NÃO, OBAMA, VOCÊ NÃO PODE

20/09/2012

Clóvis Rossi

Folha de S.Paulo, 04/09/2012

Barack Hussein Obama seduziu a América e uma parte do mundo a partir um slogan (“Yes we can”) que é bobinho. Poder, tudo pode. O problema é fazer. Quatro anos depois, às vésperas de Obama ser de novo entronizado como candidato, vê-se que o presidente pôde pouco, ainda mais se se levar em conta o grau de expectativas que despertou, não só com a retórica sedutora, mas, principalmente, pelo fato de ser o primeiro negro a chegar à Casa Branca.

Obama continua ligeiramente favorito, dizem as pesquisas, mas o entusiasmo que cercou a sua campanha de 2008 esfumou-se, a ponto de ter a vitória ameaçada até por um candidato opaco como Mitt Romney.

Há uma certa crueldade nesse fato, porque a gestão Obama esteve longe de ser um desastre. Ao contrário, ele evitou o desastre que ameaçava tragar a América (e o mundo) quando se elegeu. Basta ler o tenebroso retrato desse momento traçado por uma revista (“The Economist”) que simpatiza pouco ou nada com o ativismo estatal que foi instrumental para evitar o abismo.

“Jamais, desde 1933, um presidente americano havia prestado juramento em um ambiente econômico tão sombrio como aquele em que Obama pôs sua mão esquerda sobre a Bíblia em janeiro de 2009.

O sistema bancário estava perto do colapso, duas grandes fabricantes de carros deslizavam para a bancarrota; e o emprego, o mercado imobiliário e a produção apontavam para baixo”. Sinistro, não? Mas a tragédia foi evitada, em grande medida, porque o gerenciamento da crise pelo presidente “foi impressionante”. Tão impressionante que a revista cita um estudo que mostra que os pacotes de estímulo lançados por Obama criaram ou salvaram 3,4 milhões de empregos.

A crueldade se dá por dois lados: Obama pode ter salvado milhões de empregos, mas, mesmo assim, nos seus quatro anos de gestão, o desemprego subiu de 7,2% para 8,3% -ou 1,7 milhão de desempregados a mais. Os empregos perdidos vão na conta de Obama; os salvos, não.

Segundo lado: evitar o desastre pela via do ativismo estatal custou uma catarata de dinheiro público, o que elevou em US$ 5,4 trilhões a dívida pública. Não adianta a liberal “Economist” reconhecer que, “quando os lares, as firmas e os governos locais e estaduais estão cortando seu débitos, o governo federal teria tornado pior a recessão se fizesse o mesmo”.

Sensata, mas inútil constatação. A histórica “Estadofobia” do americano, anabolizada pela ascensão dos ultrafóbicos do Tea Party, transformou Obama em um irremediável perdulário com o dinheiro alheio, em vez do homem que brecou a recessão.

A crueldade, inerente à política, não é em todo o caso o único problema a dificultar a reeleição do presidente. Obama prometeu ou, ao menos, insinuou com o seu “we can” que podia tudo.

Não podia, não pôde.

A revolução que a cor de sua pele e a sua bela retórica prometiam mal saiu do lugar. Pior: os americanos abaixo da linha de pobreza passaram de 39,8 milhões para 46,2 milhões. Em vez de revolução, involução.

crossi@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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