OS DILEMAS DA INFLUÊNCIA

03/03/2012

Kenneth Maxwell

Folha de S.Paulo, 02/02/2012

Não existe caminho fácil para ganhar influência mundial. O processo acarreta responsabilidades, além de oportunidades. Nesta semana, alguns dos dilemas que o Brasil terá de enfrentar por causa disso se tornaram visíveis. Já há algum tempo, o papel que o Brasil vem assumindo na América do Sul causa inquietação aos vizinhos. Essas preocupações não costumam ser expressadas publicamente. Mas existem indicações claras.

Na Bolívia, por exemplo, um projeto de uma rodovia, que conta com o apoio brasileiro, despertou oposição entre os indígenas numa escala que apanhou de surpresa o governo boliviano, ainda que este seja encabeçado pelo primeiro presidente indígena do país.

Imigrantes haitianos vêm entrando em grande número no Brasil. A causa é a atual prosperidade do país. Mas esse influxo também é consequência indireta do destaque que o Brasil conquistou no Haiti, onde o Exército brasileiro comanda a força de paz da ONU.

Cuba oferece outro exemplo. O Brasil vem procurando obter vantagens econômicas cada vez maiores lá. O BNDES e a Odebrecht estão envolvidos em um projeto de US$ 800 milhões para melhorar o porto de Mariel. O objetivo é desenvolver os depósitos de petróleo ao largo da costa cubana.

Mas Mariel é um nome que tem significado importante para os norte-americanos de origem cubana. Estará para sempre associado à expulsão por Fidel Castro de cubanos que ele considerava como “indesejáveis” e “escória”, em 1980.

Alguns eram prisioneiros libertados das penitenciárias e pacientes libertados de hospitais psiquiátricos. Um total de 124.779 cubanos chegaram à Flórida de barco entre abril e outubro de 1980, 86.488 deles no mês de maio, o que causou um sério problema para o governo Carter e danificou ainda mais a relação entre Cuba e os EUA.

Os brasileiros costumam encarar com discreta zombaria a política americana em relação a Cuba, que entendem como uma luta de 50 anos entre Davi e Golias. E essa opinião se justifica, de muitas maneiras. No entanto sua perpetuação se deve tanto aos cubanos quanto aos americanos.

E os dilemas das autoridades também se aplicam a Brasília. Marco Aurélio Garcia, assessor de política externa de Lula que manteve o posto com Dilma, disse que “não dizemos aos cubanos o que fazer”.

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, declarou que os direitos humanos em Cuba “não são uma emergência”-isso uma semana depois que o dissidente cubano Wilman Villar morreu devido a uma greve de fome.

É fato que o governo de Dilma concedeu um visto à blogueira cubana Yoani Sánchez. Mas a realidade é que, mesmo para as grandes potências, não se pode ter tudo.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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