MEDO E BEBEDEIRA EM PORTO RICO

01/05/2012

Marcelo Coelho

Folha de S.Paulo, 25/04/2012

Antes de “Diário de um Jornalista Bêbado”, Johnny Depp já tinha feito um filme baseado na vida de Hunter Thompson (1937-2005). Só que as carraspanas e pirações do criador do “jornalismo gonzo” eram tão intensas em “Medo e Delírio” (Fear and Loathing in Las Vegas), feito por Terry Gilliam em 1998, que não aguentei assistir a mais de 20 minutos da coisa toda, pelo menos no DVD.

O filme atualmente em cartaz (intitulado “The Rum Diary” no original) é bem menos bizarro. Não há, por exemplo, lagostas gigantes tentando se hospedar num hotel-cassino. Só uma língua gigantesca, saindo como uma serpente da boca de um bom amigo, nos informa que Paul Kemp (o alter ego de Hunter Thompson no filme) andou exagerando no consumo de outras substâncias além do rum e da cerveja.

Ele não tinha afundado totalmente no alcoolismo quando foi parar em Porto Rico, no começo da década de 1960. Arranjou um emprego num jornaleco local, o “San Juan Star”, cuja Redação reúne bêbados em vários estágios de declínio.

O jornal é feito para os turistas americanos que consomem o sonho de um paraíso nos trópicos, enquanto espertalhões elegantes se entopem de dinheiro construindo resorts nada ecológicos nas praias do lugar.

Claro que os habitantes tradicionais serão expulsos do paraíso, conhecendo não apenas a miséria (afinal, já eram pobres de qualquer jeito), mas também a falta de rumos para a própria vida e a arrogância americana.

A história de “Diário de um Jornalista Bêbado” lembra bastante certos romances de Graham Greene, como “Nosso Homem em Havana”, escrito alguns anos antes. Mas em Graham Greene há mais complexidade moral, e nem tantas garrafas de bebida em volta.

Nos dois casos, todavia, trata-se de criticar a tradicional vontade americana de moldar o mundo à sua própria imagem, nem que seja à custa de destruí-lo totalmente.

É assim que um ricaço do setor hoteleiro expõe suas ideias sobre Cuba a um Johnny Depp entorpecido: os Estados Unidos têm de jogar uma bomba atômica na ilha, para devolver a liberdade a seus habitantes.

Claro que, atrás desse delírio de destruição salvadora, existe um grande medo -e o pequeno grupo de brancos que domina Porto Rico volta e meia se sente ameaçado, quando vê “nativos” demais se juntando à sua volta.

O personagem vivido por Johnny Depp está cercado de medo por todos os lados. Gostaria de denunciar, mas não sabe como, as tramoias dos americanos. Sendo americano, também se assusta quando conhece a revolta, a violência e a macumba dos porões porto-riquenhos.

Sente medo também num de seus primeiros encontros com a belíssima Chenault (Amber Heard), namorada do mandachuva ianque. Ela o desafia no bom estilo do século passado: até que ponto terá coragem de acelerar o carrão conversível numa estrada cheia de curvas?

A metáfora não é tão sexual quanto parece. Talvez seja símbolo, justamente, da outra forma de macheza a que os personagens se dedicam: a de enfiar o pé bem fundo, não no acelerador do automóvel, mas no máximo de jaca disponível nos bares de San Juan.

Bebem até cair para mostrar que não têm medo de beber até cair. E também porque a realidade exige deles uma coragem que não são capazes de ter quando sóbrios.

E quanta sobriedade aparente existe naqueles hotéis impecáveis, na música suave daquelas festas perfeitas, no movimento sedoso daquelas piscinas iluminadas a noite inteira! Mais uma vez, é o encanto pasteurizado dos anos 1960 que se vê a um passo de entrar em crise. Como que pressentindo a própria fragilidade, não por acaso aquele mundo se entregava a fantasias de destruição atômica.

Ou destruição alcoólica. Nesse sentido, a ingenuidade crítica de Hunter Thompson e seus amigos não difere muito do cinismo confiante dos milionários que ele quer combater. O maniqueísmo está tão presente nas ideias do jornalista “gonzo”, viciado em álcool, quanto nas do investidor republicano, viciado em dólares. A partir daí, é claro que cada um pode construir um inferno de acordo com seus próprios medos.

“Sinto o cheiro de canalhas”, diz Johnny Depp ao descobrir o poder de seus inimigos. “Sinto o cheiro da verdade”, acrescenta. “Sinto o cheiro de tinta”, completa, reafirmado sua vocação de jornalista. Faltou falar no cheiro do álcool, que cobra o preço desse heroísmo frágil.

coelhofsp@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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