NÃO À CORRUPÇÃO

09/09/2011

 

Editorial da Folha de S.Paulo, 08/09/2011

Mesmo sem aglutinar grande multidão, protestos no país demonstram estimulante indignação popular diante da atual onda de escândalos

Não se confirmou o volume prometido de presença popular nas manifestações contra a corrupção deste Sete de Setembro. Marcados pela internet, os protestos confirmaram que a facilidade de arregimentação das chamadas redes sociais não se traduz em apoio proporcional na rua. Para que isso ocorra, o recurso, ainda que complementar, a meios tradicionais de organização civil é necessário.

Os atos de ontem indicam, contudo, uma reação estimulante e cidadã contra os níveis alarmantes de desrespeito e desfaçatez demonstrados por autoridades no trato com o dinheiro e os interesses da coletividade. Esse aspecto positivo se ressalta diante do poder e da penetração dos grupos interessados em combater e desestimular manifestações do gênero.
Forças que no final do século 20 se alinhavam aos protestos -sindicatos, “movimentos sociais” e partidos na órbita do PT- desde 2003 se refestelam no governismo. Alguns militantes trocaram de lado: das marchas anticorrupção no passado para as cadeias da Polícia Federal e as denúncias do Ministério Público, hoje.
Preservaram, no entanto, um discurso tático e oportunista, reabilitado dos anos 1950 e 1960, para rebater ondas de crítica pública contra as falcatruas descobertas no governo federal. Seria tudo obra de golpismo partidário, da tentativa de forças “conservadoras” de desestabilizar uma gestão “progressista” eleita nas urnas.
Esse mesmo despiste, aliás, foi utilizado dentro do governo de Dilma Rousseff por grupos cujo objetivo era abreviar a faxina em ministérios marcados por patrimonialismo, empreguismo e ineficiência. A presidente entendeu o recado e emitiu sinais que sugerem capitulação.
A diversidade de bandeiras nos atos de ontem pelo país refletia a força das agendas locais e a pluralidade dos grupos em marcha. Em Brasília, por exemplo, a recente absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), em processo que previa sua cassação na Câmara, galvanizou o protesto.
Unidos na aversão aos escândalos que se sucedem, os movimentos também convergem, decerto, numa agenda básica de respeito ao cidadão. Ela passa por reduzir drasticamente os cargos de indicação política na administração pública em todas as esferas; acabar com o voto secreto para a cassação de parlamentares; instituir a prestação de contas on-line de campanhas, com identificação do doador e do destinatário; e exibir, também na internet, todas as vias por onde flui dinheiro público.
Além disso, é preciso agilizar os processos judiciais, para que a chaga da impunidade não continue a dar vazão ao escárnio que figuras notórias, “progressistas” ou “conservadoras”, despejam sobre a indignação da sociedade.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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