O PESO DA SOMBRA

22/12/2011

Maurício Costa Romão

Eleito em 2008, o prefeito João da Costa enfrentava o grande desafio de substituir o antecessor, que vinha de uma administração bem avaliada e gozava de apreciável prestígio popular. Espremido sob o peso dessa sombra, que bancara – contra tudo e contra todos – sua vitoriosa candidatura, o novo mandatário teve pouca desenvoltura político-administrativa no primeiro ano de seu mandato, ano de lua de mel de governantes com governados.

Ao ensaiar os primeiros passos de liberdade, durante o ano de 2010, o prefeito foi paulatina e progressivamente esgarçando suas relações com o criador, a ponto de ocorrer rompimento de caráter pessoal. Esse penoso processo de afastamento, que interferiu no andamento das ações e atividades da prefeitura, deu-se simultaneamente à detecção de níveis crescentes de insatisfação da comunidade com a gestão municipal.     

Até então, todavia, o mosaico político que sustentou a ascensão do prefeito estava intacto, não obstante, vez por outra, ecoasse nos bastidores da Frente Popular certa inquietude diante da visível decomposição gerencial da cidade, reverberada urbi et orbi.

Essa relativa tranqüilidade política foi interrompida abruptamente no final de dezembro do ano passado, quando o Datafolha detectou que apenas 24% dos recifenses disseram aprovar a gestão de João da Costa à frente da municipalidade: o sexto pior índice entre as oito capitais pesquisadas.

A partir daí, aos problemas pessoais e administrativos com que se defrontava o alcaide, somava-se, agora, o ingrediente que estava faltando para justificar o início da debandada política que se seguiria: um dado concreto e insuspeito de insatisfação popular com a administração do aliado (aqui cabe o adágio que o político conhece bem: vox populi, vox dei).  Desde então, final de dezembro de 2010, o prefeito nunca mais saiu da defensiva junto à oposição, à mídia e a seus pares políticos.

As primeiras defecções políticas do arco situacionista se deram já no mês de janeiro do ano em curso. Sob o pretexto de “ocupar espaços partidários na região metropolitana” os lançamentos de pré-candidaturas próprias pelos partidos aliados foram se sucedendo, umas após as outras, ao longo de 2011. Sintoma evidente do enfraquecimento político do prefeito. Estivesse ele forte e com perspectivas eleitorais favoráveis, ninguém arredaria o pé do seu entorno.

Ademais de enfrentar problemas de saúde, felizmente superados, o inferno astral vivenciado pelo chefe do executivo atingiu seu ápice durante o período de chuvas deste ano e os conseqüentes problemas de mobilidade. Os níveis de descontentamento com a administração da cidade nunca foram tão elevados.

Em seguida, todavia, demonstrando admirável perseverança e capacidade de trabalho, o prefeito imprimiu agenda administrativa relativamente positiva no segundo semestre e iniciou um processo mais intenso de interlocução política, buscando superar seu isolamento e viabilizar-se como candidato único da situação.

O hercúleo esforço de soerguimento ainda está em curso mas, a julgar por recente pesquisa eleitoral, a estratégia de recuperação da imagem do prefeito junto à população não chegou a surtir efeito, pelo menos até o presente instante.

De fato, pesquisa de intenções de voto para prefeito do Recife, realizada pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN), em parceria com o portal LeiaJá, entre os dias 13 e 14 deste mês de dezembro, mostrou que, se a eleição fosse hoje, os pré-candidatos João da Costa e Mendonça Filho estariam tecnicamente empatados em intenção de votos, com ligeira vantagem numérica para o atual prefeito (vide tabelas e análises no portal LeiaJá).

No levantamento, a votação do atual mandatário recifense varia de 21% a 22% e a do ex-governador oscila de 16% a 18%, nos cenários em que os dois postulantes estão presentes (a margem de erro é de 3,5 pontos de percentagem, para mais ou para menos). Esses números estão bem acima dos conferidos a outros pretendentes à PCR, como Raul Henry, Raul Jungmann e Daniel Coelho, e indicam realização de segundo turno entre as pré-candidaturas líderes, João da Costa e Mendonça Filho.

