NA RETA FINAL

29/10/2010

 

Editorial de Folha de S.Paulo, 28/10/2010

 Campanha eleitoral chega ao fim deixando a sensação de que candidatos preferiram a encenação democrática ao debate de ideias e propostas Encerra-se amanhã o horário eleitoral gratuito, reiniciado na campanha de segundo turno em 8 de outubro.

 Também amanhã à noite acontecerá o último debate televisivo reunindo os dois presidenciáveis. A petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra se enfrentarão ao vivo pela quarta vez em quatro semanas, desta feita na Rede Globo. Não se pode dizer que tenham faltado oportunidades para que os candidatos apresentassem suas propostas ao país. A carga de exposição dos dois em campanha, no entanto, resultou, em muitos aspectos, numa experiência mais exaustiva do que esclarecedora.

 Há que se destacar, quanto a isso, a saturação das fórmulas adotadas nos debates televisivos. Engessados por regras e interdições que as coordenações das campanhas impõem às emissoras, os encontros acabam por preservar os candidatos de um escrutínio mais franco e revelador.

 A vacuidade de propostas -o tucano não apresentou programa de governo e a petista divulgou na última hora apenas uma lista de diretrizes- é preenchida por ataques e subterfúgios que aumentam a animosidade entre militantes, mas diminuem a inteligência da discussão. As conveniências dos postulantes prevalecem sobre os interesses do eleitor.

Para evitar a sensação de que, mais e mais, os períodos eleitorais se consomem numa mera encenação democrática, seria preciso, entre outras coisas, emancipar o jornalismo de sua presença quase decorativa nos debates. É inconcebível que jornalistas não tenham sequer direito a réplicas às respostas a perguntas (em geral, só uma) por eles formuladas.

Mas não se trata apenas disso. Cada campanha tem suas características, seus assuntos, suas surpresas próprias. É incontornável a sensação de que, nesta que agora vai chegando ao final, boa parte do tempo do eleitor foi desperdiçada com discussões supérfluas, postiças ou inconclusivas. Pouco ou nada se explicitou, por exemplo, sobre o que pretendem fazer Dilma e Serra a respeito das políticas econômicas.

Omitem-se as propostas para a área cambial (referente à relação do real com as moedas estrangeiras), fiscal (de administração das receitas e dos gastos públicos), e monetária (de controle dos juros e da inflação). O grande tema, durante dias, foi o aborto. Sem dúvida assunto relevante, mas enfrentado de maneira oportunista ou ardilosa pelos dois candidatos.

O jogo da sucessão, a essa altura, parece definido. Conforme a última pesquisa Datafolha, o quadro está estabilizado há mais de uma semana: Dilma tem 56% dos votos válidos, contra 44% de Serra. Considerando-se os votos totais, há, ainda, 8% de eleitores indecisos, além de 5% que pretendem anular ou votar em branco.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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