Interpretando as pesquisas eleitorais

24/05/2010
 

George Gallup (sentado), Revista Veja, Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

Por Maurício Costa Romão

Por que mesmo com níveis de confiança tão elevados (por exemplo, 95%, 99%) e margens de erro relativamente pequenas (tais como 3%, 2%) ocorrem discrepâncias entre os resultados finais dos pleitos e as estimativas dos institutos de pesquisa?

Essas discrepâncias são, como se sabe, motivo de inúmeros questionamentos de quem se sente prejudicado pelas estimativas realizadas. É comum, nestes casos, por-se em dúvida a idoneidade e a capacidade técnica dos institutos de pesquisa, não raro levantando suspeição sobre suas supostas “veladas intenções de favorecimento a determinadas candidaturas”.

Não é demais reiterar, em consonância com o que foi discutido em posts anteriores, que o erro nas pesquisas é inerente à sua própria concepção, fundamentadas que são em métodos estatístico-probabilísticos. Esse fatalismo estatístico transfere o foco do erro em si, que é inevitável, para a interpretação que se deve dar às pesquisas e seus resultados.

Nesse contexto, é oportuno salientar que a pesquisa eleitoral detecta o sentimento da população naquele determinado instante de tempo em que está sendo realizada. É, como se costuma dizer, uma fotografia (snap-shot) daquele momento específico. Esse sentimento pode mudar sob a influência de vários fatores: propaganda, desempenho dos candidatos, fatos novos, guia eleitoral, alianças políticas, etc.

Um ou mais desses e de outros fatores afetam o comportamento dos eleitores entre uma pesquisa e outra e entre tais pesquisas e a data do pleito. É a dinâmica social em curso, o que explica por que candidatos que aparecem eleitos hoje figuram entre derrotados amanhã.

Naturalmente, quanto mais próximo do dia da eleição, mais as estimativas tendem a bater com os números oficiais, porquanto tais influências já estarão cristalizadas no eleitor (vide pesquisa de boca de urna, a que geralmente apresenta menor diferença entre as estimativas e os resultados oficiais porque capta a decisão do eleitor logo depois de ele votar).

Por desconhecimento do seu real alcance, é muito comum as pessoas considerarem as estimativas de uma dada pesquisa como projeção dos resultados que se vão materializar no futuro. Quer dizer, de pesquisas isoladas, à vezes de uma única, inferem que tais resultados vão acontecer de fato mais à frente, no dia do pleito, no caso da pesquisa eleitoral.

Ledo engano, e motivo de um sem-número de decepções (e de críticas aos institutos de pesquisa). A pesquisa não projeta o futuro. É simplesmente uma ferramenta científica que se presta a detectar e antecipar determinada tendência, a partir de levantamentos sucessivos que tenham características semelhantes de desenho amostral. Deve-se, então, buscar interpretá-la consoante a mensagem principal que transmite: fotografias de momentos. A sequência dessas fotografias é que pode oferecer uma nítida imagem de tendência.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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