LOUROS DO PRÓPRIO SUCESSO

25/07/2012

 

Benjamin Steinbruch

Folha de S. Paulo, 17/07/2012

O Brasil está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso; há várias tarefas a fazer

Quem acompanha esta coluna conhece minha posição intransigente na defesa dos interesses nacionais. Não hesito em saudar iniciativas que privilegiem o capital nacional nem em exaltar resultados positivos da economia brasileira.

Nacionalismo, porém, não deve ser confundido com ufanismo. Em junho, o economista indiano Pankaj Ghemawat fez uma advertência que ganhou pouco destaque na mídia brasileira. Em um evento em Edimburgo (Escócia), ele disse que o Brasil precisa “parar de apenas se autocongratular pelas conquistas econômicas e passar a pensar no que precisa ser feito para ganhar mais espaço no mercado global”.

Ele está certo. O Brasil melhorou muito nos últimos anos. Conquistou a estabilidade, deu ênfase a programas de inclusão social, adotou mais seriedade fiscal, formalizou grande parcela da economia subterrânea, criou milhões de empregos regulares, acumulou reservas e ganhou prestígio internacional.

Feito isso tudo, porém, o país está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso. Há várias tarefas a fazer, muitas delas frequentemente repetidas, como a redução da carga tributária e do “custo Brasil” em geral, o cuidado com a educação e a saúde, a desburocratização. Uma tarefa muito importante refere-se à mudança de mentalidade na direção de privilegiar os investimentos produtivos.

Vivemos no país um longo período de farra financeira. As elevadas taxas de juros, verdadeiras aberrações, permitiam ganhos financeiros fabulosos a especuladores e a investidores. A aplicação em títulos públicos, com risco zero, pagava taxas sempre superiores às da inflação.

Isso está acabando. A redução dos juros para níveis quase civilizados -na semana passada a Selic foi cortada para 8% ao ano- começa a criar a percepção da importância da atividade produtiva.

Colocado diante da costumeira crítica ao crédito teoricamente subsidiado oferecido pelo BNDES para investimentos, o ministro Guido Mantega reagiu há dias com a seguinte afirmação: “No dia em que o setor financeiro privado estiver presente, emprestando no longo prazo, eu reduzo [o crédito] do BNDES”.

De fato, a ação financiadora do setor público, principalmente por meio do BNDES, é indispensável porque compensa a escassez de fundos de longo prazo para financiar investimentos, um dos entraves históricos ao desenvolvimento do país. Isso, porém, exige grande esforço fiscal do Tesouro Nacional, que se vê obrigado a mobilizar dezenas de bilhões de reais por ano para essa finalidade.

Há quase dois anos, o governo baixou um conjunto de medidas regulatórias e fiscais para estimular o lançamento de títulos privados de longo prazo necessários à captação de recursos para financiar os investimentos produtivos. Embora aplaudidas, as medidas não foram suficientes para desenvolver esse mercado e estimular a emissão de títulos lastreados em investimentos das empresas brasileiras.

Um excelente trabalho de dois economistas -Ernani Teixeira Torres Filho e Luiz Macahyba-, com apoio do Iedi, concluído em junho, propõe uma série de medidas complementares às de dois anos atrás para “quebrar a inércia” do mercado de títulos de longo prazo.

O trabalho, técnico, é uma crítica construtiva elogiável num momento em que a crise global obriga o país a repensar sua política monetária, seu mercado financeiro e, principalmente, sua forma de alavancar investimentos do setor privado.

A recomendação de Ghemawat exige reflexão. Mais do que nunca, tendo o país alcançado um nível invejável no cenário internacional, é preciso apressar a correção de velhas distorções que emperram o desenvolvimento econômico. São medidas necessárias para avançar e para prevenir problemas maiores.

Em novembro de 2008, no auge da crise do Lehman Brothers, a rainha Elisabeth fez uma visita à London School of Economics, “templo” acadêmico da Inglaterra. Normalmente comedida em suas declarações públicas, diante do quadro em que a economia mundial parecia se aproximar do “juízo final”, ela não resistiu e fez uma pergunta que embaraçou a todos: “Por que ninguém previu isso?”.

BENJAMIN STEINBRUCH, 59, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.

bvictoria@psi.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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