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Copa não paraliza jogo eleitoral

12/05/2010

Por Mauro Paulino, Diretor-Geral do Datafolha, para a Folha de S.Paulo (12/05/10)

Há um mito disseminado no meio político de que durante a Copa do Mundo o eleitor se desconecta da campanha, e mudanças no quadro eleitoral só acontecerão após o fim do torneio. Estrategistas de campanha que se pautarem por essa crença podem se equivocar.
Mudanças significativas em eleições anteriores demonstram que muitos eleitores permanecem sensíveis aos movimentos dos candidatos mesmo durante trajetórias vitoriosas da seleção brasileira.

Desde 1994, quando se realizou a segunda eleição direta para presidente após o regime militar, o processo eleitoral coincide com a Copa. Já naquele ano, ocorreram fatos importantes que impactaram a disputa eleitoral, enquanto Bebeto e Romário despontavam como ídolos nos Estados Unidos. Uma semana antes da abertura do torneio, Lula liderava com 22 pontos de vantagem sobre Fernando Henrique. Uma semana após o Brasil sagrar-se campeão, a diferença havia despencado para três pontos.

Em 1º de julho, três dias antes da partida contra os EUA pelas oitavas de final, Itamar Franco lançou o Plano Real. A conquista de um título mundial após 24 anos de espera não foi suficiente para desviar a atenção dos brasileiros sobre as importantes medidas econômicas e eleitorais tomadas durante a campanha do tetra.

Em 1998, FHC se reelegeu liderando a disputa do início ao fim. Em apenas um momento foi ameaçado por Lula: durante a Copa da França, quando a seleção mesclou a experiência de Dunga e Taffarel com jovens talentos como Roberto Carlos, Rivaldo e Ronaldo. Às vésperas da abertura do torneio, o presidente viu sua vantagem de 17 pontos sobre Lula cair para 3, reflexo da demora em reagir diante da seca nordestina e do desgaste por ter chamado de “vagabundos” os que se aposentavam com menos de 50 anos. A sensibilidade social de FHC foi questionada pelos eleitores às vésperas da Copa e sua recuperação se deu enquanto o país discutia também a convulsão de Ronaldo e o show de Zidane na final contra a França. Logo após a derrota da seleção, o presidente recuperou a vantagem e a manteve até a vitória em primeiro turno.

Em 2002, enquanto a “família Scolari” seguia para a Coreia do Sul, Lula liderava a disputa eleitoral com uma vantagem de 26 pontos sobre José Serra e Anthony Garotinho, embolados na segunda posição.Graças a uma inserção comercial programada para o início de junho, já com a Copa em andamento, Ciro Gomes saiu dos 11% que obtinha na primeira semana de junho para 18% no início de julho, empatando com Serra, enquanto Lula caía.

Esse movimento ocorreu durante a fase final da conquista do penta por Marcos, Roberto Carlos, Rivaldo e Ronaldo, recuperado do joelho. Em meio às comemorações, Ciro Gomes continuou subindo e encostou em Lula, graças também à associação de sua imagem à da mulher, Patrícia Pilar, atriz que, de cabeça raspada, lutava contra o câncer. Mais adiante, já distante da Copa, Ciro declarou que o papel de Patrícia na campanha era “dormir” com ele, além de destratar um ouvinte em entrevista de rádio. Ciro voltou a 11%, Lula recuperou-se e bateu Serra no segundo turno.

Na Copa de 2006, a seleção de Parreira chegou como favorita, mas foi eliminada pela França em semifinal marcada pelo episódio da ajeitada na meia de Roberto Carlos. Lula manteve a liderança do início ao fim da campanha e venceu o segundo turno contra Alckmin. Assim como a Copa, a eleição não empolgou os brasileiros e foi, entre as quatro, a única que não teve movimentos importantes nas intenções de voto, nem durante o torneio. Neste ano, o último Datafolha mostra que 42% dos eleitores já revelam grande interesse pela Copa do Mundo, mas 32% também se interessam muito pelas eleições para presidente.

Entre os apaixonados por futebol, mais da metade tem grande interesse pelas eleições. Não há motivo para se acreditar que todos desistirão da eleição para pensar só em futebol.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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