O LIMITE DA ÉTICA

27/07/2011

 

O LIMITE DA ÉTICA

Editorial do Jornal do Commercio, 27/07/2011

Um enredo de espionagem, subornos e outros golpes baixos sacode dois alicerces da sociedade britânica: a política e a imprensa. O primeiro-ministro David Cameron, envolvido no escândalo de grampos telefônicos ilegais, está sob pressão, e as investigações das relações obscuras entre o magnata da mídia Rupert Murdoch e os governantes ingleses ameaçam esmiuçar detalhes incômodos dos bastidores do poder no Reino Unido. Por outro lado, o caso já provocou o fechamento do maior tabloide do país, pondo em suspeita todos os veículos de comunicação pertencentes a Murdoch, com repercussões no mundo inteiro.

Terra de sólidas tradições democráticas, a Inglaterra dá um mau exemplo no jogo sujo em busca de informações privilegiadas. O que se imaginava como parte do trabalho de uma imprensa independente, revelou-se o resultado de relações promíscuas entre alguns veículos e o meio político. Na rede abastecida com dados fornecidos por detetives, escutas e delações, para forjar notícias de interesse privado, contrariando o interesse público, a imprensa britânica sai contaminada e perde credibilidade, por causa do avanço infeliz sobre o limite da ética.

A executiva Rebekah Brooks, já demitida, que cuidava das empresas de comunicação de Murdoch no Reino Unido, confessou em depoimento que fazia uso de detetives para apurar notícias. O mais grave é que ela afirmou que isso era uma prática comum na imprensa britânica. O jornalismo investigativo sempre teve suas controvérsias, mas não pode sucumbir aos piores subterfúgios para gerar manchetes atraentes. É um mandamento clássico do bom jornalismo respeitar padrões éticos desde a apuração até a exposição de uma reportagem. Há muito tempo se desconfia que as empresas de Murdoch passam por cima dos manuais, e portanto o que se vê agora não chega a configurar grande surpresa. Dono de um império que reúne canais de TV e centenas de jornais, o magnata acusou o golpe e busca a todo custo se retratar diante do público. “Quebramos a relação de confiança com o leitor”, disse ele, aproveitando para chamar a concorrência de desleal depois que ele foi “pego com as mãos sujas”.

O fechamento do tabloide News of the World pode significar o marco inicial da decadência de um dos grupos mais tradicionais da mídia internacional. E influenciar outros meios de comunicação, favorecendo sua raiz democrática. O lucro provindo do sensacionalismo é execrável, e o prejuízo para as pessoas exploradas, como adverte o caso britânico, é enorme.

A imprensa brasileira não está livre de equívocos, como comprova a lembrança do noticiário sobre a Escola Base, de São Paulo. No entanto, exemplos como os de Murdoch realçam o comportamento de profissionais que buscam se manter limpos, dignos da responsabilidade que possuem. O Jornal do Commercio e todos que compõem o Sistema JC de Comunicação condenam com veemência qualquer prática que desvirtue a atividade jornalística naquilo que esta tem de mais nobre: a capacidade de despertar a atenção da sociedade perante a informação verdadeira, honestamente apurada.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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