NA PRÁTICA: A GRÉCIA SEM O EURO

22/05/2012
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Vinicius Torres Freire

Folha de S.Paulo, 16/05/2012

País pode até melhorar daqui a alguns anos, mas saída do euro vai causar colapso social e econômico

OS BRASILEIROS de uns 45 anos de idade têm experiência com troca de moedas. Talvez se lembrem de avós chamando as notas de um cruzeiro de “mil-réis” ou as de um cruzeiro novo de “mil cruzeiros”, para grande confusão nossa, crianças no início dos anos 1970. Mas essas trocas de moeda eram brincadeira de banco imobiliário, mera mudança de papel pintado. Se e quando a Grécia sair do euro, haverá o caos no sentido original da expressão grega: o vazio ou um abismo da confusão.

Trocar notas e moedas será o mais ínfimo dos problemas.

A Grécia terá de se obrigar a sair do euro se não cumprir seus acordos com a União Europeia. Não terá então mais empréstimos europeus. A fim de pagar suas contas mais ínfimas, o governo grego terá, pois, também de “imprimir” dinheiro. Para tanto, terá de ter seu próprio dinheiro, a dracma, digamos.

O governo grego tem deficit (gasta mais do que arrecada) equivalente ao valor de 5% do PIB, afora juros (que deixará de pagar, a princípio). Sem dinheiro europeu, terá de imprimir dinheiro, como já se disse, aumentar impostos e/ou cortar gastos. Quanto menos equilibrado for seu orçamento, mais dinheiro terá de “imprimir” a fim de pagar suas contas. Quanto mais imprimir, maior será a inflação. Os mais pobres ficarão ainda mais pobres.

A Grécia tem deficit comercial (importa mais do que exporta) no valor de uns 12% do PIB. A fim de pagar suas importações, terá de impor controle de capitais: euros sairão do país apenas sob ordem do governo. De outro modo, pode faltar euro para pagar compras de combustíveis, comida, remédios e outras importações essenciais.

Sem crédito internacional, sem conseguir euros por meio do comércio internacional e dada a rejeição geral da dracma (quem as trocaria por euros?), haverá penúria. A Grécia terá de limitar importações.

Por que o controle de capitais? Quem tem euros vai guardá-los no colchão ou depositá-los em bancos seguros (fora do país, em países do norte da Europa provavelmente). A nova moeda grega, a nova dracma, será impressa aos borbotões. Vai se desvalorizar barbaramente em relação ao euro. Quem puder não vai aceitá-la ou vai se livrar das dracmas assim que possível.

Provavelmente isso já deve estar ocorrendo: sangria dos bancos e fuga de capitais (as pessoas sacam o dinheiro e o enviam para fora). Com a saída do euro, o governo tende a converter todos os depósitos bancários e contratos em dracmas: a converter moeda boa em ruim. Quem puder vai tentar evitar isso. O governo, por sua vez, vai tentar policiar remessas e até fronteiras (gente com mala cheia de dinheiro).

A conversão de dívidas e contratos vai causar quebras, de bancos e empresas: gente com dívidas em euros e captação ou renda em dracmas vai quebrar. As dívidas em euros explodirão. Haverá um tumulto de processos legais, pois os euros serão, na prática, confiscados.

A princípio, haverá inflação, desvalorização brutal da dracma, falências em série, penúria no governo. O valor real do salário vai desabar, tudo ficará mais caro.

Pode melhorar depois? Talvez. Mas, com ou sem Europa, a Grécia ficará mais pobre e terá de enfrentar um tumulto social que talvez tenha consequências políticas graves.

vinit@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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