Erros em Pesquisas Eleitorais

13/05/2010

Por Maurício Costa Romão
para os blogs Acerto de Contas e MauricioRomao

Imagem cedida por Pierre Lucena, do blog Acerto de Contas

“Enquanto um homem, individualmente,
é um quebra-cabeça insolúvel, no conjunto,
ele se torna uma certeza matemática.”
Conan Doyle, O Signo dos Quatro.

As pesquisas de opinião eleitoral, como se discutiu antes no texto anterior postado neste blog Acerto de Contas, baseiam-se no fundamento da análise estatística de que para se obter indicadores de uma população (universo), basta consultar apenas uma parte (amostra) representativa dessa população. Os resultados daí derivados são chamados de estimativas dos parâmetros populacionais e, portanto, passíveis de erro, o chamado erro amostral.

Assim, toda e qualquer pesquisa que não entrevista o conjunto do universo tem erro de estimativa, que é calculado em função principalmente do tamanho da amostra e da maior ou menor homogeneidade da população pesquisada.

Para um mesmo desenho de amostra, há uma relação inversa entre erro amostral e tamanho da amostra, isto é, quanto maior é o tamanho da amostra, menor é o erro amostral e vice-versa. A mesma relação inversa se dá entre o nível de homogeneidade do universo sob pesquisa e o erro amostral: quanto mais homogêneo é o conjunto da população, tanto menor é o erro amostral e vice-versa.

Felizmente a técnica estatística permite que se possa calcular e circunscrever esse erro a um dado intervalo de variabilidade, conforme se verá mais adiante.

A maneira como se interpretam os resultados de uma pesquisa eleitoral depende, dentre outros fatores, da magnitude do erro incorrido nas estimativas. Assim, um candidato que obteve numa eleição 20% de intenção de voto, por exemplo, num levantamento cujo erro, para mais ou para menos (daí a denominação mais conhecida de “margem de erro”), foi de três pontos de percentagem, tanto pode ter tido somente 17% dessas intenções, como 23%, ou qualquer número dentro desse intervalo de 17% a 23%. Resumindo:

[20% - erro amostral; 20% + erro amostral] =
= [20% - 3%; 20% + 3%] =
= [17%; 23%]

Então [17%; 23%] é o intervalo de variabilidade das intenções de voto para um erro amostral de 3%, numa pesquisa em que o candidato obteve uma estimativa média de intenção de voto de 20%. Outra maneira de interpretar o resultado conseguido pelo mencionado candidato, aí já aplicando algum conhecimento de inferência estatística, é dizer que ele, por ter obtido esses 20% de intenção de voto na amostra (isto é, na pesquisa), deve esperar receber entre 17% e 23% de votos na população.

Margem de erro e nível de confiança

Imagem cedida por Pierre Lucena, do blog Acerto de Contas

Mas qual é a segurança que se tem de que as estimativas dessa pesquisa retratem a verdadeira preferência de toda a população, quer dizer, como ter certeza de que as intenções de voto da população por aquele candidato situam-se entre 17% e 23%? Fazendo a pergunta de outra forma: se a eleição fosse hoje (à época da pesquisa) como se poderia assegurar que o referido candidato receberia uma votação de, no mínimo, 17% dos votos e, no máximo, de 23%?

Certeza absoluta não se tem nunca, mas pode-se estabelecer, estatisticamente, certo nível de confiança que indique uma alta probabilidade (“quase certeza”, grosseiramente falando) de aquelas estimativas espelharem a realidade. Em geral este nível é determinado de comum acordo entre o instituto de pesquisa e o cliente. Admita-se que esse nível seja de 95%, nível que é predominantemente usado nas pesquisas de opinião, incluindo as eleitorais.

Isso significa que há uma probabilidade de 95% do percentual de eleitores que manifestou intenção de votar no referido candidato estar compreendido no intervalo de 17% a 23%. Abertas as urnas, o candidato deve, “quase certamente”, receber de 17% a 23% dos votos da população, havendo apenas 5% de chance de isso não ocorrer.

Ou, visto de outro prisma, se fossem realizadas 100 pesquisas com o mesmo modelo desta sob análise (e todas elas sempre representando as características demográficas e socioeconômicas do universo), em 95 delas as intenções de voto do candidato em questão estariam dentro do intervalo de 17% a 23%.

