GLOSSÁRIO DE NOÇÕES ELEITORAIS E DE PESQUISA (Primeira Parte)

23/07/2010

Por Agenor Gasparetto

Eleições: processo de escolha, mediante votação secreta, dos dirigentes e de representantes para cargos eletivos.  

Pesquisas eleitorais: método utilizado pelos institutos de pesquisa para sondarem, por amostragem, a predisposição de votar dos eleitores.

Função principal das pesquisas eleitorais: refletir a realidade num dado momento do processo sucessório. Trata-se de um corte, um flash com margem de erro, sendo esse conhecido. Como a realidade é dinâmica, nela atuando sujeitos e estando em confronto estratégias e ações visando capturar a intenção de voto dos eleitores, os resultados de uma pesquisa eleitoral tende a ficar progressivamente defasados. Uma pesquisa, aqui, equivale a função de um termômetro. Mede a temperatura. Todavia, não cabe ao termômetro uma função de cura, mas apenas de diagnóstico. Obviamente, um bom diagnóstico melhora e muito as condições de intervenção.

Função instrumental das pesquisas eleitorais: uma segunda função possível dos resultados de uma pesquisa eleitoral deriva de sua utilização com finalidade de propaganda. Aqui, mais importante do que a função de informação de um quadro diagnosticado importa sua presumível atuação junto a decisão do eleitor, induzindo-o a alguma forma de voto útil, ao voto ganhador. As principais formas dessa instrumentalização são: divulgação de pesquisas defasadas, que captaram uma realidade pretérita e que não permanece. Todavia, essa divulgação pretende reduzir a velocidade de mudança do quadro, retardando-a com a projeção como se fosse hoje um quadro de semanas anteriores. Uma outra modalidade é divulgar os resultados concernentes à expectativa de vitória como se fossem resultados de intenções de voto. Todavia, essa variável reflete principalmente volume de propaganda e não necessariamente intenções de voto. Pode ser até um bom indicador de poder (ou de abuso de poder) econômico num processo eleitoral. Como há uma predisposição de parte do eleitorado em não votar em quem não tem viabilidade (voto útil) ou para não perder o voto, a presença massiva da propaganda contribui para criar um clima de vitória.  Um outra modalidade é sonegar algumas informações, divulgando-as seletivamente. Por exemplo, não divulgar os resultados da estimulada e de rejeição se na espontânea é observado o melhor desempenho da candidatura interessada nessa divulgação. Uma outra modalidade, essa no âmbito da delinqüência,  é divulgar pesquisas falsas utilizando nome de algum instituto com credibilidade.

Prazo de validade de uma pesquisa: para uma pesquisa não ser qualificada como de validade vencida precisa ser atual.   Ou, se não for atual, ter a garantia que está refletindo um quadro estabilizado. É aqui que é relevante a presença de um Sociólogo. Cabe a esse profissional fazer a leitura e interpretação da realidade e informar da natureza da situação. Via de regra, quanto mais próximo estivermos de uma eleição, menor é o prazo de validade de um resultado eleitoral. Na véspera de uma eleição, os institutos não sustentam por mais de alguns dias os seus resultados. E isto porque a realidade é dinâmica e, por vezes, numa disputa acirrada, em um dia o quadro muda. Aqui, sentar na cadeira de prefeito na véspera poderá implicar e não fazê-lo no dia seguinte à eleição. Há quadros que seis meses antes a situação está definida. Em outros, é preciso esperar a contagem dos votos. Mais uma vez, aqui a palavra de um Sociólogo pode fazer a diferença.

Pesquisa e urnas: nenhuma pesquisa pode ter a pretensão de substituir a eleição propriamente dita. A pesquisa por excelência é a própria eleição. Nesse sentido, ainda que os institutos tenham a pretensão de passar à sociedade uma pretensão de infalibilidade, no propósito de criarem, consolidarem ou recuperarem sua credibilidade ou por razões de sobrevivência, o fato é que toda pesquisa é uma aproximação da verdade que a realidade contém. O eleitor não deve se impressionar com sinais de arrogância desse tipo, frutos da pretensão acima referida.  

Pesquisa espontânea: consiste na resposta do eleitor entrevistado à pergunta que sonda sobre sua intenção de voto. É sempre a primeira questão de cunho eleitoral formulada. Capta o que se passa na cabeça do eleitor quando o assunto é prefeito a ser  votado. O resultado a essa questão informa sobretudo a intensidade da campanha ou nível de internalização pelo eleitor de uma campanha. No fundo, tende a refletir o volume ou massificação do nome do candidato, embora seja um bom indicador de desempenho dos candidatos. Quando mais próximo estivermos da eleição, mais altos tendem a ser os percentuais de eleitores que apontam um ou outro candidato. No dia da eleição tende a coincidir com a pesquisa estimulada, já que serão poucos os que permanecem alheios ao processo de escolha do novo prefeito, por exemplo.