Entretanto, quando o dep. federal João Paulo entra no lugar de João da Costa como representante do PT, com e ex-prefeito tendo de 46% a 48% de intenções de voto nos cenários de que participa, a eleição, se fosse realizada hoje, seria definida no primeiro turno, já que esses percentuais representam 71,8% e 77,4%, respectivamente, dos votos válidos (vide cenários no portal LeiaJá).

A sombra do ex-prefeito continua rondando a figura de João da Costa, desta feita exibindo substantivo peso eleitoral, fustigando com números o esforço de viabilização política do chefe do executivo. 

Além da convencional intenção de votos, a referida pesquisa do IPMN capta, também, alguns sentimentos dos eleitores quanto ao ambiente político-eleitoral que permeia a corrida para a prefeitura do Recife. Dentre essas impressões mentais dos eleitores, foram selecionadas, neste texto, para breves comentários, a avaliação da presente administração, as manifestações de admiração nutridas em relação ao prefeito e, por último, as revelações explicitadas de apreço ou aprovação.

Nestes três itens mencionados, o prefeito João da Costa não está nada bem. Com efeito, a avaliação de sua administração só é considerada ótima e boa por apenas 21% dos eleitores, enquanto que o percentual do governo Eduardo Campos nesses itens chega a 66%, conforme se pode observar na Tabela 2. Chama à atenção, também, a avaliação negativa da atual gestão à frente da cidade: 45% dos eleitores a consideram ruim ou péssima, contra apenas 5% que são atribuídos à gestão estadual.

Fonte: Elaboração própria com base nos dados da pesquisa IPMN/Portal LeiaJá

 

 

Quando o eleitor é estimulado a externar seus sentimentos quanto à perspectiva de João da Costa vir a ser reeleito, ele o faz de forma peremptoriamente contrária a essa possibilidade: 71% disseram que o prefeito não merece ser reeleito e apenas 21% disseram que ele merece (Tabela 2).

Note-se que esse percentual de 22% de eleitores que gostariam de premiar o prefeito com a reeleição está consistente com o mesmo quantum que faz avaliação positiva de sua administração (Tabela 1). Da mesma forma, é natural se esperar que os eleitores que consideram a atual administração ruim ou péssima (45%) rejeitem um segundo mandato para o prefeito. Como o percentual dos que não querem João da Costa comandando de novo a prefeitura é de 71%, é razoável admitir que os eleitores que conferem avaliação apenas “regular” ao prefeito também não desejam, em sua grande maioria, dar-lhe nova chance executiva.

Quando se inquire os eleitores sobre sua faculdade de sentir admiração pelo atual gestor do município recifense, os números são contundentemente desvantajosos para João da Costa: 74% dizem que não o admiram. Depreende-se deste quesito que a imagem do prefeito, envolvendo atributos pessoais, políticos e administrativos, está muito desgastada junto à população.

 

Neste momento, ainda distante do pleito, com o quadro de candidaturas ainda indefinido, não há elementos que possam auxiliar na formulação de prognósticos abalizados. Fica patente, todavia, que os números da pesquisa em apreço – um mero veículo estatístico de aferição da opinião pública – espelharam o sentimento prevalecente da população, neste instante de tempo, que é de rejeição à atual administração e à figura do prefeito. Isso não obstante sua pequena liderança numérica, em termos de intenção de votos, nos cenários de que participa sem a sombra de João Paulo pairando sobre seu entorno.

No decorrer do próximo ano, já um pouco mais no clima eleitoral, com novos e sucessivos levantamentos, aí sim, os indicativos de intenção de votos, complementados com manifestações de sentimentos do eleitor, poderão configurar determinadas tendências.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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