JOGANDO NA CONFUSÃO

01/03/2011

Editorial da Folha de S.Paulo, 27/02/2011

Proposta de novo partido vem distorcer ainda mais um quadro político marcado pelo oportunismo e pela inautenticidade ideológica

Oportunismo político e rigidez jurídica se combinam curiosamente no Brasil. Sinal recente dessa mistura são as movimentações do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do DEM, no sentido de criar um novo partido político.

Aliado do tucano José Serra, o prefeito despontou como uma liderança importante no quadro político estadual. O futuro eleitoral de Kassab, entretanto, se vê estreitado pelo acúmulo de nomes rivais no PSDB, numa eventual eleição para o governo de São Paulo, e pela dificuldade de seu próprio partido em firmar raízes e prosperar no cenário paulista.

Com todos os defeitos que se conhece -entre os quais o de congregar as mais ossificadas oligarquias do Nordeste- o DEM foi adquirindo, durante os oito anos do governo Lula, uma identidade própria no Congresso Nacional. Soube desempenhar, com estridência até, um papel de denúncia e contraponto ao padrão chapa-branca que dominou, em torno do PT e do PMDB, a vida política federal nos últimos anos.

Ficar na oposição por mais tempo, todavia, parece ser uma exigência insuportável para muitos. Melhor é fortalecer a já hipertrofiada base de Dilma Rousseff no Legislativo. Vem dessas circunstâncias o impulso para a criação do novo partido. A novidade decorre de outro fator, o jurídico. Até algum tempo atrás, a troca de siglas era feita sem qualquer cerimônia no Congresso; eleito pela oposição, o deputado ou senador aderia à primeira legenda que passasse por perto, desde que pró-governo.

A Justiça Eleitoral decidiu, entretanto, que parlamentares trânsfugas devem perder o seu mandato. A resolução pretendia fortalecer o sistema partidário, amarrando o político à agremiação pela qual foi eleito.

Mas o PDB de Kassab resulta de um subterfúgio a essa norma. Os políticos que abandonam seu partido para ingressar num outro novo em folha não são punidos por infidelidade. Faça-se, então, uma sigla. Mas ela não nasce para durar: funde-se por inteiro, numa segunda etapa, a um partido já existente -no caso, o PSB, destino antevisto desde o início pelos formuladores da operação.

A distorção, portanto, é tripla. Esvazia-se um partido oposicionista. Cria-se um partido artificial, espécie de catraca, trampolim ou seja lá que nome tenha. Junta-se, por fim, sob uma sigla nominalmente socialista, uma leva de políticos que mantém laços com a indústria e o agronegócio.

Haveria, sem dúvida, espaço para diferentes alternativas políticas para além da cisão, ao mesmo tempo artificial e já clássica, entre PSDB e PT na política brasileira. O PDB faz o contrário, na verdade: busca manter um pé no PSDB paulista e outro na base do governo federal. É o governismo exacerbado, em estado de fusão; ou melhor, de confusão, completa e irrestrita.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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