MERKEL PISCOU, À BEIRA DO SUICÍDIO

02/05/2012

Clóvis Rossi

Folha de S.Paulo, 30/04/2012

A chanceler alemã enfim fala em “agenda de crescimento”, uma vitória para o francês Hollande

ATENAS – O socialista François Hollande já ganhou sua principal aposta na campanha eleitoral francesa: a palavra crescimento, absurdamente ausente dos programas de ajuste na Europa, entrou definitivamente na agenda. Ainda mais agora que a chanceler alemã Angela Merkel piscou, ao anunciar sua intenção de apresentar a seus pares, na cúpula de junho, uma “agenda de crescimento”.

Foi em entrevista ao “Leipziger Volkszeitung”, apenas 24 horas depois de ter rechaçado a proposta de Hollande de renegociar o pacto fiscal que a Europa adotou em março.

Ótimo para a Europa. Como havia dito Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, em recente passagem por Lisboa: “Se a Europa persistir em promover políticas de austeridade vai caminhar para o suicídio”.

Os números lhe dão razão: segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, o clubão dos 34 países mais ricos do mundo (o Brasil não participa porque não quer), 18 de seus integrantes viram o poder de compra dos salários cair em 2011 sobre 2010.

Uma dúzia deles ou já está em recessão ou enfrenta uma desaceleração forte. Os desempregados são 25 milhões na Europa, com registros inacreditáveis em países como a Espanha (24,4%, o mais alto em 18 anos) ou na Grécia (21,8%, ao entrar no quinto ano de recessão).

Stiglitz enfatiza o que deveria ser óbvio: “a austeridade por si só não funciona” e que “é preciso crescimento”.

Merkel não foi tão longe quanto o “enfant terrible” dos economistas, mas nem por isso deixou de defender um papel mais ativo do Banco Europeu de Investimentos na luta contra a crise, no que é, aliás, outra vitória de Hollande: o favorito para vencer a eleição francesa incluiu idêntica proposta em sua agenda de campanha.

É claro que a “agenda de crescimento” de Merkel carece ainda de detalhes, mas o que já vazou permite intuir que não se trata apenas de agarrar-se ao credo liberal, segundo o qual basta sanear as contas públicas para que a confiança dos mercados volte e, em seguida, retorne também o crescimento.

Tampouco se trata somente de esticar o prazo para a redução do deficit, o que apenas traria alívio momentâneo a determinados países.

É bom deixar claro que a retórica de Hollande não é introduzir crescimento em vez de austeridade, mas crescimento além de austeridade.

A entrevista de Merkel demonstra, em princípio, que ela pode ser inflexível, mas não é surda. A pregação pelo crescimento vinha sendo crescente a partir da vitória de Hollande no primeiro turno: o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, chegou a falar em “pacto de crescimento”; o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, insinuou convocar uma reunião de cúpula, pouco depois do segundo turno francês (dia 6) para discutir o crescimento; e até o tecnocrata primeiro-ministro italiano Mario Monti parece estar se convencendo de que toda a austeridade que está impondo à Itália será insuficiente sem crescimento.

A conversão de Merkel é, no entanto, o sinal mais forte de que a Europa quer evitar o suicídio.

crossi@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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