MAIS TEMPO NA ESCOLA

18/09/2011

Editorial da Folha de S.Paulo, 17/09/2011

O aumento dos dias de aula faz sentido, mas precisa ser acompanhado de ganho de eficiência, com menos faltas e professores mais capacitados

Para um país que almeja igualar seus indicadores educacionais aos de nações desenvolvidas, é preciso gastar mais e gastar melhor. Apesar de avanços recentes, nosso investimento por aluno na educação básica representa apenas um quarto do valor médio da OCDE, entidade que reúne principalmente nações ricas.


É preciso aumentar o gasto por aluno -retirando os recursos não do contribuinte, pois em matéria de carga de impostos o Brasil não deve nada a nações ricas europeias, mas de áreas menos essenciais da administração. É necessário, ao mesmo tempo, cobrar mais eficiência de um sistema acostumado a usar mal seus recursos.
O raciocínio se aplica à proposta feita pelo ministro da Educação de aumentar o tempo que os alunos passam na escola. Fernando Haddad preconiza ampliar de 200 para 220 dias o calendário mínimo, aumentar o período médio diário de horas na escola, hoje em torno de quatro, ou combinar as duas iniciativas.
Vale notar que Haddad, há mais de seis anos no ministério, veiculou só agora a proposta -e mesmo assim de modo vago-, quando se avizinha sua provável candidatura à Prefeitura de São Paulo.
A ideia de aumentar a carga letiva, entretanto, encontra respaldo em diversas pesquisas. Trabalho do economista Naercio Menezes Filho concluiu que uma das variáveis que mais afetam o desempenho de um aluno é o seu tempo de permanência na escola.
Evidências vêm também de estudos internacionais, como o feito pelo sociólogo Karl Alexander nos EUA. Ao aplicar testes no fim do período letivo e no início do ano escolar subsequente, identificou que os alunos mais ricos melhoravam o desempenho, o que não acontecia entre os mais pobres. Nas férias, a desigualdade crescia.
Mais tempo em aula e menos de férias, portanto, tende a beneficiar principalmente aqueles que mais precisam da escola. No entanto, a medida será menos efetiva se não for acompanhada de mudança nas práticas pedagógicas.
Num trabalho em que comparou escolas de elite com as que atendiam as crianças mais pobres no Brasil, a educadora Paula Louzano mostrou que, entre as mais ricas, 75% declaravam ter conseguido cobrir praticamente todo o conteúdo do currículo esperado no ano. Nas mais pobres, a proporção não passava de 8%.
Não serão 20 dias a mais no ano ou algumas horas adicionais que farão as escolas que atendem alunos mais pobres se igualarem às melhores. É preciso diminuir o prejuízo causado por faltas e greves, além de preparar melhor o professor para otimizar o tempo de sala de aula.
Sem tocar nessas e em outras feridas educacionais, a injeção de mais tempo e recursos no sistema pode contribuir apenas para aumentar a coleção brasileira de boas ideias subaproveitadas.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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