INTRODUZINDO O “FATOR DE VOLATILIDADE DO VOTO” NAS PESQUISAS ELEITORAIS

09/11/2012

 (Nota Técnica p/ Discussão)

Maurício Costa Romão

As pesquisas de véspera não podem ser comparadas com o resultado oficial porque há um número significativo de pessoas que não estavam com voto consolidado. O acertar é muita sorte” (Márcia Cavallari).

”… é um equívoco comparar a pesquisa da véspera com o resultado das urnas numa eleição marcada por mudanças bruscas nas intenções de voto”. (Mauro Paulino).

Imprevisibilidade

Os principais institutos de pesquisas de intenção de votos conseguem prognosticar acertadamente, dentro da margem de erro, cerca de 95% dos resultados nas eleições majoritárias do país. Este ano não foi diferente.

Entretanto, após algumas estimativas incorretas no primeiro turno desta eleição, o que reavivou as críticas aos institutos de pesquisa, o Ibope e o Datafolha, através de seus dirigentes técnicos, Márcia Cavallari e Mauro Paulino, em respectivo, deram exatamente a mesma justificativa para a ocorrência dos resultados diferentes dos registrados nas urnas.

Os executivos tributam tais disparidades a um fenômeno que se tem detectado recentemente nas eleições brasileiras: a paulatina mudança de comportamento do eleitorado que, cada vez mais, posterga sua decisão de voto para os dias finais das eleições.

Isso traz à tona um desafio adicional para as pesquisas eleitorais: o aumento do já elevado grau de volatilidade do eleitorado e a consequente imprevisibilidade do voto, ou, simplificadamente, “a volatilidade do voto”. 

De fato, como lidar com uma situação em que, por exemplo, 20% dos eleitores não declararam candidato na pesquisa de antevéspera ou de véspera do pleito? Só se vai saber a destinação desses 20% de votos depois dos eleitores pressionarem a tecla “confirma”. Antes disso, mistério total.

Aí pode acontecer como no primeiro turno deste ano em Teresina. Na antevéspera da votação, o Ibope apontou o candidato à reeleição, prefeito Elmano Férrer (PTB), oito pontos de percentagem à frente do segundo colocado, ex-prefeito Firmino Filho (PSDB). Abertas as urnas, o tucano é quem ficou cinco pontos acima do oponente petebista.

Pesquisa sem erro?

Até aí, tudo bem:

(1) a pesquisa eleitoral não deve ser considerada como uma ferramenta estatística de acertar resultados, mas apenas como um mero instrumento de predição, que aponta tendências a partir de levantamentos sucessivos;

(2) o erro em pesquisa eleitoral é inerente à sua própria concepção: a pesquisa lida com amostra que, por mais representativa que seja, sempre será uma amostra de uma população;

(3) há um novo modus agendi do eleitor, postergando sua decisão de voto para os estertores dos pleitos, que implica em aumento do grau de incerteza quanto à destinação do voto.

Então, de (1), (2) e (3), deduz-se que as pesquisas de véspera das eleições cometerem equívocos de estimativa, fora da margem de erro, não é motivo para crucificação dos institutos.

O que causou espécie, entretanto, foram as declarações dos mencionados dirigentes, refutando as críticas aos seus institutos. Disseram eles, em síntese, que dada essa volatilidade do voto, resultados fora da margem de erro não podem ser considerados erros das pesquisas!

Essa justificativa suscita, de pronto, a seguinte questão: quando é afinal que um instituto de pesquisa erra? Até agora tem sido consensual no meio técnico que estimativas fora da margem de erro são consideradas erros dos institutos. Mas se o intervalo de erro não serve mais como referência de desempenho, o que é que serve então?

Desse jeito, fica-se no seguinte comodismo técnico: prognósticos dentro da margem de erro, os institutos acertam; fora da margem, os institutos não erram. Corolário: os institutos nunca erram!

Votos indecisos

 A preocupação dos institutos de pesquisa no estágio final das eleições é apresentar os resultados de intenção de voto em termos de votos válidos (votos totais menos os votos em branco e os votos nulos), já que será nessa modalidade que a divulgação oficial dos números do pleito será feita.