Pesquisa estimulada ou induzida ou ainda motivada: aqui, o eleitor é informado sobre os candidatos que estão em disputa. Dentre os nomes que lhe são expostos, é convidado a apontar um. Essa resposta é a pesquisa eleitoral propriamente dita. Avalia o desempenho dos diferentes candidatos.

Pesquisa de rejeição: essa é a pesquisa estimulada na sua forma negativa. O eleitor é convidado a apontar os nomes dos candidatos em quem não votaria de jeito nenhum. É possível que nenhum seja rejeitado. É possível que um ou mais sejam rejeitados. E também é possível que todos sejam rejeitados. Quando isso ocorre, na estimulada, o eleitor terá apontado que votará nulo, ou branco ou que não comparecerá a seção eleitoral para votar no dia da eleição. Esse eleitor é avesso aos políticos e talvez à prática política. Trata-se de uma forma de protesto.

Indecisos: as pesquisas chamam indeciso o eleitor que na pesquisa estimulada não apontou nenhum nome e não votará nem nulo e nem branco. A rigor, indeciso significa quase sempre indiferente. Trata-se do indivíduo desinteressado pelas eleições e que até a véspera não sabe em quem irá votar e sendo o voto obrigatório vai a sua seção eleitoral e faz alguma escolha. Pelo seu nível de desinformação e desinteresse, é bastante suscetível de influência pelas pesquisas ou pela boca de urna. Há, evidentemente, também eleitores realmente indecisos.

Quem vai ganhar ou expectativa de vitória: a pergunta sobre quem irá ganhar a eleição é um bom indicador de volume ou massificação da propaganda. Não é necessariamente um bom indicador de intenções de voto. Quando alguma candidatura apresenta esse dado o faz com intuito de propaganda e é revelador de que o quadro no tocante a intenções de voto não vai tão bem quanto desejado. A divulgação dessa informação isolada consiste numa apelação e numa tentativa de iludir o eleitor, fazendo supor que haveria igualdade entre intenções de voto e expectativa de vitória. O correto é divulgar a pesquisa estimulada como indicadora do quadro de intenções de voto e não outras como essa.

Questão da influência das pesquisas eleitorais sobre o eleitor: consiste na capacidade das pesquisas em mudar a opinião e o comportamento do eleitor.

Cerne do problema da influência: situa-se no fato de que os eleitores, em conseqüência de discursos e de práticas, tendem a internalizar uma pretensão de infalibilidade dos institutos, reforçada pelos meios de comunicação. Na prática, esse  problema consiste no fato de que eleitores assumem, em graus variados, os resultados das pesquisas como verdade imune ao erro.  

Questões concernentes às pesquisas eleitorais: no plano ético, há o problema da influência, da indução; o problema da manipulação e da distorção dos resultados; o problema de converter a pesquisa num instrumento privilegiado de propaganda. No plano técnico, a margem de erro e o erro propriamente dito, o erro por incompetência sobretudo no processo de amostragem.

Significado dos resultados de pesquisas eleitorais: não há um significado único. As pesquisas assumem diferentes significações e desempenham funções diversas em função do contexto no qual são inseridas.

Significado dos resultados de pesquisas eleitorais na perspectiva dos candidatos:

a)        As pesquisas são feitas para captar momentos de um processo, são retratos. Uma sucessão de retratos pode apontar uma direção, tendências. 

b)        As pesquisas também cumprem a função de formação de opinião, influenciam, não são neutras. 

c)        assumem funções de ferramenta útil ao planejamento e para a tomada de decisões, estratégias e ações de campanha e, também,

d)        podem se constituir em peças de propaganda eleitoral. Em resumo, são informações, e como toda informação dotada de relevância, são tomadas em consideração e podem influir. 

Significado dos resultados de pesquisas eleitorais na perspectiva dos eleitores:

Na perspectiva dos eleitores, os resultados das pesquisas são informações úteis, em graus variados:

São informações que sintetizam situações complexas. Sintetizam, em percentuais de fácil entendimento, a resultante em intenções de voto. Em série, revelam tendências, a evolução do processo. Em resumo, são sínteses numéricas que têm a pretensão de conter a verdade das urnas, antecipando-a pela expressão “se a eleição fosse hoje…”, que poderia ser assim interpretada “mantendo-se tudo como está, esse será o resultado das eleições”.  Essa é a verdade de que são portadoras e nisso reside o potencial enquanto peças de propaganda, ainda que sejam apresentadas como informação disputando espaço com um mundo de outras.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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