MAU EXEMPLO

26/01/2011

 

Editorial do Jornal do Commercio, publicado em 26.01.2011

Alguns deputados estaduais que parecem não se preocupar em como será deixada para as futuras gerações a sua biografia e que acabaram sendo cassados pelo povo – que não os reelegeu – tomaram no final de mandato, agora em janeiro, algumas medidas que demonstram bem o seu pouco, ou nenhum, compromisso com a coisa pública. Depois de tentarem – sem sucesso – empregar parentes na Assembleia Legislativa, usaram o conhecido “jeitinho brasileiro” e fizeram aumentar para o valor máximo a gratificação de servidores lotados em seus gabinetes. Um deles chegou a “premiar’ 13 assessores com o teto de gratificação, uma cortesia com o chapéu alheio que deixa à mostra a formação de algumas pessoas escolhidas para representar o povo.

É lastimável que isso esteja acontecendo em Pernambuco, onde temos contabilizado importantes avanços nos últimos anos, mas é compreensível, porque o avanço que se deu foi material, de crescimento dos indicadores da economia. Outros indicadores, como o humano que ainda aprisiona parte de nossa população, ou o ético, que persiste como uma assombração sobre segmentos da classe política, esses em nada mudaram e o exemplo das generosas gratificações de deputados em fim de mandato, no recesso, é apenas uma parte dessa doença social.

Pena que o médico responsável – a sociedade organizada que vota – não tenha ainda percebido que lhe cabe o poder de ministrar a medicação para cada doença na atividade pública, seja conhecida ou apenas previsível. Para tudo a bula legal pode impedir que o mal se propague, como tem acontecido em todos os níveis de poder. Exemplo aí está com a generosidade do poder público federal para com seus cargos comissionados, seja no valor da remuneração, seja no número mastodôntico de servidores, chefe de chefe, subchefe de subchefe, gerando uma malha que o povo reduz a uma simples expressão do excesso burocrático que retarda a modernização de nosso País: o famoso subcarimbador interino.

Esse deputado estadual que teve seu mandato cassado pelo voto e gentilmente premia 13 assessores com 120% de gratificação é apenas um exemplo mais recente. Outros são igualmente generosos com seus auxiliares e até realçam uma das faces dessa máquina monstruosa e inexplicável de poder que gera poder, pelo poder, sem qualquer benefício para a sociedade. Pois, que benefício representa para o nosso ou qualquer outro Estado da Federação um deputado ter à sua disposição vinte assessores? Noutros tempos, quando a atividade parlamentar tinha a mesma complexidade de hoje, apenas menos sujeita à parafernália legislativa – muitas vezes alimentada apenas para legitimar o absurdo – tivemos grandes e célebres políticos sem assessorias, sem a tecnicidade que se pretende dar ao nada, ou quase nada.

No fim de tudo, permanecem as deformações do poder, legitimadas pelas leis que eles mesmos elaboram e a população é quem recebe a fatura. Sim, porque a prodigalidade dos nossos políticos, seja em proveito próprio, seja em proveito alheio – que termina revertendo para seu proveito pessoal – só funciona com o dinheiro que todos nós, contribuintes, pagamos. De nossa parte, a falha se torna, então, mais evidente quando, mesmo sabendo que é a sociedade quem paga o gasto dos seus ilustres representantes, não cobra a depuração dessa grande farra, que começa na própria remuneração, na inchação dos gabinetes, nas verbas especiais que chegam a ser ridículas na destinação, nos gastos com transportes, nos voos de turismo, e por aí vai.

Enquanto a sociedade não se conscientizar de que não basta apenas saber que isso existe mas que é preciso impedir que continue, nossos representantes vão continuar reproduzindo o que estamos vendo durante este mês de recesso, com os gastos crescendo, mais verbas sendo destinadas para alimentar cabos eleitorais, a um custo muito alto para todos. Principalmente porque esses recursos são desviados de atividades que realmente interessam: melhores serviços públicos.

2 Comentários
Jose Mendonça Correa de Araujo

Caro Romao,gostaria de receber materia sobre a quntidade de cargos comissionados das capitais brasileiras. Grato pela sua atençao.

Jose Mendonça Correa de Araujo

Gosto muito da forma e conteudo do seu blog.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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