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13/05/2010

Minha irmã, Waleska

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13/05/2010

Dr. Gentil Porto

Copa não paraliza jogo eleitoral

12/05/2010

Por Mauro Paulino, Diretor-Geral do Datafolha, para a Folha de S.Paulo (12/05/10)

Há um mito disseminado no meio político de que durante a Copa do Mundo o eleitor se desconecta da campanha, e mudanças no quadro eleitoral só acontecerão após o fim do torneio. Estrategistas de campanha que se pautarem por essa crença podem se equivocar.
Mudanças significativas em eleições anteriores demonstram que muitos eleitores permanecem sensíveis aos movimentos dos candidatos mesmo durante trajetórias vitoriosas da seleção brasileira.

Desde 1994, quando se realizou a segunda eleição direta para presidente após o regime militar, o processo eleitoral coincide com a Copa. Já naquele ano, ocorreram fatos importantes que impactaram a disputa eleitoral, enquanto Bebeto e Romário despontavam como ídolos nos Estados Unidos. Uma semana antes da abertura do torneio, Lula liderava com 22 pontos de vantagem sobre Fernando Henrique. Uma semana após o Brasil sagrar-se campeão, a diferença havia despencado para três pontos.

Em 1º de julho, três dias antes da partida contra os EUA pelas oitavas de final, Itamar Franco lançou o Plano Real. A conquista de um título mundial após 24 anos de espera não foi suficiente para desviar a atenção dos brasileiros sobre as importantes medidas econômicas e eleitorais tomadas durante a campanha do tetra.

Em 1998, FHC se reelegeu liderando a disputa do início ao fim. Em apenas um momento foi ameaçado por Lula: durante a Copa da França, quando a seleção mesclou a experiência de Dunga e Taffarel com jovens talentos como Roberto Carlos, Rivaldo e Ronaldo. Às vésperas da abertura do torneio, o presidente viu sua vantagem de 17 pontos sobre Lula cair para 3, reflexo da demora em reagir diante da seca nordestina e do desgaste por ter chamado de “vagabundos” os que se aposentavam com menos de 50 anos. A sensibilidade social de FHC foi questionada pelos eleitores às vésperas da Copa e sua recuperação se deu enquanto o país discutia também a convulsão de Ronaldo e o show de Zidane na final contra a França. Logo após a derrota da seleção, o presidente recuperou a vantagem e a manteve até a vitória em primeiro turno.

Em 2002, enquanto a “família Scolari” seguia para a Coreia do Sul, Lula liderava a disputa eleitoral com uma vantagem de 26 pontos sobre José Serra e Anthony Garotinho, embolados na segunda posição.Graças a uma inserção comercial programada para o início de junho, já com a Copa em andamento, Ciro Gomes saiu dos 11% que obtinha na primeira semana de junho para 18% no início de julho, empatando com Serra, enquanto Lula caía.

Esse movimento ocorreu durante a fase final da conquista do penta por Marcos, Roberto Carlos, Rivaldo e Ronaldo, recuperado do joelho. Em meio às comemorações, Ciro Gomes continuou subindo e encostou em Lula, graças também à associação de sua imagem à da mulher, Patrícia Pilar, atriz que, de cabeça raspada, lutava contra o câncer. Mais adiante, já distante da Copa, Ciro declarou que o papel de Patrícia na campanha era “dormir” com ele, além de destratar um ouvinte em entrevista de rádio. Ciro voltou a 11%, Lula recuperou-se e bateu Serra no segundo turno.

Na Copa de 2006, a seleção de Parreira chegou como favorita, mas foi eliminada pela França em semifinal marcada pelo episódio da ajeitada na meia de Roberto Carlos. Lula manteve a liderança do início ao fim da campanha e venceu o segundo turno contra Alckmin. Assim como a Copa, a eleição não empolgou os brasileiros e foi, entre as quatro, a única que não teve movimentos importantes nas intenções de voto, nem durante o torneio. Neste ano, o último Datafolha mostra que 42% dos eleitores já revelam grande interesse pela Copa do Mundo, mas 32% também se interessam muito pelas eleições para presidente.

Entre os apaixonados por futebol, mais da metade tem grande interesse pelas eleições. Não há motivo para se acreditar que todos desistirão da eleição para pensar só em futebol.

 

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12/05/2010
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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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