Motivações do voto

22/06/2010

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Por Luiz Guilherme Piva, Folha de S.Paulo (21/06/2010)

São três as principais visões sobre as motivações do eleitor, mas nenhuma delas isoladamente é capaz de explicar as campanhas

São três as principais visões sobre a motivação do eleitor. A primeira é classista, que distribui eleitores e eleitos pelas classes sociais e seus interesses: um preto e branco entre exploradores e explorados, com matizes como lumpens, operários, profissionais liberais, intelectuais e burgueses.

A consciência e a mobilização dos interesses definem as eleições.
O móvel econômico é o principal. O coletivo prepondera sobre o indivíduo. E o longo prazo (transformação ou conservação) subjuga o curto (benefícios). Há uma contradição nessa linha: os explorados são maioria, mas poucas vezes determinam vencedores que os representem “autenticamente”.

Daí decorrem um pessimismo (descrença nas eleições) e uma perversidade (só a revolução muda). A manipulação ideológica e a alienação é que determinam os votos. Ou: a ideologia no sentido forte (manipulação da realidade) prepondera sobre a ideologia no sentido fraco (consciência individual).

Na segunda visão, o primado é também econômico, mas individual e imediatista. Obter mais recursos econômicos é o que importa para o eleitor, que busca sempre maximizar seu benefício, sendo a eleição uma ocasião para exercer tal racionalidade.
Isso supõe que o eleitor dispõe de todas as informações para fazer a escolha que julga a melhor.
Há aqui um otimismo e uma perversidade.

O primeiro é a crença no domínio racional de todas as variáveis, o que menospreza o poder da manipulação ideológica -a racionalidade individual, portanto, prepondera sobre a ideologia no sentido forte. A perversidade é aceitar qualquer situação como escolha consciente: assim sendo, propostas de mudança são antidemocráticas.

A terceira visão é de que não há lógica econômica no voto. Eleitores se guiam pelas afinidades com as personas dos candidatos. Valem caracterizações como heróis, missionários, moralizadores, empreendedores, experientes etc.
A centralidade se dá em temas morais, políticos e intelectuais.
Nessa visão, ideologia em sentido forte e em sentido fraco se encontram em mútuo benefício.

As três visões têm validade e podem ser identificadas em camadas nas campanhas e nos resultados eleitorais. Nenhuma delas, isoladamente, porém, consegue explicar as campanhas ou os resultados.

Mas é possível delas derivar algumas relações. Sugiro que as campanhas que apelam à primeira e à terceira visão têm pretensão mais mudancista do que continuísta, e têm mais chance de sucesso quanto menor for a satisfação ou então a identificação do eleitorado com o quadro vigente.
E sugiro que as campanhas que apelam mais à segunda visão têm discurso mais continuísta do que mudancista e têm mais chance de sucesso quanto maior for a satisfação com a ordem.


LUIZ GUILHERME PIVA, economista, doutor em ciência política pela USP, é diretor da LCA Consultores e autor dos livros “Ladrilhadores e Semeadores” (Editora 34) e “A Miséria da Economia e da Política” (Manole).

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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