O DESTINO E A PRÉVIA

27/02/2012

Merval Pereira, O Globo

Apud Blog do Noblat, 26/2/2012

As trapaças do destino acabaram aprontando das suas na sucessão paulistana, que se transformou em centro da disputa nacional pelo poder entre PT e PSDB. O partido que escolhia seus candidatos “ouvindo as bases” deixou de fazê-lo quando chegou ao poder real, passando a impor seus preferidos às direções regionais e a reservar para Lula o papel de candidato único à Presidência da República, sem contestações.

Já ao PSDB, diante de um quadro partidário fragmentado e sem grandes nomes para disputar a prefeitura de São Paulo, não restou alternativa que não fossem as prévias, uma maneira de a direção partidária lavar as mãos na escolha de seu candidato, deixando que a frágil militância tucana decidisse o destino do partido que, pela primeira vez em muitos anos, a direção não conseguiu definir.

Agora que o ex-governador José Serra parece ter decidido concorrer à prefeitura, não há mais como desistir das prévias e aclamá-lo candidato único, como era a vontade da direção nacional no início do processo.

O próprio Serra, e o governador Geraldo Alckmin, encarregado de fazer as sondagens iniciais com os pré-candidatos a prefeito, chegaram à conclusão de que não realizar as prévias seria um mau começo para uma eventual campanha de Serra.

Ele disputará as prévias, com o apoio das executivas nacional e estadual, e, provavelmente, será o vencedor. Mas terá que cumprir essa etapa.

As prévias, embora existam ainda no estatuto do PT, assim como a defesa do socialismo, foram se tornando um hábito arcaico, um modelo que não serve mais aos interesses embutidos no estágio de poder a que o partido chegou a nível nacional.

O ministro Gilberto Carvalho, representante formal de Lula no governo Dilma, chegou a dizer que seria “um desastre” a realização de prévias para escolher o candidato petista à prefeitura, como chegou a defender o senador Eduardo Suplicy.

Pelo menos coerente ele é, naquele seu jeito sonso de fazer política. Ele e Cristovam Buarque, ambos senadores petistas na ocasião, comandaram uma rebelião na escolha do candidato do partido à Presidência da República em 2002, depois de Lula ter sido derrotado quatro vezes anteriormente, duas para Collor, no primeiro e segundo turnos de 1989, e duas no primeiro turno para Fernando Henrique em 1994 e 1998.

Os dois lançaram dentro do partido a ideia de que Lula deveria dar lugar a uma candidatura de renovação — a mesma tese, aliás, que Lula defendeu agora para tirar da disputa pela prefeitura Mercadante e Marta Suplicy e lançar Fernando Haddad.

Colocaram-se então à disposição do PT para ser esse candidato, a ser escolhido em uma prévia. A candidatura de Lula mais uma vez era bancada pela direção nacional, que, no entanto, não teve força para evitar as prévias.

Cristovam acabou desistindo da empreitada, mas sua pretensão de confrontar o “grande líder” não foi perdoada: convidado para ser ministro da Educação do primeiro governo Lula, acabou demitido por telefone meses depois e teve de sair do PT, indo para o PDT, onde foi candidato a presidente contra Lula nas eleições de 2006.

Suplicy levou adiante sua candidatura e foi massacrado, perdendo por 84,4% a 15,6%. No início do processo atual, para irritação do ex-presidente Lula, ele decidiu pedir a realização de prévias no PT para a escolha do candidato à disputa pela prefeitura de São Paulo em 2012.

O verdadeiro obstáculo ao “dedaço” de Lula que indicou Haddad como candidato era, porém, outra Suplicy, a ex-prefeita Marta, que, até o momento, não aderiu integralmente à campanha petista.

Aguarda o desfecho dos acordos com o prefeito Gilberto Kassab, do PSD, para tomar uma decisão. Já disse que, com Kassab, não sobe no palanque de Haddad, mas quem deve salvá-la dessa saia justa política é nada menos que seu algoz, o ex-governador José Serra.

Com a decisão de disputar a prefeitura, Serra terá o apoio “incondicional” do PSD do atual prefeito Gilberto Kassab, que está no cargo devido ao apoio do então governador Serra à sua reeleição em 2008, contra o atual governador Geraldo Alckmin.

Os tucanos estão à frente do governo do estado de São Paulo há nada menos que 16 anos, e retomaram o controle da prefeitura em 2004, quando Serra, derrotado em 2002 para a Presidência da República por Lula, venceu a petista Marta Suplicy, tendo como vice Gilberto Kassab, àquela altura no DEM, que assumiria o posto para Serra disputar (e vencer) o governo do estado em 2006.

Esse verdadeiro “samba do crioulo doido” da política paulista leva, portanto, o PSDB a mudar seu sistema verticalizado de escolha de candidatos para uma prática mais democrática.

Tentando fazer do limão uma limonada, os dirigentes tucanos viam nas prévias a possibilidade de impulsionar uma revitalização da militância tucana na capital paulista, o que daria novo fôlego ao partido, mesmo sem um nome forte para candidato.

Agora, as prévias se transformarão num primeiro teste para a candidatura de José Serra, que pode sair delas tão fortalecido partidariamente quanto Lula saiu das prévias petistas para vencer a eleição presidencial de 2002.

A candidatura de Serra tem a motivação menos pessoal e mais partidária de quantas eleições já disputou: o partido precisa dele para tentar manter o poder na capital, para Geraldo Alckmin disputar a reeleição no governo do estado em 2014 em condições de vencer.

Caso contrário, o PT estará pronto para assumir o controle político de São Paulo, reduzindo o espaço da oposição ainda mais.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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