa estadual conquistaram três em 2006 e uma em cada um dos demais anos.

Do ponto de vista eleitoral, então, a celebração de alianças passou a ser uma questão de sobrevivência – e às vezes de negócio – para os pequenos partidos e um expediente que é dos mais vantajosos para os grandes. Estes últimos, normalmente com candidatos mais competitivos, tendem a se beneficiar da agregação de votos oriundos das siglas menores, já que os eleitos são os mais votados da coligação.

Com projeções para este ano de quocientes eleitorais mais elevados de que os da eleição de 2006, gravitando no entorno de 184.940 votos para deputado federal e de 95.079 votos para estadual, pode-se esperar a repetição de nova enxurrada de partidos coligados no pleito proporcional de 2010 no estado, dominando numericamente os resultados eleitorais.

Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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