OPOSIÇÃO ENCOLHIDA

16/01/2012

 

Editorial do Jornal do Commercio, 10/01/2011

 O primeiro ano de mandato da presidente Dilma Rousseff não foi isento de atribulações. A queda de ministros por denúncias de corrupção acompanhou a agenda de governo boa parte do tempo, e nem isso foi capaz de abalar a popularidade da figura presidencial, que suplantou FHC e Lula em seus anos iniciais. Entre outros fatores, tal índice pode refletir a timidez de uma oposição reduzida, que não soube capitalizar as sucessivas crises ministeriais a seu favor.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 30 de dezembro, o vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB, Alberto Goldman, fez uma análise dos percalços dos nove anos da gestão petista, somando os gargalos de infraestrutura e a disparada dos gastos públicos à aparelhagem e loteamento da máquina estatal. O tucano conclui dizendo que o ano inaugural de Dilma no Palácio do Planalto registra uma “constrangedora sucessão de fracassos”. O mesmo, contudo, poderia ser dito em relação ao balanço oposicionista na esfera federal.

O que se vê hoje na Câmara, por exemplo, é a menor bancada de oposição desde a Constituição de 1988. Juntos, PSDB, DEM, PPS e PSOL perfazem 91 cadeiras, ou mirrados 17,5% da Câmara. O pior é que não se pode falar sequer de uma minoria ruidosa. Uma situação lamentável para a democracia nacional, especialmente se levarmos em conta as enormes contradições que emolduram os quase dez anos de petismo no poder central. Embalado pela estabilização econômica que preparou as bases para o crescimento, o Brasil chega a 2012 como a sexta potência mundial, ao mesmo tempo em que a condição social nas metrópoles vem se deteriorando: entre 2000 e 2010, a quantidade de gente vivendo em favelas deu um salto de 75%, passando de 6,5 para 11,4 milhões, enquanto o aumento populacional no período foi de pouco mais de 12%. No contrapé do que se esperava, portanto, como a vantagem de um governo petista – a melhoria social – o que sobressai, ironicamente, é o êxito na economia, originado com o Plano Real.

Desta forma, o Brasil segue uma nação desigual, sem que se levantem vozes altivas em nome de uma oposição apagada. O governismo domina o cenário político desde Brasília, chegando a Estados e municípios num efeito cascata pragmático que desafia a paciência da parcela da população que não se sente representada pelos partidos da situação, e muito menos, devidamente atendida por serviços públicos que persistem de baixa qualidade, entra governo, sai governo. É triste quando a novidade de um cenário apático é a criação de um partido amorfo, como o PSD, cujo atrativo é a adaptação casuística de pendor claramente governista.

O encolhimento da oposição verificado em 2011 é péssimo para o sistema democrático. Em ano de eleições municipais, vamos ver se os oposicionistas lançam bandeiras e propostas que afastem do horizonte nacional a perspectiva sombria de um Estado tentacular, assemelhado à tirania de um partido único, intocável, avesso ao debate tanto quanto imune à possibilidade da discordância que alimenta a democracia.

 

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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