Assim, quanto ao percentual de eleitores que se intitularam indecisos (que pode ser maior do que o percentual dos que disseram que iam votar em branco ou anular o voto), qual é o procedimento dos institutos para essa categoria?

O caminho encontrado pelos institutos é subtrair os votos indecisos, assim como fazem com os votos nulos e em branco, descartando todos na passagem para votos válidos. Ou, o que dá no mesmo, é distribuir proporcionalmente tais votos indecisos entre todos os candidatos e entre os que disseram que iam votar em branco ou anular o voto, de acordo com as intenções de voto manifestas nas pesquisas.

Embora esse procedimento de repartição proporcional assegure que na transposição para votos válidos as distâncias relativas entre as intenções de voto se mantenham, o fato é que se está cometendo uma arbitrariedade. Trata-se de uma intervenção do pesquisador nos números originais captados pela pesquisa.

Em face do aumento de volatilidade do voto, essa arbitrariedade pode estar contribuindo para os frequentes equívocos dos institutos nas pesquisas de véspera. Antes, enquanto essa categoria de indecisos na pesquisa de véspera era pequena, com as manifestações espontâneas muito próximas das estimuladas, a distribuição proporcional da quantidade de votos dos indecisos não tinha porque acarretar viés ponderável nos prognósticos.

Agora, contudo, que não mais está havendo, nas proximidades dos pleitos, convergência entre as modalidades espontânea e estimulada, os percentuais maiores de indecisos detectados na espontânea podem induzir a que a atribuição arbitrária de votos aos candidatos, na estimulada, mesmo de forma proporcional, se introduza desvio de prognóstico, eventualmente expressivo.

O fator de volatilidade do voto

A instituição aqui ventilada do “fator de volatilidade do voto”, além de levar em conta a indevida interferência do pesquisador nos votos declarados indecisos, restabelece parâmetros de avaliação de desempenho dos institutos de pesquisa com base na tradicional margem de erro.

Por exemplo, imagine-se que numa pesquisa de véspera haja 30% de eleitores que não tinham candidato declarado na pergunta espontânea (em Salvador, no primeiro turno, o Ibope detectou 34%). Suponha-se que os indecisos sejam 20% e os brancos e nulos 10%.

Admita-se, para simplificar, que as declarações espontâneas de voto em branco e nulo sejam aproximadamente iguais às mesmas categorias na pesquisa estimulada (que, em geral, tende a ficar no entorno dos resultados das urnas), de sorte que toda a imprevisibilidade do voto repouse nos indecisos.

A ideia é adicionar essas declarações dos eleitores indecisos à margem erro da pesquisa. Assim se os indecisos são 20% e a margem de erro é de 3%, então a margem de erro ajustada pelo fator de volatilidade é 3,6%. Em resumo, se i são os indecisos, m a margem de erro, f o fator de volatilidade e m* a margem de erro ajustada, tem-se:

m* = m + f, onde f = i.m

Então, quanto maior o percentual de indecisos, maior é o fator de volatilidade e, consequentemente, maior a margem de erro ajustada.

Aceita esta metodologia, ao invés de se desconsiderar a margem de erro como parâmetro de desempenho, como chegou a ser proposto, as pesquisas: (a) reconheceriam sua incapacidade técnica para lidar com aumentos no grau de imprevisibilidade do voto, em particular, e com as “ondas de opinião”, em geral, e (b) manteriam seu arsenal preditivo passível de avaliação de desempenho.

O pesquisador estaria, enfim, pedindo vênia à comunidade científica para aumentar sua amplitude de erro, de sorte à incorporar parâmetro que seja uma proxy da volatilidade recém detectada no comportamento do eleitorado brasileiro.

Ao mesmo tempo, o pesquisador, como contrapartida, submeteria seus achados ao crivo da avaliação tradicional: prognósticos fora da margem de erro ajustada são considerados erros dos institutos de pesquisa.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e de Mercado, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br, http://mauricioromao.blog.br.

 

2 Comentários
Juliana

Ótimo texto! parabéns pela renovação do blog! excelente!!!

Shirley

Excelente texto!! Os institutos de pesquisas estão querendo pouca coisa.... eles querem só o bônus... O Blog está lindo. Parabéns!

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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